Quanto mais o filho cresce, mais os pais se afastam da escola.
Por Juliana T. Kuchla | 24/07/2022
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Jardins de infância lotados de pais e avós. Todos querem participar de cada momento. O levar e o trazer à escola é algo prazeroso. Na infância, até os primeiros anos do Ensino Fundamental, é comum assistirmos a esta cena, onde a criança é colocada no centro das atenções de ambos os lados: por parte da família e da escola. Cada aprendizado é comemorado. Cada conquista merece um tópico no parecer entregue às famílias. Mas a pergunta que não quer calar é: quando é que os pais perdem esta vontade de fazer parte da vida escolar dos filhos?
Minha filha estava no 4º ano do Ensino Fundamental. Era o mês de novembro, quase entrando no período de férias, então ela me abordou e disse assim: " mãe, não quero ir para o 5º ano". Olhei com uma cara de quem não entendeu nada, e perguntei o porquê. Ela me respondeu: " Porque no 5º ano não vamos mais ter tantas apresentações na escola, e vocês não vão poder vir assistir. Não vai ter graça mais".
Eu compreendi. Era uma perda para ela, um momento que seria o rompimento da relação dos pais com a escola e com ela também. Ela não queria crescer, não queria " estudar como os grandes", como ela disse.
Durante anos, tudo o que ela aprendia, ela mostrava para nós. As tarefas eram momentos de sentar com o pai ou com a mãe, de receber elogios pela letra a cada dia mais bonita e pela leitura cada vez melhor. Os desenhos sempre incluíam pai, mãe e irmão. Tudo era feito com um olhar da família e para a família. Mas agora, ela iria para uma próxima fase. E a família, onde ficaria nesta nova fase de " grandes"?
É sobre isso. Sobre o papel da família dentro do contexto escolar. Sobre a importância e o espaço que a família ocupa na vida do aluno, enquanto aluno.
A tendência é que à medida que o tempo passa, os filhos crescem, os pais começam a se afastar. Aquele momento de levar atá a porta da sala de aula é substituída pelo deixar na porta da escola, e depois, em deixar no ponto de ônibus ou em alguma rua próxima. A gente encontra tempo e energia para o filho pequeno, mas o filho crescido não nos exige a mesma atenção.
Ahhh, mas eles precisam crescer, aprender, ficarem independentes.
Concordo.
Mas concordo que nós apressamos tudo, sem perceber se eles querem este afastamento. E que tudo tem seu tempo. E não devíamos pular etapas.
Os pais de hoje reclamam que os jovens estão cada vez mais precoces, mas atribuem responsabilidades cada vez mais cedo para os filhos. Sem pensar que eles terão tempo para crescer. Que 12 anos ainda é a beira da infância. Que dentro de um corpo que cresceu, pode morar uma criança que precisa ser acolhida e que também precisa da presença dos pais.
De acordo com Diogo (2010):
"Iniciando pela crítica ao funcionamento das famílias. Criticam-se os pais por se demitirem das suas funções parentais; por não saberem educar os filhos; por não assumirem a sua autoridade; por não terem tempo para os filhos; por deixarem os filhos entregues à televisão e aos jogos informáticos. O “mundo moderno” já não permitirá a “boa educação tradicional” e estará na origem da “crise de autoridade”, da “crise da família” e da crise de valores” detectadas. "
Diversos psicólogos e profissionais da área da educação concordam que a participação dos pais na vida escolar dos filhos melhora o rendimento escolar. Filhos com pais presentes e preocupados com os seus estudos estudam mais. A presença dos pais melhora as capacidades linguísticas e o desenvolvimento cognitivo dos filhos.
Além disso, a presença da família no ambiente escolar é capaz de reduzir a indisciplina tanto na escola, quanto em casa.
Para Costa (2018),
"Temos pais que encaram a Escola de uma forma transmissiva, na qual os órgãos escolares e os docentes são os únicos agentes educativos e aos pais não cabe relacionarem-se com a Escola ou transmitirem a sua visão e abordagem escolar. Este pensamento está intrinsecamente relacionado com o seu passado escolar."
Mas a escola precisa colaborar e possibilitar esta relação escola-pais. Há escolas que se fecham às famílias, à medida que os filhos passam para outros níveis de escolaridade. Muitas vezes a própria escola não enxerga com bons olhos a participação dos pais da vida escolar dos filhos.
Frases como " Aquela mãe sempre pergunta tudo". Ou então "Aquele pai fica interferindo, manda ele vir para a sala de aula ver como é". Ou ainda "Não percebem que o filho cresceu, tratam-no como bebezinho. Já é um homem, tem que se virar sozinho", quando os pais perguntam sobre o desempenho escolar do filho adolescente, ainda são muito comuns.
Para Davies, Marques e Silva (1997), existem alguns obstáculos que impedem o envolvimento dos pais na vida escolar dos filhos:
1- A tradição da separação: onde os pais habituaram-se a entregar seus filhos à escola e demitirem-se das suas funções de educadores e os professores habituaram-se a aceitar essa passividade dos pais.
2- A tradição de culpar os pais: onde os professores julgam que se os pais não buscam manter contato com as escolas, significa que eles não estão interessados na vida escolar dos filhos. E a atitude mais correta neste caso seria considerar que todas as famílias são possuidoras de aspectos positivos, os quais a escola pode utilizar.
3- Mudança das condições demográficas: que leva em consideração que uma baixa qualidade de vida que pode promover o afastamento e até o abandono escolar.
4- As estruturas escolares: a manutenção de padrões tradicionais que limitam o relacionamento com os pais a reuniões de iício de ano letivo, reuniões de associação de pais ou festas que envolvem a participação das famílias. Aliado a isso, a utlização por parte da escola de uma linguagem demasiadamente técnica que torna-se incompreensível aos pais com baixos níveis de escolaridade.
O papel da escola e do professor é fundamental para fazer esta ponte entre a Família-Escola. A escola deve ser um espaço democrático, ser sociável com as famílias e ter uma abertura social, de forma a integrar a todos. Como diz Costa (2018), esta proximidade trará consequências positivas para os seus educandos. Esta aproximação pode e deve ser fomentada através de vários contactos e quando não é possível acontecerem pessoalmente devem acontecer de forma virtual. O importante é que exista esta comunicação!!!
É necessária uma mudança de atitudes. Se a escola não acredita na importância do envolvimento dos pais, sempre irá tratar essa relação com desconfiança. Se os pais não demonstram interesse na participação e envolvimento na vida escolar dos filhos, não há resultados.
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Referências:
Costa, A. S. F. (2018). Desempenho dos pais versus sucesso dos filhos: uma leitura também geográfica. Mestrado em Ensino de Geografia no 3º Ciclo do Ensino Básico e Ensino Secundário. Faculdade de Letras, Universidade do Porto.
Davies, Don; Marques, Ramiro; Silva, Pedro (1997). Os Professores e as Famílias – a colaboração possível. 2ª ed. Lisboa: Livros Horizonte
Diogo, A.M. (2010a). Do envolvimento dos pais ao sucesso escolar dos filhos:
mitos, críticas e evidências. Revista Luso-Brasileira de Sociologia da Educação, 1:71-
96.

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