A polêmica educação positiva

"O primeiro erro que muitas pessoas cometem, quando o assunto é educação positiva, é relacioná-la ao tipo de educação permissiva, onde não há regras, onde tudo é permitido, onde a criança faz o que quer. Mas a realidade é que há como educar de forma que as regras sejam aliadas ao amor e ao respeito. O problema é que muitos adultos buscam a obediência, não o respeito dos filhos. A obediência existe quando há submissão. O respeito existe quando há confiança. E isso faz toda a diferença"

Atualizado em 03 out. 2024  | Juliana T. Kuchla

Foto: Freepik.com


"Pais mandam, filhos obedecem". Crescemos ouvindo esta frase, e digo que por muito tempo, até mesmo depois de ter os meus filhos, eu tinha este pensamento enraizado em mim. Com o tempo, muita leitura, muito empenho e desejo de mudar, percebi que a luta pela obediência não reflete, na realidade, uma relação de respeito. Pelo contrário, percebi que muitas vezes o que nós julgamos como respeito, no fundo esconde um medo dos nossos filhos por nós. 

Uma educação unidirecional é uma forma muito simplista de enxergar a educação de um filho. Há alguns anos resolvi me aprofundar no tema da "Educação Respeitosa" e foi como sair de um lago de lama escondido dentro de uma caverna escura. Sempre afirmo que a mãe que sou hoje é muito diferente da mãe que eu era há 10 anos. Um dia aprendemos, e acredito que nunca paramos de aprender, na verdade. Que assim seja.

É lamentável que em pleno século XXI, tenhamos que provar os efeitos positivos de uma educação baseada no respeito mútuo. Se não ensinamos aos nossos filhos que eles merecem ser amados e respeitados em casa, como esperamos que eles possam receber amor e respeito fora do ambiente familiar? Ou então, como eles saberão identificar uma relação amorosa e respeitosa, se o que ensinamos é uma mera aceitação e submissão?


O passado nos assombra, mas você não é a sua mãe.

Isso mesmo. Não é à toa que ao tentar explicar sobre a importância da educação positiva, sobre o desenvolvimento de uma criança, e sobre algumas justificativas do seu comportamento em determinadas fases, alguns adultos respondem com frases do tipo: "isso é muita frescura, no meu tempo a gente levava uma surra e resolvia", ou então "com a minha mãe não tinha conversa, o psicólogo era o chinelo", ou ainda "criança não opina, criança obedece e ponto final".

Como afirma Philippa Perry*, o que pode atrapalhar mais do que tudo ao educar nossos filhos é o que nos foi passado quando éramos bebês e crianças. "Se não analisarmos a forma como fomos criados e o legado deixado para nós, isso pode voltar para nos assombrar". A forma como fomos tratados na nossa infância serve como nosso guia para desenvolver as nossas relações com os nossos filhos. Pode ser que nossa infância recebemos palavras que nos fizeram se sentir amados, queridos e seguros. Ou então, pode ser que as palavras que recebemos tiveram o efeito contrário: nos tornaram adultos pessimistas, inseguros, que vivem na auto-defesa e com os sentimentos bloqueados. 

Grande parte do que herdamos fica fora de nossa consciência. Isso às vezes torna difícil saber se estamos reagindo ao aqui e agora do comportamento de nossos filhos ou se nossas reações estão mais enraizadas no passado (Philippa Perry).

Por isso, é importante tomarmos uma consciência dos nossos próprios incômodos, para evitarmos a repetição de ciclos de desafeto e de relacionamentos rompidos. 

