O cérebro adolescente

Há muitas gerações, alguns comportamentos considerados desafiadores dos adolescentes tem sido associados aos hormônios. De fato, os níveis de alguns hormônios aumentam na adolescência, desencadeando mudanças físicas que nós chamamos de puberdade. No entanto, eles não são os únicos responsáveis pelas mudanças físicas e comportamentais típicas desta fase. Além disso, não é que os adolescentes não tenham tido tempo e experiência para adquirir uma noção ampla do mundo. É que os seus cérebros ainda não amadureceram fisicamente.

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Por que os adolescentes são tão complicados?

Há muitas gerações, há uma crença de que os comportamentos típicos dos adolescentes são uma consequência da mudança hormonal que ocorre nesta fase. Apesar de não estar errado, hoje sabe-se que os hormônios por si só não são os únicos "culpados" por estes comportamentos. Na adolescência, o cérebro também sofre algumas mudanças importantes. 

O adolescente está em uma fase de insegurança, por ainda não saber o seu lugar na vida. A insegurança é um tipo de medo e, às vezes, diante dessa sensação, nosso instinto primitivo é atacar. Além disso, o funcionamento cerebral é diferente em cada fase da vida, até chegar à maturidade. A aquisição moral, a capacidade de tomada de decisão, ou de agir em conformidade com a consciência, se diferenciam nas diversas faixas etárias. É necessário, então, recorrermos às ciências especializadas no cérebro e no desenvolvimento da mente humana para que possamos melhor compreender o tema.

De acordo com o National Institute of Mental Health, são 7 coisas importantes que precisamos saber sobre o cérebro dos adolescentes:


1. A adolescência é um momento importante para o desenvolvimento do cérebro.


Primeiramente, vamos compreender o nosso cérebro. Embora o cérebro pare de crescer no início da adolescência, esta fase envolve o ajuste fino de como ele funciona.
Em termos de estrutura, o cérebro é formado de uma massa cinzenta e uma substância branca. A massa cinzenta tem esse nome por conta da tonalidade da alta concentração de corpos celulares neuronais. Na prática, é a camada mais externa do cérebro. Ao longo do desenvolvimento de um ser humano, a massa cinzenta se forma até os oito anos de idade. A sua camada externa é conhecida como o córtex cerebral, mas existem também algumas áreas de massa cinzenta nos núcleos do cérebro.
A substância branca está localizada nas partes profundas do cérebro. A aparência branca é resultado da substância gordurosa esbranquiçada que envolve os axônios, chamada bainha de mielina (ver imagem abaixo). O aumento da massa branca é o que chamamos de mielinização, o que faz com que os neurônios se comuniquem cerca de 3 mil vezes mais rápido. Esse processo começa pela parte de trás do cérebro, antes mesmo de nascermos, em direção à região frontal, continuando até por volta de 25 anos, com algumas áreas levando mais tempo para se desenvolver do que outras. 
A última região cerebral a se desenvolver é a região do córtex pré-frontal: e é justamente esta que controla o pensamento lógico e o raciocínio, desempenha um papel importante na regulação do humor, da atenção, do controle dos impulsos e da capacidade de pensar abstratamenteIsto inclui tanto a capacidade de planear com antecedência como de ver as potenciais consequências do seu comportamento antes de agir. Então, quando o adolescente precisa tomar uma decisão,esta área racional é mais lenta  na comunicação com outras regiões do cérebro. Como resultado, outras partes do cérebro acabam assumindo a liderança, especialmente a amígdala
A amígdala é o centro emocional do nosso cérebro, e isso explica muito o comportamento impulsivo do adolescente, e suas variações de humor. A amígdala é ativada por ameaças potenciais e emoções fortes como medo e raiva, levando a comportamentos de “lutar ou fugir”, agressão e respostas reflexasOs neurocientistas há muito pensam que o córtex pré-frontal maduro regula a amígdala, interrompendo as explosões emocionais, agressivas ou instintivasMas o inverso também parece ser verdade: quando a amígdala é ativada durante experiências emocionais, desliga o córtex pré-frontal.








Veja um exemplo dessa diferença entre o córtex pré-frontal e a amígdala:
Se você perguntar aos adolescentes se é uma boa ideia entrar no carro com amigos bêbados, a maioria responderá: "de jeito nenhum". Esse é o córtex pré-frontal falando.
Em momentos mais calmos, o córtex pré-frontal é capaz de pensar abstratamente e ver as consequências potencialmente terríveis de dirigir embriagado ou de outras decisões arriscadas.  Mas no calor do momento, quando os amigos esperam ansiosamente que eles entrem no carro, a amígdala relativamente mais desenvolvida grita “faça-o” antes que o córtex pré-frontal saiba o que aconteceu. Essa é a amígdala falando. O mesmo processo pode desempenhar um papel na violência adolescente, no uso de substâncias e até no suicídio. 

