Entenda o cérebro para entender a infância

Não há como falar sobre a infância sem conhecer como funciona o cérebro de uma criança. É por isso que neste artigo trago um pouco sobre como se desenvolve e funciona o cérebro infantil e como as primeiras experiências do bebê ajudam a criar os alicerces para o seu desenvolvimento completo. Você passará a compreender as ações e reações das crianças para auxiliá-las no desenvolvimento de todo o seu potencial!



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Muito prazer, eu sou o cérebro


Ainda que você não gostasse das aulas de ciências, deve lembrar que o nosso cérebro é formado por células, chamadas neurônios. Não vou me aprofundar muito aqui, mas é importante saber que o início da formação do cérebro ocorre já nos primeiros dias de vida intra-uterina.

Após a neurulação, uma fase do período embrionário que ocorre por volta do 21º dia de gestação, começa um processo de formação de todo o sistema nervoso, e também da neurogênese - formação dos neurônios. No estágio inicial, são formados 250 mil neurônios/minuto. Muitos, não é mesmo?

Um quarto (1/4) do desenvolvimento geral do cérebro humano ocorre antes do nascimento. Nestes nove meses de gestação, temos as fases de proliferação, diferenciação e migração neuronal, bem como das primeiras conexões sinápticas e podas sinápticas. Quando o bebê nasce, tem praticamente a totalidade de neurônios de um indivíduo adulto – ultrapassando 1 bilhão de neurônios.

As sinapses são as conexões que os neurônios utilizam para “se comunicar” uns com os outros. Elas ligam a “cauda” de um neurónio à “cabeça” do neurónio seguinte, permitindo uma comunicação sequencial.




Todo este trabalho de construção do cérebro da criança que teve início na gravidez continua em grande atividade nos seus primeiros anos de vida. No recém-nascido, as sinapses ainda estão desorganizadas, e os circuitos existentes são muito simples. É durante o desenolvimento que as sinapses serão organizadas em circuitos complexos, a partir das experiências e aprendizagens realizadas ao longo da vida. E é aqui que entra a importância da primeira infância!
Ao nascer, a criança tem um cérebro que corresponde a 1/4 do tamanho do cérebro adulto. Aos 3 anos de idade, o tamanho passa para 2/3 do tamanho do cérebro adulto. Durante este período, há um aumento fenomenal na formação de novos neurônios (células cerebrais) e sua ramificação para formar conexões com outros neurônios (sinapses). Estima-se que cerca de 700 novas sinapses sejam formadas a cada segundo durante este período de máximo crescimento e desenvolvimento de competências (Siburn et al., 2011).


A importância dos estímulos

À medida que o bebê cresce, ele é exposto a estímulos variados através dos cinco sentidos. A cada estímulo, neurônios são ativados e novas conexões são criadas entre eles. As sinapses representam, em uma linguagem didática, as aprendizagens vividas pelo bebê, ficando armazenadas no cérebro. Quando o bebê recebe o mesmo estímulo mais tarde, os mesmos neurônios e sinapses são re-ativados, fortalecendo a conexão já existente. É através deste processo que o cérebro do bebê aprende através da repetição. Assim, quanto mais variadas forem essas experiências, maior o número de novas sinapses criadas para registar esses estímulos.

Por volta dos 2 anos de idade, o cérebro terá cerca de duas vezes mais sinapses do que quando for adulto. No entanto, aquelas que não forem re-ativadas através da repetição serão eventualmente enfraquecidas e eliminadas através de um processo chamado de poda neural. A aprendizagem pela repetição e a poda neural explicam o porquê das rotinas e da repetição serem tão importantes num bebê: elas facilitam a aprendizagem e ajudam o cérebro do seu bebê a identificar e armazenar o que é realmente importante.

Como sabemos, até os 3 anos de idade, o cérebro da criança tem a capacidade de formar sinapses a uma velocidade enorme, mais rápida do que em qualquer outra fase da vida! Essa é a fase das descobertas, e as crianças estão aprendendo sobre tudo o que está ao seu redor.

Aos 3 anos de idade, o cérebro humano tem mais neurônios e sinapses do que em qualquer outra etapa da vida. A partir desta idade, o número total de neurônios no cérebro e suas conexões sinápticas diminuem progressivamente. Essa interação da biologia da criança com suas condições e experiências vivenciadas - particularmente antes dos 5 anos de idade - literalmente molda o circuito cerebral que constitui a base para a saúde, comportamento e aprendizagem subsequentes.



O gráfico abaixo mostra como o número de sinapses aumenta e diminui ao longo do tempo, em regiões do cérebro muito importantes para o desenvolvimento infantil. As regiões da audição e visão estão representadas pela curva amarela, a linguagem e fala pela curva azul e funções cognitivas superiores (atenção, memória, aprendizagem, planejamento e de resolução de problemas) pela curva vermelha. 

