Meninas nas áreas STEM: falta interesse ou incentivo?
Não é de agora que meninas são afastadas das áreas científicas como a ciência e a matemática, e isso estende-se ao longo do período escolar, tendo seu acesso, preparação e oportunidades de ingressar nas áreas STEM limitados. O fato é que as carreiras nas áreas de exatas costumam ser consideradas mais "masculinas", enquanto as meninas costumam ter seu perfil associado às "humanas".
Você já deve ter ouvido as frases “isso é coisa de menino” ou “meninas não fazem essas coisas”. Desde a infância, as meninas são criadas para acreditar que sua tarefa no mundo é cuidar da família, da casa, das emoções, enquanto os meninos são incentivados a desenvolver habilidades mais racionais, ligadas a exatas, como construir coisas, montar estruturas, brincar com foguetes, de pequeno cientista, construir prédios com blocos...
De acordo com um relatório da UNESCO pubicado em 2019 (Decifrar as chaves, a educação das mulheres e das meninas em matéria STEM), apenas 35% dos estudantes matriculados em carreiras STEM são mulheres, uma porcentagem que cai para 3% nos graus de tecnologia da informação e comunicação (TIC), 5% nos graus de matemática e estatística e 8% na engenharia. Os valores são qualificados de alarmantes pela própria UNESCO, uma vez que boa parte dos empregos do futuro — muitos já do presente — estarão relacionadas às áreas STEM.
Apesar de diversos estudos científicos comprovarem que não há diferença nas aptidões para as áreas STEM entre meninas e meninos (inclusive na minha pesquisa de mestrado fiz questão de abordar isso), é possível perceber que o fato de vermos uma menor representação feminina nessas áreas têm mais a ver com as crenças e expectativas criadas pelos pais e pela sociedade. O estereótipo de que meninos são melhores em exatas do que as meninas pode diminuir o desempenho delas, diminuir o seu acesso, e as meninas passam a ter pouca ou nenhuma aspiração de carreira nessas áreas. Outro fator que contribui para perpetuar as carreiras STEM como predominantemente masculinas é a divulgação de poucos modelos femininos em quem as meninas possam se inspirar.
Podemos citar várias razões complexas que contribuem para a sub-representação das mulheres nas carreiras científicas. Aqui estão alguns fatores-chave:
Estereótipos de gênero: Desde tenra idade, meninas muitas vezes são expostas a estereótipos de gênero que associam habilidades em STEM com os meninos. Isso pode influenciar suas escolhas educacionais e carreiras, levando a uma menor participação em áreas científicas.
Participação: Tradicionalmente, há uma disparidade de gênero na participação em campos específicos do STEM. Por exemplo, as mulheres estão sub-representadas em disciplinas como engenharia, física e ciência da computação, enquanto são mais comuns em áreas como biologia e psicologia.
Cultura organizacional: Muitos ambientes de trabalho científico têm culturas organizacionais que podem ser menos acolhedoras para as mulheres. Isso pode incluir discriminação de gênero, assédio sexual, falta de modelos femininos em cargos de liderança e políticas que não são sensíveis às necessidades das mulheres, como licença-maternidade.
Desequilíbrio na representação: A falta de representação feminina em posições de destaque e liderança nas áreas científicas pode desencorajar as mulheres a seguirem essas carreiras, pois elas podem não ver modelos femininos bem-sucedidos para se inspirarem.
Dificuldades na conciliação trabalho-família: As mulheres enfrentam desafios adicionais na conciliação entre carreira e família, especialmente em campos científicos que podem exigir longas horas de trabalho e flexibilidade limitada. Isso pode levar algumas mulheres a optarem por carreiras menos exigentes em termos de tempo.
Viés de seleção e promoção: Em alguns casos, mulheres cientistas podem enfrentar viés de seleção e promoção, o que significa que suas realizações e habilidades podem ser subestimadas ou ignoradas em comparação com seus colegas masculinos.
Remuneração: Em muitos países, as mulheres no STEM enfrentam disparidades salariais em comparação com seus colegas masculinos, mesmo quando possuem qualificações e experiências semelhantes. Isso reflete desigualdades sistêmicas no local de trabalho e na sociedade em geral.
Falta de redes de suporte: As mulheres cientistas podem enfrentar dificuldades para encontrar redes de suporte profissional e pessoal, o que pode afetar sua capacidade de avançar em suas carreiras e superar obstáculos.
A imagem a seguir resume os fatores de influência na escolha das carreiras STEM pelas mulheres.
Para abordar essa sub-representação, é crucial implementar políticas e práticas que promovam a igualdade de oportunidades, eliminem preconceitos de gênero, criem ambientes de trabalho inclusivos e ofereçam suporte adequado para mulheres cientistas em todas as etapas de suas carreiras. Isso inclui a implementação de políticas de licença parental equitativas, incentivos para diversidade e inclusão, e esforços para desafiar estereótipos de gênero desde a infância.
Precisamos fomentar o gosto pelas disciplinas STEM nas meninas nas fases mais precoces, desde a infância. Não podemos deixar para abordar isso no último ano do ensino médio. É necessário mostrar para as meninas que a ciência, a matemática, as tecnologias são legais, fazendo-as explorar estas áreas de forma prática e divertida para despertar a sua curiosidade e interesse.
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Você pode ver também:
Mulheres e disciplinas STEM. Uma questão de gênero?
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