Quando você sente raiva — ou qualquer outra emoção difícil, incluindo ressentimento, frustração, inveja, repulsa, pânico, irritação, pavor, medo etc. — em resposta a algo que um filho fez ou pediu, pode ser bom pensar nisso como um alerta. Não um alerta de que a criança necessariamente esteja fazendo algo de errado, mas sim de que seus próprios gatilhos emocionais estão sendo disparados.(Philippa Perry)

Foto: Freepik.com


Abaixo compartilho um trecho do livro de Maya Eigenmann**, que traz um depoimento da chef Paola Carossela:

"Eu fui criada com raiva. Não sem amor, mas com violência e raiva. Com desespero, eu diria. Acho que é isso que nós, adultos, sentimos, quando nossos filhos não fazem o que eles “têm” que fazer. Um certo desespero que nos tira da calma e nos enche de raiva. Hoje, consigo entender e perdoar minha mãe, mas, mesmo assim, foi esse o único exemplo de mãe que tive, foi isso que eu aprendi. Está impresso no meu DNA. Quando virei mãe, como muitas tantas pessoas, fiz um pacto comigo. Decidi que não seria igual a ela, que a fórmula usada comigo não servia para mim, e eu queria educar, construir um relacionamento com a minha filha que não fosse estruturado na raiva, mas sim na empatia, no amor."


Esse relato traz o que muitos de nós vivenciamos. Não porque nossos pais eram maus, mas porque apenas repetiam padrões que aprenderam com os nossos avós, e eles aprenderam com os nossos bisavós... O desamor perdura por gerações muito mais facilmente do que o amor. É muito mais fácil sentir raiva e agir impulsivamente com os nossos filhos do que se empenhar a compreendê-los e ajudá-los em sua construção do próprio ser. O amor dá muito trabalho.

Por outro lado, muitas vezes não fomos criados com raiva, mas sim, com excesso de cuidados que moldaram o nosso medo de tudo. Se não tomarmos consciência, passaremos estes mesmos medos aos nossos filhos.

Quando um filhos nasce, nascem as expectativas dos pais. Pensamos no seu futuro, pensamos nos cursos que iremos investir, na melhor escola em que vão estudar, criamos um "modelo ideal" de relacionamento com eles. Mas eles crescem, e formam a sua própria personalidade (ainda que sejamos suas referências), e as nossas construções começam a sofrer rupturas. 

Muitas das nossas ações e reações em relação aos nossos filhos são fruto da frustração dessas expectativas. Queremos filhos dedicados, que tirem boas notas na escola, que sejam referência nos estudos, que sejam alegres, obedientes, que aceitem tudo o que oferecemos, e o pior, queremos eles assim o tempo todo. Mas e se eles não forem como idealizamos?


Respeitar o desenvolvimento

Entre os animais, a espécie humana é a que possui a infância mais longa. É só lembrar de um filhote de uma vaca, ou de uma zebra, por exemplo,  que conseguem se levantar e acompanhar a mãe pouco tempo após o nascimento. Em pouco tempo, esses filhotes são capazes de se alimentar e suprir outras necessidades sozinhos. O mesmo ocorre aos pássaros, répteis...

No entanto, o desenvolvimento do filhote humano depende do desenvolvimento cerebral, que ocorre de forma gradativa por um longo período. A última parte do cérebro a se desenvolver é a região do córtex pré-frontal, e isso pode levar até 25 anos. Em termos evolutivos, nós humanos temos uma infância longa para possibilitar a experimentação, através de erros e acertos, o que nos dá maiores chances de sobreviver. O cérebro humano precisa da repetição para aprender (Veja mais sobre sinapses). E o que vemos é que em grande parte dos casos, pais e muitas vezes a escola, esperam que uma criança aprenda de imediato uma nova experiência. A conta nunca vai fechar. 

A infância é desenhada para errar. Infelizmente, o que nós fazemos é punir as crianças por seus erros, sendo que elas estão ali fazendo exatamente o que deveriam fazer por natureza (Maya Eigenmann).

Mas se a infância é a fase do aprendizado e da experimentação, por que exigimos tanto das nossas crianças? Por que os seus erros incomodam tanto, se eles fazem parte do desenvolvimento, da naturalidade da vida?

Muitas vezes, nós adultos confundimos sentimentos e reações com comportamentos. 

