História do Pensamento Computacional

Um breve histórico do Pensamento Computacional


Apesar do que o termo Pensamento Computacional (PC) sugere, ele não está relacionado ao ensino da computação ou à informática. 

Mas antes de buscar conceituá-lo, precisamos recorrer à história. A verdade é que antes da existência do computador, já existia o pensamento computacional, no sentido de identificar meios de realizar tarefas, muitas vezes repetitivas e rotineiras, de forma mais rápida e eficaz.

Como descreve Peter Denning, já em 1945, George Polya escreveu sobre disciplinas mentais e métodos que permitiram a solução de problemas de matemática em seu livro "How to Solve it", sendo um precursor do PC. Em 1960, Alan Perlis reivindicou o conceito de “algoritmização”, como parte da nossa cultura, argumentando que os computadores iriam automatizar e eventualmente transformar processos em todos campos e, portanto, a algoritmização seria eventualmente aparecer em todos os campos. 

Mas o pai do Pensamento Computacional, mencionado pela literatura, é o matemático Seymour Papert. Na década de 1980, Papert foi o primeiro a usar este termo em seu livro  "Mindstorms", descrito como uma habilidade mental que as crianças desenvolvem praticando programação.

Depois de terminar seu doutorado em matemática pela Cambridge University (EUA) em 1959, Papert mudou-se para Genebra (Suíça), e trabalhou com o psicólogo Jean Piaget  no Centro de Epistemologia Genética de Genebra de 1958 a 1963. A teoria de Piaget, o Construtivismo, considerava que o conhecimento não é algo que pode ser despejado como água em um vaso, mas que as crianças constróem o conhecimento ativamente a partir das suas interações cotidianas com outras pessoas e com objetos. Ou seja: crianças não recebem ideias, elas criam ideias (Resnick, 2020).

Na década de 1960, Papert retorna para os EUA, para Cambridge, Massachussetts, passando a trabalhar no MIT (Massachussetts Institute Technology). Neste período, os computadores ainda não faziam parte da vida das pessoas, sendo usados por grandes empresas, pelo governo e pelas Universidades. Entretanto, Papert acreditava que os computadores acabariam se tornando acessíveis a todos, inclusive às crianças.

Papert foi o precursor da ideia de introduzir computadores na educação. Enquanto muitos viam os computadores como possíveis substitutos dos professores, ele enxergava como um meio de se expressar, uma ferramenta de criar. Assim, baseando-se na teoria construtivista de Piaget, surgiu a sua abordagem denominada "Construcionismo". Como explica Resnick (2020), esta abordagem une os dois tipos de construção: à medida que as crianças constroem novas ideias nas suas mentes, elas são incentivadas a construir novas coisas no mundo, e assim por diante, em uma espiral infinita de aprendizagem.

Assim, Papert em colaboração dos seus colegas desenvolveram a linguagem de programação LOGO, a qual as crianças utilizavam para controlar os movimentos de uma tartaruga robô. À medida que as crianças escreviam a programação em Logo, elas aprendiam conceitos matemáticos de forma significativa e divertida. Tratava-se de uma uma linguagem de alto nível, estruturada e funcional, de fácil aprendizagem, para utilização em contexto escolar.

Em seu livro "Mindstorms: Children, computers, and powerful ideas", Papert defendia o uso de computadores de forma indivualizada e a perspetiva de que a aprendizagem de uma criança pode ser potencializada quando esta aprende programação. Neste mesmo livro, Papert menciona pela primeira vez o termo "Pensamento Computacional".

Durante os anos 1980, o entusiasmo inicial da linguagem LOGO não durou muito tempo, e não demorou para que as escolas passassem a usar os computadores de outras formas, mais no sentido de entregar e acessar informações prontas do que fazer criar, como Papert tinha imaginado (Resnick, 2020).

"Seymour Papert e a tartaruga-robô"

Ainda assim, é pela estreita relação do conceito de PC criado por Papert com a denominação aceita nos dias atuais, que ele é considerado o "Pai do Pensamento Computacional". Mas a definição formal de PC só veio em 2006, com Jeannette Wing, no artigo "Viewpoint". 

Para Wing, o PC é uma habilidade fundamental para todos, não apenas para cientistas da computação. À leitura, escrita e aritmética, deveríamos adicionar cálculos computacionais pensando na capacidade analítica de cada criança. A autora ainda  expande a definição de PC para abranger ferramentas mentais e processos executados por seres humanos sem necessariamente utilizar um computador. E é por essa razão que nem sempre o PC estará associado ao uso de computadores. Portanto, estamos nos referindo a um  conjunto de ferramentas mentais que todos deveriam ter e aplicar para resolver problemas. 

Dois anos mais tarde, em outra publicação ("Computational thinking and thinking about computing”), Wing refere-se a abstração como a essência do PC, definindo-o como um tipo de pensamento analítico similar ao pensamento matemático (na forma em que aborda a resolução de problemas), similar ao pensamento da engenharia (na forma que aborda a avaliação de um sistema complexo) e similar ao pensamento científico (na forma que aborda a compreensão da inteligência, do comportamento e mente humana, da computabilidade).

Para Wing, o PC deveria fazer parte da educação das crianças desde os primeiros anos da infância. E a partir disso,surgiu o interesse de investigadores e profissionais envolvidos na educação pela inclusão do PC no currículo escolar. O primeiro passo, então, foi de criar uma definição consensual que fosse aceita pela comunidade científica. 
Muitos autores concordam em definir o PC como um processo de pensamento envolvendo um conjunto de competências relacionadas com compreensão de problemas, definição de problemas, resolução de problemas, abstração, pensamento lógico, depuração, reconhecimento de padrões, generalização e algoritmia. 








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Referências:

Denning, P. J. (2017). Remaining Trouble Spots with Computational Thinking. Communications of the ACM, 60(6), 33-39.
http://denninginstitute.com/pjd/PUBS/CACMcols/cacm-trouble-ct.pdf


Resnick, M. (2020). Jardim de Infância para a vida toda:por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos. Porto Alegre:Penso. 

Wing, J. M. (2006). Viewpoint. Communications of the ACM, 49(3), 33–35.

Wing, J. M. (2008). Computational thinking and thinking about computing.
Philosophical Transactions of the Royal Society A: Mathematical, Physical and Engineering Sciences366(1881), 3717–3725. https://doi.org/10.1098/rsta.2008.0118






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