Construtivismo x Construcionismo

Apesar de serem abordagens educacionais que compartilham ideias similares, Construtivismo e o Construcionismo possuem algumas diferenças, as quais vou explicar a seguir.

Atualizado em 05 out. 2024  |  Juliana T. Kuchla

O Construtivismo e o Construcionismo são abordagens educacionais que compartilham a ideia de que o conhecimento é construído ativamente pelos aprendizes, mas diferem em suas ênfases. O construtivismo, associado a Piaget, foca no processo interno de aprendizagem, onde o indivíduo constrói seu conhecimento a partir de interações com o ambiente e experiências pessoais. Já o construcionismo, de Papert, vai além, enfatizando a aprendizagem através da criação de artefatos concretos no mundo, como projetos ou produtos tangíveis, e valoriza a interação social e o uso de ferramentas digitais para facilitar esse processo criativo.
O Construtivismo
O Construtivismo foi desenvolvido por Jean William Fritz Piaget, que nasceu em Neuchâtel, na Suíça, no dia 9 de agosto de 1896, e faleceu em 1980. Piaget  foi um psicólogo, biólogo e educador suíço e importante estudioso da psicologia evolutiva. Desde criança, demonstrava interesse pela natureza. Revolucionou os conceitos de inteligência infantil com conclusões que provocaram uma revolução nos antigos conceitos de aprendizagem e educação.  A “Teoria Construtivista”, muito conhecida e difundida no campo pedagógico, estabelece que a aprendizagem é adquirida através da interação do indivíduo com o ambiente em que vive.
Jean Piaget

O objetivo inicial de Piaget era compreender como se desenvolve a inteligência e o pensamento lógico da criança independentemente do ensino ou da interferência da escola. Piaget começou a trabalhar no laboratório de psicologia experimental do psicólogo infantil Alfred Binet, dedicando-se à criação e aplicação de testes de leitura em crianças parisienses e crianças com deficiências mentais. Os erros que elas cometiam despertavam seu interesse pelo processo cognitivo infantil - ato de adquirir um conhecimento.
Suas primeiras observações sobre as características do pensamento infantil foram publicadas em 1921, no Jornal de Psicologia, sob o título “Ensaio Sobre Alguns Aspectos do Desenvolvimento do Pensamento Infantil”. Neste ano, Piaget voltou para a Suíça como diretor do Instituto Jean-Jacques Rousseau, na Universidade de Genebra, iniciando então um projeto de estudo sistemático da inteligência.  Ele acreditava que a inteligência faz parte do processo de adaptação biológico, seja a adaptação do homem ou dos demais seres vivos. Esse processo é compeendido a partir de cinco categorias centrais: esquema, assimilação, acomodação, adaptação e equilibração, resumidas em um exemplo na figura abaixo.
Imagem: Juliana T. Kuchla

Para Piaget, o desenvolvimento humano obedece certos estágios hierárquicos, que decorrem do nascimento até se consolidarem por volta dos 16 anos. A ordem destes estágios seria invariável e inevitável a todos os indivíduos. Para Belo & Brandalise (2011), estes estágios são: 

  • Estágio sensório-motor (do nascimento aos dois anos) - a criança desenvolve um conjunto de "esquemas de ação" sobre o objeto, que lhe permitem construir um conhecimento físico da realidade. É um período anterior à linguagem. 
  • Estágio pré-operatório (dos dois aos seis anos) - a criança inicia a construção da relação causa e efeito, bem como das simbolizações. É a chamada idade dos porquês e do faz-deconta. Caracteriza-se pelo surgimento da capacidade de dominar a linguagem. 
  • Estágio operatório-concreto (dos sete aos onze anos) - a criança começa a construir conceitos, através de estruturas lógicas, consolida a conservação de quantidade e constrói o conceito de número. Seu pensamento apesar de lógico, ainda está centrado nos conceitos do mundo físico, onde abstrações lógico-matemáticas são incipientes. 
  • Estágio operatório-formal (dos onze aos dezesseis anos) - fase em que o adolescente constrói o pensamento abstrato, conceitual, conseguindo ter em conta as hipóteses possíveis, os diferentes pontos de vista e sendo capaz de pensar cientificamente. 


