Desenhar para aprender: o poder dos desenhos na construção do conhecimento
Estudos revelam como o ato de desenhar potencializa a memória, a observação e o pensamento crítico dos alunos
28 out. 2025
Desenhar é muito mais do que uma atividade artística: é uma poderosa ferramenta de aprendizagem. Quando os alunos desenham, eles traduzem conceitos em formas visuais, revelando lacunas em sua compreensão e ativando redes cerebrais ligadas à visão, à motricidade e à semântica. Esse processo estimula o cérebro a trabalhar de forma integrada, fortalecendo a compreensão e a retenção do conhecimento.
Evidências científicas: dois estudos representativos
Um artigo publicado em 2018 discute os mecanismos pelos quais o ato de desenhar melhora o aprendizado. Os autores apresentam evidências de que o desenho permite que os estudantes identifiquem falhas em seu entendimento, gerando uma forma de autorregulação cognitiva. Também argumentam que desenhar envolve múltiplos níveis de processamento (visão, movimento, semântico), promovendo aprendizado mais duradouro e profundo.
Outro estudo publicado em 2022 avaliou especificamente os efeitos de esboçar sistemas com partes interconectadas (por exemplo, o ciclo da água ou o sistema circulatório). Os pesquisadores investigaram como esse tipo de desenho influencia não apenas a memorização, mas o desempenho em tarefas de nível cognitivo superior. Seu achado principal foi que estudantes que desenharam esses sistemas apresentaram um aumento de 23% em tarefas que exigem pensamento de ordem superior, isto é, análise, síntese e inferência, em comparação com estratégias de estudo mais convencionais.
Integração das evidências no contexto pedagógico
Pesquisas como essas reforçam o valor do desenho como estratégia de ensino-aprendizagem. Ao gerar formas visuais e interconectadas dos conteúdos, os estudantes têm a oportunidade de:
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identificar (e superar) lacunas de compreensão de modo mais explícito;
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articular relações entre diferentes componentes de um sistema (por exemplo: água, vapor, chuva) em vez de memorizar listas isoladas de fatos;
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engajar múltiplos sistemas cerebrais simultaneamente — visual, motora e semântica — favorecendo redes de memória mais robustas;
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desenvolver capacidade de pensamento de ordem superior, exercitando análise, síntese, comparação e proposição de hipóteses.
No dia a dia escolar, isso pode ser aplicado de formas simples, mas poderosas: pedir a alunos que desenhem e escrevam explicações de processos, sistematizem relações causais em forma de diagrama, ilustrem etapas de fenômenos naturais ou façam esboços conceituais das ideias que estudam. Tais práticas convidam à desaceleração, à observação consciente e ao engajamento profundo com o objeto de estudo — no fim, o desenho deixa de ser apenas um “apêndice artístico” e torna-se uma ponte entre ver, pensar e entender.
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Fontes:
Thiede, K. W., Wiley, J., & Griffin, T. D. (2022). Drawing to improve metacomprehension accuracy. Learning and Instruction. DOI:10.1016/j.learninstruc.2021.101546.
Fiorella, L., & Zhang, Q. (2018). Learning by drawing: Fostering scientists’ thinking with representational drawing. Current Directions in Psychological Science, 27(3), 168-174.
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