Uso do celular na escola: proibir ou educar?

O uso de celulares na sala de aula tem sido amplamente discutido em diversas partes do mundo, com muitos educadores e pais preocupados com o impacto negativo que esses dispositivos podem ter no desempenho acadêmico dos alunos. Ao mesmo tempo, há quem defende que os celulares podem ser ferramentas valiosas de aprendizagem quando usados ​​de forma planejada. A partir de uma perspectiva científica e educacional, é essencial avaliar se a inclusão destes dispositivos como recurso educativo realmente contribui para a melhoria do aprendizado dos estudantes.

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Ao mesmo tempo que as tecnologias digitais se tornaram parte integrante das nossas vidas, o seu uso também se tornou um problema no ambiente educacional, nomeadamente no que se refere ao uso de celulares no ambiente escolar. Recentemente vimos uma mudança de conduta por parte de países que há alguns anos estavam otimistas com a inclusão das tecnologias na educação, os quais passaram a restringir ou até mesmo proibir o uso destes dispositivos em sala de aula. É o caso, por exemplo, da Finlândia, da Espanha e da Suécia, e atualmente, estendendo-se a discussão a outros países, como Portugal. A razão por detrás destas restrições se deve ao impacto nos resultados acadêmicos dos alunos nos últimos anos, especialmente na matemática e leitura.
Um estudo realizado na Noruega por Sara Abrahamsson apontou que o uso sem propósito de celulares no ambiente escolar leva os alunos a notas mais baixas e maior níveis de estresse. A pesquisadora acompanhou durante um ano letivo o impacto da proibição de celulares (smartphones) em 12 escolas de ensino básico. Os resultados revelaram efeitos positivos em três áreas principais: Saúde Mental, Desempenho Académico e Igualdade de Oportunidades. 
Com relação à saúde mental, segundo o estudo, a proibição do uso de celulares parece ter contribuído para um ambiente escolar menos estressante e ansioso para as meninas, diminuindo a necessidade de acompanhamento psicológico. Meninas que frequentavam escolas com proibição de celulares apresentaram uma redução de 20% na procura por serviços de saúde mental em comparação com as meninas que frequentavam escolas sem essa medida.
Outra evidência que o estudo identifica foi a diminuição do bullying para ambos os sexos, com uma redução de 15% de casos reportados nas escolas. A proibição limitou as oportunidades de cyberbullying e outras formas de intimidação online, promovendo um ambiente escolar mais seguro e inclusivo.
O mesmo estudo considera que as tecnologias, quando bem utilizadas, podem tornar o aprendizado mais divertido e eficaz. E este é um ponto importante: afinal, as escolas e os professores estão preparados para fazer um bom uso das tecnologias no sentido de contribuir para o aprendizado? Nem sempre essa é a realidade. Muitas vezes o que temos na prática dentro das salas de aula é o que Mitchel Resnick define como uma fina camada de tecnologia sobre um currículo e pedagogia antiquados. Em seu livro "Lifelong Kindergarten", Resnick defende o uso das tecnologias no sentido de promover a criatividade dos alunos:

Em vez de tentar minimizar o tempo diante das telas, acredito que pais e professores devam tentar maximizar o tempo de criatividade [...]. Alguns usos de novas tecnologias promovem o pensamento criativo, enquanto outros o restringem [...]. Em vez de tentar escolher entre muita tecnologia, pouca tecnologia e nenhuma tecnologia, pais e professores deveriam procurar atividades que envolvam as crianças no pensamento e expressão criativos (Mitchel Resnick).

Também devemos considerar que a escola, além de um espaço de aprendizagem acadêmica, também é um ambiente para o desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais, como a empatia, mas para isso, crianças e jovens necessitam de contato. O nosso cérebro precisa do toque, do cheiro, dos olhos nos olhos, que são coisas que a tecnologia não permite. É preciso que os jovens vivam os mundos online e offline em equilíbrio.
Para o psicólogo Eduardo Sá, crianças menores de 12 anos não deviam ter um celular, pois este atua como um fator de distração dentro da sala de aula e no recreio, momento em que a socialização é fundamental, os alunos tendem a ficar com os olhos nas telas.