Por exemplo: "você leva a sua filha de 2 anos para um passeio no parque, veste com uma roupa e sapatos lindos que você escolheu. Em um determinado momento, a criança começa a choramingar, ficar impaciente, irritada, chora. Ela tenta tirar os sapatos, você não deixa, xinga e manda ela se comportar. Ela continua irritada, você oferece alimento, água, leva em algum brinquedo, esperando que isso melhore o comportamento da sua filha. Nada adianta, ela continua irritada, tentando tirar os sapatos e se jogando no chão. Ela ainda tem dificuldades em verbalizar o que a incomoda, o que leva você a pensar que a criança está tentanto te manipular, está sendo mal educada. Em um certo momento, você percebe que o que a incomoda é um calo no pé, por conta do sapato bonito. Ou seja, a criança estava apenas reagindo a dor, e a única forma de comunicar isso era com o choro. Você atribuiu isso ao comportamento". 

Pelo fato da criança ainda não ter as habilidades emocionais para lidar com esses sentimentos, incômodos e frustrações é que ela chora, grita, se debate. A emoção é tão forte que fica insuportável, insustentável para o cérebro da criança. Ela não se comporta assim porque quer nos fazer sentir mal, mas porque ela está se sentindo mal. Em resumo: birras são um pedido de ajuda. 

Nós, os adultos, conseguimos lidar com as nossas frustrações (ao menos espero que sim). O fato é que o nosso cérebro é capaz de se autocontrolar diante de situações adversas. Um bebê, ou uma criança, ainda não. Precisamos lembrar disso, todas as vezes que estivermos levantando a bandeira da obediência. 

Em termos de desenvolvimento, uma criança só será capaz de se acalmar e se auto-regular a partir dos 3 anos de idade. Mas vejam bem, é nesta idade que inicia o processo, não que ele concretiza. Crianças menores de 3 anos não têm a capacidade de se acalmar sozinhas: elas precisam de um adulto para fazer isso.

Vou lhe fazer uma pergunta agora: "Se um amigo seu, ou mesmo o seu marido ou esposa, chegasse para você no fim da tarde triste, ou até mesmo com raiva, por uma situação que viveu no trabalho, como você reagiria?

Primeiro, você iria ouví-lo/a pacientemente, provavelmente faria um café, ouviria um pouco mais, daria alguns conselhos do tipo: "ah, não se preocupe, essas coisas acontecem", ou "amanhã é outro dia, tudo vai passar". Você não iria gritar com o outro adulto, colocá-lo de castigo sozinho ou dizer que aquilo é uma grande besteira. O adulto tem o direito de colocar suas angústias para fora. A criança não, porque isso incomoda.

Tratamos adultos com cérebros maduros e capazes de se autoregular com muito mais cuidado do que uma criança imatura emocionalmente. A pergunta é: por que? 

Porque temos que educá-la. Porque estamos moldando a criança. Porque criança tem que aprender. Porque não podemos mimar... e é uma lista que continua....

Mas por que esse aprendizado não pode ser através do acolhimento? 


“Não percebemos os pedidos de atenção e amor dos nossos filhos porque estamos ocupados demais tentando fazê-los nos obedecer" (Jesper Juul).


Foto: Freepik.com

Existem estudos que apontam a importância do adulto fornecer apoio no processo de coregulação das crianças. Ao contrário do que muitos pensam,quanto mais ajuda a criança tiver para lidar com seus sentimentos, com suas tempestades emocionais, mais cedo ela aprende a se autoregular (Gillespie, 2015). Além disso, isso está relacionado também ao sucesso acadêmico das crianças. Serão adultos que saberão lidar melhor com o vai e vem de emoções ao longo da vida. Hoje, vemos muitos adultos que não conseguem lidar bem com suas emoções, resultante da falta de acolhimento no período da sua infância. O fato é: nós não queremos isso para os nossos filhos, certo?

É importante ressaltar ainda que o acolhimento não serve como uma ferramenta para fazer a criança se acalmar mais rápido (Maya Eigenmann). Não é esse o propósito. Além disso, devemos acolher a criança gratuita e genuinamente, não oferecendo algo em troca


O conceito de infância é recente



Na sociedade, ainda existe uma visão por parte das pessoas de que a criança é inferior ao adulto, deve ser calada, não deve ser ouvida. O adulto manda, cabe à criança apenas seguir e obedecer. Suas necessidades são colocadas abaixo das necessidades do adulto. Em resumo, defende-se ainda muito a ideia da submissão infantil.