Note que o pico de sinapses ocorre dentro do primeiro ano de idade! Por isso é fundamental fornecer atenção, afeto e experiências ao bebê neste período, não desperdiçando a oportunidade de educar os nossos filhos, com rotinas, atividades e estímulos que os ajudem a desenvolver todo o seu potencial.

O período entre o nascimento e os 3 anos de idade é crítico para as aprendizagens da criança porque o seu cérebro está criando e eliminando sinapses muito rapidamente!

A riqueza e a variedade dos estímulos que proporciona ao seu filho irá condicionar o tipo de ligações que estão a ser criadas no seu cérebro. Quanto mais frequentes forem esses estímulos, mais forte e duradoura é a sinapse criada.

Por exemplo, se a criança receber estímulos positivos, demonstrações de afeto, cuidado, sinapses de “amor-e-carinho” serão criadas. Com o tempo, esse circuito de “amor-e-carinho” será fortalecido.  Mas se ao contrário, a criança receber estímulos negativos, abandono, sofrer abusos, negligências e desafeto, serão criadas sinapses de “tristeza”. Se a criança permanecer nestas condições adversas constantemente, fortalecerá este circuito. 

É por essa razão que nesta fase, não devíamos deixar uma criança desamparada, chorando sozinha, lidando com situações de estresse sem acolhimento de um adulto. Uma criança nesta fase não tem a capacidade de auto-regulação emocional, nem consegue lidar com as emoções de forma racional, nem consegue refletir sobre algo que fez: portanto, deixar uma criança sozinha não vai educá-la, mas sim, criar conexões de abandono, que serão reforçadas a cada experiência de abandono sofrida posteriormente. Assim, a criança não aprende a dormir sozinha, por exemplo. Ela aprende que está sozinha, e isto é diferente. 


A ausência prolongada de experiências de “amor-e-carinho” faz com que os neurônios e sinapses correspondentes, com o tempo, desapareçam. Como resultado, o bebê cresce sem a compreensão do amor e carinho, essencial para criar relacionamentos saudáveis e significativos na sua vida futura.

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Outra questão é o desenvolvimento da linguagem. Apesar do bebê ainda não conseguir falar fluentemente no primeiro ano de vida, ele consegue ouvir perfeitamente. Já percebeu como o bebê reconhece a voz da mãe? 

Isso porque o cérebro do bebê consegue processar estímulos verbais ainda antes de aprender a falar. E se voltar ao gráfico anterior, poderá notar que a curva da audição tem o seu pico máximo antes da linguagem e fala. Daí a importância de falar com o bebê, contar histórias, nomear objetos, descrever situações, utilizando um vocabulário rico e vasto (e não ta-ti-ta-tá). Isso fortalecerá as sinapses entre”palavra-e-significado”. Quando o seu filho começar a articular as primeiras palavras verá como esta simples atitude compensou! 

E não podemos esquecer da importância do olhar materno. Por exemplo, hoje é comum que muitas mulheres usem o celular no momento da amamentação. Bebês aprendem muito pelas expressões faciais, inclusive no que se refere à linguagem. Olhar os lábios do adulto movendo são de grande importância na fase de aquisição da linguagem.  A troca de olhares nos  momentos de colo, amamentação, é fundamental para uma comunicação pelo olhar, de forma a estabelecer  e fortalecer vínculos com a criança. 

Em resumo: o cérebro de uma criança aprende com a experiência.


Não tenha pressa

Pais e mães de primeira viagem costumam demonstrar muita ansiedade sobre o desenvolvimento dos filhos. Pode parecer que as crianças estão demorando muito para aprender coisas básicas, como dormir uma noite toda, ou ainda como pegar um objeto e segurar, ou comer vegetais sem rejeitar, mas a verdade é que o cérebro precisa de tempo para que o aprendizado ocorra. Não é da noite para o dia, e muitas vezes temos de repetir inúmeras vezes para a criança ter a compreensão de algo. E a compreensão também dependerá da maturidade cerebral da criança. 
O quadro abaixo mostra alguns dos marcos de desenvolvimento, de uma forma geral. É claro que cada criança tem seu próprio ritmo de desenvolvimento, no entanto, geralmente essas etapas começam em determinadas faixas etárias. As transformações de comportamento, aprendizado e características físicas marcam o início de novas fases na vida dos pequenos exploradores.











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Fontes:

SANTOS, Márcia Elena Andrade; QUINTAO, Nayara Torres  and  ALMEIDA, Renata Xavier de. Avaliação dos marcos do desenvolvimento infantil segundo a estratégia da atenção integrada às doenças prevalentes na infância. Esc. Anna Nery [online]. 2010, vol.14, n.3 [cited  2021-03-29], pp.591-598.

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