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Proibir, restringir ou educar?

A simples proibição do uso de celulares pode não ser a medida mais eficaz, pois vivemos em um mundo digital. É crucial ensinar os jovens a utilizarem recursos tecnológicos de forma responsável e eficaz. A simples restrição pode limitar a oportunidade dos estudantes de desenvolverem competências essenciais da literacia digital, que são necessárias para a vida futura do jovem.
Preparar os estudantes para lidar com as distrações tecnológicas e usá-las de forma produtiva pode ser uma habilidade tão essencial quanto às matérias tradicionais. A regulamentação do uso de celulares pode ter efeitos positivos no curto prazo, como o aumento da atenção e da concentração, mas o desafio maior reside em educar os alunos sobre o uso responsável dessas tecnologias ao longo da vida.
Assim, uma abordagem equilibrada pode ser a mais adequada. Regulamentar o uso dos celulares e integrá-los de maneira responsável ao ambiente educacional, ao mesmo tempo em que se previne o uso indevido, parece ser um caminho promissor para conciliar o avanço tecnológico com a melhoria no aprendizado. As iniciativas devem considerar a implementação de medidas eficazes que visem reduzir o uso excessivo de dispositivos móveis durante o horário escolar, garantindo um ambiente seguro e saudável, que propicie o sucesso acadêmico de todos os alunos.
É preciso lembrar que estamos nos referindo ao excesso de uso dos aparelhos, e que isto ocorre também fora da escola. Por isso é preciso unir forças com os pais ou responsáveis, para que eles também façam a sua parte. Hoje, é comum que crianças cheguem à escola cansadas, desatentas e sonolentas por passarem demasiadas horas em jogos online ou redes sociais sem controle ou supervisão.
Não cabe somente à escola definir as regras: é preciso estender estes cuidados e preocupações aos pais, pois são eles quem fornecem estes dispositivos aos seus filhos. Em muitos casos, os próprios pais afirmam não dominar o uso de ferramentas e recursos a que os filhos estão expostos. Isso é um perigo. É como comprar um carro para um filho, sem que ele tenha mínimas noções de direção e dizer que ele pode sair à vontade.
Aos pais, cabe definir os limites de uso, monitorar os conteúdos que a criança acessa, dar instruções e modelar comportamentos saudáveis.

Assim como não é possível que uma criança ou um jovem aprenda a nadar sem entrar na água, também não é possível aprender a utilizar as tecnologias sem mergulhar nela. O que não podemos é deixar crianças e jovens aprenderem a mergulhar sozinhos.
Portanto, é papel dos pais estarem atentos aos sinais de dependência tecnológica, como o uso compulsivo de dispositivos, e promover um equilíbrio entre atividades online e offline, incentivando atividades fora do ambiente digital, como esportes, leitura e encontros sociais presenciais, essenciais para o desenvolvimento integral das crianças e adolescentes.
Desta forma, educar os jovens para um uso consciente do celular é uma responsabilidade compartilhada entre pais e escola. Com o aumento do uso de tecnologia e a presença constante dos celulares na vida dos jovens, tanto no contexto social quanto educacional, é fundamental que as duas partes trabalhem juntas para garantir que o uso desses dispositivos seja equilibrado, produtivo e seguro.


Juliana T. Kuchla  |  Publicado em: 25 set. 2024
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Fontes para consulta:

  • Proibir os telemóveis nas escolas ou educar os alunos para o seu uso? Disponível em:
https://www.publico.pt/2024/09/23/impar/opiniao/proibir-telemoveis-escolas-educar-alunos-uso-2105131
  • Resnick, M. (2020). Jardim de Infância para a vida toda [Lifelong Kindergarten]. Porto Alegre: Penso.



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