Se fizermos uma análise histórica, o conceito de infância é recente. Até o século XVII, as crianças eram consideradas apenas "adultos de tamanho reduzido", retratadas inclusive desta forma nas artes. Não havia preocupação com as crianças, principalmente os bebês, pois a morte delas era comum devido a falta de cuidados e tratamento adequado. A inocência infantil era desconsiderada, não havia uma separação entre os jogos e brincadeiras infantis e adultos, em geral, estes eram praticados de forma coletiva sem que houvesse uma preocupação moral referente às crianças, já que elas estavam expostas a imoralidade da vida adulta. 

No século XVIII ocorreram algumas mudanças, alguns jogos e brincadeiras passaram a ser destinados unicamente às crianças, decorrente dos movimentos moralizadores e das mudanças ocorridas na doutrina religiosa. Neste período, na Europa, surgiram os primeiros livros escritos por médicos da época, que aconselhavam a educação e os cuidados das crianças na primeira infância. No entanto, estes cuidados não foram adquiridos tão facilmente, foi somente a partir de muita luta médica e vários conselhos, sobretudo referentes às tradições e crenças das pessoas, que oprimiam as crianças e inibiam os seus desenvolvimentos. 

No século XIX, a infância ainda era um período curto devido a alta taxa de mortalidade infantil, e as crianças eram inseridas na vida adulta a partir dos 7 anos de idade. 

Havia ainda uma ideia de erradicar o lado mau da criança. Nos séculos XIX e XX, conforme relata a autora alemã Katharina Rutschky no livro Schwarze Pädagogik (em tradução livre Pedagogia Nebulosa), os livros de pedagogia na Europa ensinavam que a criança nasce suscetível ao mal e às maleficências dos demônios. Esse mal, que se manifesta de variadas formas – como a “manha”, o choro “excessivo”, a sensibilidade e as birras–, precisaria ser arrancado o mais cedo possível da alma da criança. Acreditava-se que bebês precisariam ser expostos ao frio e ao calor extremo para se tornarem mais “resilientes”. Se o amor da mãe era “excessivo”, isso influenciaria negativamente na formação do caráter da criança, e os pedagogos da época chegaram a denominar esse amor de Affenliebe – que, literalmente, significa “amor de macacos” –, sendo, assim, uma forma de menosprezar esse amor e rebaixá-lo, como sendo inferior à raça humana. Esse tipo de amor era visto como primitivo. (Maya Eigenmann)**


Apesar de não considerarmos que o comportamento de uma criança seja algo demoníaco, a ideia de que a criança como um ser inferior, que deve ser controlado, que é capaz de manipular os pais, ainda persiste para muitas pessoas. Em resumo: "Crianças devem ser gratas aos pais por lhe terem dado a vida e não as deixarem esfomear."

A forma mais comum de um adulto reagir a um comportamento que ele julgue inaceitável é reprimindo o sentimento da criança que gerou aquele comportamento: "levanta daí, senão te deixo aqui e vou embora", "engole esse choro", "você não tem motivo para chorar", "não está te faltando nada". E isso persiste de geração em geração. Afinal, como os adultos mesmos afirmam: "no meu tempo, eu levava umas boas bofetadas e resolvia", "e sobrevivemos a isso, estamos aqui". 

Como Maya Eigenmann afirma, uma educação positiva e respeitosa não é para melhorar as crianças. É para melhorar os adultos que essas crianças serão. Isso porque o fruto de uma educação baseada no respeito reflete na vida adulta.

Apesar de evoluirmos muito no que se refere aos cuidados e conhecimento sobre a infância, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Há muitas crenças, costumes e práticas a serem superadas, que passaram de geração a geração, que geravam  e ainda geram malefícios a sociedade infantil. Vemos a repetição de alguns padrões herdados, ainda que eles sejam ruins. 


Mas então, como colocar em prática a educação positiva?