O que os estudos da neurociência demonstram, juntamente com os contributos da psicologia, é que o adolescente tem diminuída percepção do risco, é naturalmente impulsivo, tem uma capacidade reduzida de planejar e tomar decisões, assim como tende a buscar sensações novas e gratificação imediata, sendo mais susceptível à pressão do grupo. Tem ainda, menor capacidade de controlar suas emoções, concentrando-se mais nos atos do presente, sem pensar no futuro.

2. O desenvolvimento do cérebro está relacionado às experiências sociais durante a adolescência.


As mudanças nas áreas do cérebro responsáveis ​​pelos processos sociais podem levar os adolescentes a se concentrarem mais nas relações entre pares e nas experiências sociaisA ênfase nas relações entre pares, juntamente com o desenvolvimento contínuo do córtex pré-frontal, pode levar os adolescentes a correr mais riscos porque os benefícios sociais superam as possíveis consequências de uma decisão. Esses riscos podem ser negativos ou perigosos (como dirigir o carro de forma imprudente ou consumir drogas) ou positivos (conversar com um novo colega de classe ou se dedicar a um novo projeto).
De acordo com o Insurance Institute for Highway Safety, os adolescente são muito mais propensos do que qualquer outra faixa etária a sofrerem um acidente de carro fatal, especialmente se estiverem acompanhados de outros adolescentes. Ou seja, adolescentes em grupos tendem a correr mais riscos do que quando estão sozinhos. 

3. O cérebro adolescente está pronto para aprender e se adaptar.

O cérebro do adolescente tem uma capacidade incrível de se adaptar e responder a novas experiências e situações. Quando qualquer um de nós, adultos, quer algo que imediatamente nos faz sentir-se bem, experimentamos um pico de dopamina, o que nos motiva a buscar isso. Mas na adolescência este pico é maior. O que significa que qualquer tipo de emoção ou nova experiência (como viajar de avião, comprar algo, ir a uma festa, entre outros...) pode nunca mais parecer tão empolgante como foi nesta fase.Fazer aulas desafiadoras, fazer exercícios e participar de atividades criativas como arte ou música pode fortalecer os circuitos cerebrais e ajudar o cérebro a amadurecer.

4. Os cérebros dos adolescentes respondem de maneira diferente ao estresse.

Pelo fato do cérebro do adolescente estar em desenvolvimento, eles podem responder ao estresse de maneira diferente dos adultos, o que aumenta as chances dos adolescentes desenvolverem doenças mentais relacionadas ao estresse, como ansiedade e depressão. Nesta fase é importante reconhecer possíveis gatilhos e ajudá-los a enfrentar as situações desafiadoras, evitando o julgamento. Lembre-se que apesar de um corpo parecido com um adulto, o cérebro do adolescente ainda não acompanhou este desenvolvimento.
 
Desde que nascemos, temos um senso de nós mesmos, ainda que básico. Por volta dos 3 anos, uma criança já começa a ter noção do próprio gênero. Por volta dos 9 anos, a criança começa a desenvolver um senso de amor "romântico", e na adolescência uma nova camada de consciência surge, relacionado ao julgamento dos outros em relação a eles. Assim, o adolescente começa a desistir das suas preferências da infância para pertencer ao grupo. Nesta fase, é comum que o adolescente se sinta o centro das atenções, mesmo que não sejam. 
Na fase adulta, também existe a preocupação com o julgamento dos outros em relação a nós. No entanto, na adolescência isso é muito mais forte, podendo até mesmo reprimir o jovem por qualquer coisa que comprometa a sua posição dentro do seu grupo. 
Esta mudança está relacionada ao comportamento primitivo de se afastar da segurança da família para encontrar um parceiro, reproduzir e passar seus genes. Essa autoconsciência aumentada significa que eles passam mais tempo pensando em como eles serão vistos por um parceiro. A hipersensibilidade à recompensa e essa obsessão pelos pares levam os adolescentes a se exporem mais. 