"Um dia seu filho cometerá um erro ou fará uma má escolha e correrá ‘para você’ em vez de ‘de você’. E nesse dia você perceberá o imenso valor da parentalidade pacífica, positiva e respeitosa." (L. R. Knost)

É surpreendente a quantidade de pessoas que criticam a educação positiva, ou respeitosa, nas redes sociais. Adultos que afirmam que isso é besteira, e que criança precisa de disciplina e regras. Mas quem disse que na educação positiva não há regras?

A ideia central da educação positiva é que na relação adulto-criança, ambos têm valor igual.

O adulto, por compreender que a criança depende dele, que não está no mesmo nível de maturidade e requer cuidados, faz uso da própria experiência de vida e das suas plenas capacidades para orientar, educar a criança, respeitando a sua total integridade.

Mas se cabe a nós, adultos, educar as crianças, como fazer para ensiná-las o que é certo ou errado?

Primeiramente, entendendo que obediência não necessariamente significa respeito. 

Na educação positiva, entende-se que a criança não precisa aprender a obedecer através do medo e da intimidação. Queremos que essa criança aprenda a responsabilidade.

Por exemplo: quando você dirige, você usa o cinto de segurança para a sua proteção ou para não correr o risco de levar uma multa? Uma situação é a responsabilidade consigo e com a sua família, outra é por imposição de uma autoridade. Se neste caso, sua ação é motivada pela imposição de uma autoridade, precisa rever urgentemente os seus valores. Agora, se você usa o cinto de segurança, ou ainda, não viaja com sua família em alta velocidade em uma rodovia, não se expõe a situações de risco pelo fato de que é consciente da sua responsabilidade pela integridade sua e das pessoas que você ama, parabéns! Responsabilidade não se impõe, mas se aprende.

Queremos criar crianças conscientes. Não queremos que as crianças evitem cometer erros, porque nos desagradam, mas sim porque fazem parte de um mundo onde certos comportamentos podem prejudicar outras pessoas. 

Não queremos que a criança aprenda a aceitar tudo passivamente, a dizer sempre sim aos adultos, pois mais tarde a tendência é que elas aceitem comandos de outros adultos sem questionar, somente pela visão de que ela deve só obedecer. É o que vemos acontecer, por exemplo, nos casos de abuso contra crianças. Uma criança que foi ensinada a aceitar os comandos a ela impostos, mesmo contra sua vontade, e que na maioria das vezes, ela não tem voz, a colocar as necessidades dos adultos acima de suas próprias necessidades, assim como os sentimentos e desejos, fica mais vulnerável a uma situação de abuso, pois é exatamente assim que os abusadores agem.

Uma educação positiva demanda tempo, empenho, desejo de mudança, tomada de consciência. Eu sei.

É mais fácil dizer NÃO, ao invés de explicar.

É mais fácil castigar do que acolher.

É mais fácil rejeitar do que abraçar.

É mais fácil julgar do que conhecer.

As punições e os castigos ensinam os nossos filhos duas coisas: primeiro, que quando eles não se comportam da forma como esperamos, perdemos a conexão existente entre nós e eles. Assim, da próxima vez é melhor ela dar um jeito de fazer escondido ou mentir, assim eles não serão castigados, pois muitas vezes, os filhos são punidos por nos contarem a verdade. Segundo, que as necessidades deles não são importantes, somente as nossas necessidades importam.

A base de uma relação respeitosa com nossas crianças é conhecê-las. Quanto mais conheço profundamente a criança, mais enxergo o que está por trás de cada reação desafiadora, de cada olhar triste, de cada choro. E isso acontece com o tempo, é preciso de prática.

Talvez os frutos da educação positiva, respeitosa, demorem mais tempo para amadurecer, eu concordo. Mas seus frutos se tornarão mais doces, não cairão do pé antes do tempo, não estragarão com mais facilidade. 

Pode ser que você não tenha sido educado de forma respeitosa, e estranhe uma criança sendo acolhida. Pode ser que você considere um questionamento de uma criança como desrespeito, porque a sua voz foi calada por repetidas vezes. É normal, afinal, pode ser que nem você saiba qual a definição de respeito, por não ter recebido o devido respeito na sua infância.

E o respeito começa quando entendemos o que é ser criança. 

Quando entendemos como a criança se desenvolve. Quais as suas necessidades. Qual o nosso papel no seu desenvolvimento.

Quando admitimos nossas fraquezas, revemos nossas crenças, nos tornamos dispostos a mudar.

Quando começamos a entender que uma criança só pensará como um adulto quando adulto ela for.

E que por razões fisiológicas, neurológicas, não podemos exigir determinados comportamentos de uma criança que ainda está em desenvolvimento. 

Quando começamos a entender a beleza das fases, com os seus aprendizados, e que a repetição não cansa...ela ensina.

Quando aprendemos a usar o nosso poder, maturidade e a nossa força de adultos para apoiar, proteger e direcionar uma criança, não para obrigar e coagir. 

Quando considerarmos a palmada um tipo sim de violência que só ensina o medo, e rompe relacionamentos. 

Quando entendemos que não precisamos fazer uma criança se sentir pior para ela se sentir melhor.

E que o comportamento de uma criança é apenas a ponta do iceberg, e precisamos mergulhar nas profundezas para compreendê-la e ajudá-la. 


O primeiro exemplo: os pais

Foto: Pexels.com


Os humanos são animais sociais. Vivemos em tribos por milênios. Somos programados para criar laços entre nós; é assim que sobrevivemos como espécie. O laço mais primário de todos é entre pais e filhos. E o que cria o laço  e sua relação é o dar e receber (Philippa Perry). Desde que são bebês, nossos filhos buscam a nossa reciprocidade. Isso é fundamental ao desenvolvimento deles (Ver mais). Somos a sua primeira referência, e com o tempo eles irão desenvolver a própria visão de mundo. Se nesta fase, a
 individualidade da criança e o seu ponto de vista são respeitados,  ela aprende de maneira inata a respeitar os outros.

Em um mundo hiperconectado, precisamos lembrar que a conexão mais importante está dentro dos nossos lares, com os nossos filhos. Na prática, não é incomum hoje o que chamo de "isolamento em grupo" dentro das famílias, ou seja, pais e filhos em seus mundos, cada qual com seus dispositivos eletrônicos, sem se comunicarem entre si. Assim, compartilha-se o mesmo espaço, mas não há diálogo, e quando há, este ocorre em muitos casos para repreender ou discutir por coisas que só aconteceram pela ausência de diálogo.

Philippa Perry em seu livro (a referência está no final deste texto), fala em um dos capítulos sobre a diafobia presente na vida cotidiana familiar.

A diafobia é a aversão ao diálogo real, ou de se permitir afetar pelo outro, de ouvir o outro.

Pode ser que você sofra de diafobia e nem saiba. Conheço muitas pessoas assim: que dizem lembrar de uma infância onde nada faltou, mas não reconhecem a falta da reciprocidade dos pais. Sim, você pode ter recebido cuidados necessários à sobrevivência, e ainda assim, ter sido negligenciado em relação aos seus sentimentos. Muitos dos nossos pais falavam para os filhos, não com os filhos. A escuta não era uma prática comum, os pais apenas mandavam (sujeito agente) e as crianças obedeciam (sujeito paciente). Vou citar um trechinho do livro da autora, para que você consiga reconhecer a diafobia em um exemplo prático:


"Minha esposa me perguntou faz pouco tempo: “Por que você não suporta que ensinem as coisas para você?”. Isso me chocou bastante. Me fez parar para pensar e percebi que tenho vergonha mesmo de não saber alguma coisa.
[...]Então, fui visitar meu pai. Ele estava se confundindo com os remédios, então fiz um quadro para ele — o que ele deveria tomar e quando. E ele disse, sarcástico: “Você acha que vivi 86 anos neste mundo sem saber como ler os rótulos desses frascos de remédios?”. Percebi que ele também odiava que lhe dissessem algo que poderia não saber. Para ser sincero, vejo que a velha postura do meu pai de “você não tem nada a me ensinar” sempre me magoou e ainda me magoa. Uma resposta mais adequada teria sido: “Obrigado por fazer isso, eu estava me confundindo”, mas ele não conseguia suportar ouvir que estava errado, muito menos do filho. Posso ter mais de quarenta anos, só que, para ele, ainda sou um menino.".