5. As doenças mentais podem começar a aparecer durante a adolescência.

O cérebro do adolescente está passando por mudanças contínuas nesta fase, juntamente com mudanças físicas, emocionais e sociais. Isso pode aumentar a probabilidade de os adolescentes terem problemas de saúde mental. São muitas mudanças acontecendo ao mesmo tempo, o que pode explicar porque é que muitas doenças mentais – como esquizofrenia, ansiedade, depressão, perturbação bipolar e perturbações alimentares – surgem durante a adolescência. 
Hoje há muitas formas de obter um pico rápido de dopamina, o que para um cérebro de um adolescente é tentador e potencialmente viciante. A intensidade das emoções no adolescente e a necessidade de aceitação social tornam essa idade extremamente vulnerável ao desenvolvimento de doenças mentais, ao maior risco de cometer violência e vivenciá-la e também ao abuso de drogas. 


6. A maioria dos adolescentes não dorme o suficiente.


Você já brigou com o seu filho por ele ir dormir tarde? Pois bem. O hormônio do sono, melatonina, funciona de maneira diferente em adolescentes, crianças e adultos. Na adolescência, os níveis de melatonina demoram mais tempo para ficarem elevados à noite e diminuem mais tarde pela manhã, o que explica por que os adolescentes podem ficar acordados até tarde e ter dificuldade em acordar cedo. Por essa razão, muitos adolescentes não dormem o suficiente, tornando mais difícil prestar atenção, controlar os impulsos e ter um bom desempenho escolar. Dormir bem à noite é um dos fatores que ajuda a apoiar a saúde mental.


7. O cérebro adolescente é resiliente.


Apesar de todos os desafios que acompanham a adolescência, a maioria se tornará adultos saudáveis. As mudanças no cérebro durante esta fase crítica do desenvolvimento ajudam, na verdade, a apoiar a resiliência e a saúde mental a longo prazo.

Não é de hoje que afirmo: como pais e mães, temos a obrigação de compreender as questões do desenvovimento dos nossos filhos. Vamos pensar que qualquer profissão que você deseja seguir em sua vida exigirá um preparo: você fará cursos, buscará informações relacionadas àquela profissão, irá se preparar. Ao longo da sua vida profissional, terá de se aprimorar, acompanhar as novas tendências e exigências do mercado. Mas ninguém fala o quão importante é nos prepararmos para a maternidade ou paternidade. Digo o mesmo se você é professor/a e está lendo este texto: assim como para dirigir um carro, você precisa entender como o carro funciona, conduzir uma sala de aula exigirá as noções sobre o desenvolvimento de crianças e jovens. Não podemos cair na falácia do "achismo".

Ei papai e mamãe. A tarefa não é fácil. Como Philippa Perry diz, nós adultos, não costumamos evoluir e nos desenvolver tão rapidamente quanto nossos filhos, e a imagem que temos deles pode ter sido apropriada seis meses atrás, mas não está atualizada hoje. Seis meses atrás, eles poderiam ter agradecido sua ajuda, mas hoje podem ver isso como uma interferência irritante. Compreender que nada é contra você é libertador e evita conflitos. 

Nossa missão enquanto pais é a de construir conexões fortes. Ainda que eles se distanciem um pouco, as conexões não se rompem. A nossa responsabilidade é ser o "córtex pré-frontal" dos adolescentes enquanto os deles ainda está se desenvolvendo. Nesse período em que se vive apenas uma vez, a forma como os neurônios são usados  terá um impacto duradouro de como eles vão funcionar pelo resto da vida. Eles vão demorar um tempo, alguns mais, outros menos. Isso não significa que eles nunca vão aprender!

Um adolescente pode perder parte do seu encanto por um tempo enquanto forja uma própria identidade separada da família, desenvolvendo novos marcadores de identidade para ajudá-lo a formar novas tribos e entrar nelas. Você não perdeu seus queridos filhos. A partir do momento em que eles se sentirem seguros em seus novos grupos de amigos no ensino médio e, mais tarde, na universidade, a necessidade de se afastar de você vai diminuir, e as melhores características deles vão reaparecer. O cérebro adolescente pode ter momentos tão intensos quanto o de um animal selvagem indomado. E, embora possa ser difícil para você, como mãe ou pai, demonstrar empatia às vezes, continue tentando. E seja otimista: os lóbulos frontais deles vão chegar lá. (Philippa Perry)






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Fonte:

The Teen Brain: 7 Things to Know: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/the-teen-brain-7-things-to-know#part_6528 

Perry, P. (2020). The Book You Wish Your Parents Had Read.Penguin Books. 272 p.

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