Muitos de nós repete este padrão - de achar que o filho não tem nada a nos ensinar - por ter aprendido a lidar desta forma quando ainda éramos crianças. Acabamos investindo em uma comunicação unilateral, como se fôssemos professores dos nossos filhos, cabendo a eles repetir tudo aquilo que estamos ensinando.

Como tem sido a sua comunicação com os filhos? Você dá abertura ao diálogo real, ou se coloca sempre na posição do dono da razão? Você valida os sentimentos dos seus filhos?

Aqui, finalizando este texto, comecei a lembrar das viagens quando éramos crianças, em que passávamos horas sem poder fazer xixi, porque tínhamos que parar somente quando o meu pai decidisse que era hora de parar. Alguns olham para isso como "mas veja, você viajava, que privilégio". Eu enxergo por um outro ângulo: uma relação em que um adulto deixava as necessidades de uma criança de lado, para não "atrapalhar" a sua própria organização. E em uma viagem com meus filhos, lembro da minha filha dizer que precisava ir ao banheiro. Minha reação imediata foi perguntar: "não dá pra esperar um pouquinho?", mas percebi imediatamente o erro. Então contornei a fala estúpida, movida pelo meu inconsciente, e falei: "o papai vai encontrar um lugar, e vamos parar, ok?". 

Sabem, não é sobre olharmos para trás, julgando nossos pais. É assumir que houveram falhas e erros, e parar de ignorá-los (sim, temos essa tendência para justificar nossas ações erradas de agora). Nossos pais não sabiam. Não tinham tantas informações disponíveis. Nunca leram sobre neurociência, comportamento infantil ou desenvolvimento humano. É sobre o agora, sobre você. Não há justificativa para repetir erros dos tempos da falta da informação. 

Você, pai ou mãe, é a primeira referência do filho. É você quem fornece os tijolos que ele usa para construir suas bases emocionais e comportamentais.

Lembre disso quando deixá-lo falando sozinho para passar tempo vendo vídeos de pessoas estranhas no celular. Ou quando tentar impor regras, e na prática fazer tudo ao contrário. Quando proferir palavras pesadas e duras, esquecendo de que ele está ouvindo e aprendendo cada uma delas. Quando tiver reações descontroladas, julgar pessoas na roda de conversa com os amigos, reagir impulsivamente a situações corriqueiras, xingar o motorista parado na sua frente no trânsito, etc e etc...

Você está ensinando. Depois não adiantará usar o autoritarismo para corrigir aquilo que foi mal estabelecido por VOCÊ. Nem usar frases feitas sobre "correção dos filhos". 

Que tal trocar a frase "corrija o filho", por "não dê maus exemplos que necessitem de correção"? 

É o que Provérbios (22:6) ensina: "Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele". É sobre ensinar. Ser o exemplo. E se ele aprender, não desviará, portanto, não terá de corrigí-lo.

Espero, do fundo do coração, que este texto tenha despertado em você um sentimento de esperança, assim como há anos atrás despertou em mim. A esperança de que cada criança no mundo possa ser amada e respeitada, e que se torne um adulto feliz em sua plenitude. Que nenhuma criança precise lutar para ser amada. E que todas as crianças tenham apenas uma marca da infância: a marca do amor. 💓




________________________

Fonte

* Perry, P. (2020). The Book You Wish Your Parents Had Read.Penguin Books. 272 p.

**Eigenmann, M. (2022) A Raiva Não Educa. A Calma Educa. Por Uma Geração De Adultos E Crianças Com Mais Saúde Emocional. Astral Cultural. 176p.

ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. 2.ed. Rio de Janeiro, RJ: LTC, 1981. 

Comentários

Postagens mais visitadas