A teoria Construtivista critica a escola tradicional, propondo que a pedagogia deve abandonar a centralidade do trabalho do professor e a transmissão dos conteúdos no contexto educativo.  Piaget acreditava em uma educação baseada nos métodos ativos de conhecimento, onde o aluno seja capaz de construir seu conhecimento, ao contrário do ensino do modelo tradicional. Valoriza-se, assim, os alunos nessa perspectiva, onde o aprendizado realizado por eles seria qualitativamente superior àqueles em que há a interferência do professor. 

O aluno não necessitar aprender o máximo de conteúdos clássicos, como propõe a escola tradicional, mas aprender aquilo que lhe é útil para a adaptação ao meio. 

A partir de uma perspectiva biológica para entender o desenvolvimento humano, a teoria de Piaget se baseia na ideia de que deve haver antes uma maturação orgânica para que o desenvolvimento se processe. O desenvolvimento antecede a aprendizagem, ou seja, este é dependente daquele. Assim, há quatro estágios do desenvolvimento: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e operatório formal, e cabe a escola e aos professores pautar as propostas de ensino com base em cada estágio do desenvolvimento, respeitando as estruturas da intelegência características de cada fase.


Portanto, resumidamente, o Construtivismo tem como princípios:

  • A ciência é uma criação do espírito humano;
  • A aprendizagem deve ser ativa e internamente construída pelo aluno e não completamente explicada por outros;
  • o aluno ocupa o papel central, é o protagonista do processo de aprendizagem;
  • o professor é um facilitador, um mediador e um orientador durante a aprendizagem, que é construída pelo aluno.
  • O professor contextualiza diferentes situações, e o estudante precisa encontrar soluções, e desta forma, ele constrói o conhecimento;
  • A criança constrói significados a partir das suas experiências;
  • O nível de cada estudante é respeitado, com base em seus estágios de desenvolvimento;
  • O ensino é um processo dinâmico, em que o aluno interage, e não estático, como acontece com frequência nos métodos tradicionais de ensino;
  • O aprendizado é uma construção gradual, e cada novo conhecimento é adquirido a partir de conhecimentos anteriores. As ideias prévias dos alunos desempenham um papel importante no processo de aprendizagem.
  • Precisamos entender o problema antes de considerar a utilidade de cada teoria científica.
Em resumo: 
O conhecimento se dá através da interação entre a experiência e as capacidades do sujeito.


O Construcionismo

O construcionismo foi criado pelo matemático norte americano Seymour Aubrey Papert (1928-2016),  um matemático e pensador da educação, pioneiro na área de inteligência artificial e no desenvolvimento de tecnologias educacionais. Visionário, Papert já previa o uso dos computadores em sala de aula mesmo antes de existirem e se popularizarem os computadores pessoais, considerando-os importantes ferramentas que auxiliariam no processo de ensino e aprendizagem, sendo um instrumento facilitador do aprender, e capaz de contribuir para o aumento da criatividade das crianças.
Seymour Papert

Nascido em 1928, em Pretória, África do Sul, faleceu em 2016, aos 88 anos, nos Estados Unidos. Iniciou sua trajetória acadêmica na Universidade de Witwatersrand na África do Sul, onde concluiu o bacharelado em Filosofia no ano de 1949, e o doutorado em Matemática em 1952. Entre os anos de 1954 e 1985, Papert estudou na Universidade de Cambridge, com pesquisas envolvendo a Matemática. Em seguida, deu continuidade a seus estudos ao lado do filósofo e psicólogo Jean Piaget, no Centro de Epistemologia Genética da Universidade de Genebra por 10 anos, dedicando-se a compreender a natureza do pensamento das crianças, e como elas se tornavam pensadoras, com enfoque nas questões cognitivas do indivíduo.
Em 1963, Papert passou a atuar como pesquisador do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, tornando-se professor de matemática aplicada nesta mesma instituição, sendo nomeado codiretor do Laboratório de Inteligência Artificial, do qual, posteriormente assumiu a direção no ano de 1967, onde permaneceu até 1981. Na década de 1960, mais precisamente entre os anos de 1967 e 1968,  Papert, juntamente com outros pesquisadores, desenvolveram a linguagem de programação LOGO. O objetivo era propiciar às crianças o controle do computador, permitindo que as crianças programassem a máquina, em vez de serem programadas por ela. Em 1985, Papert se tornou membro fundador do MIT Media Lab, liderando o grupo de pesquisa Epistemology and Learning, e iniciou uma colaboração com a empresa LEGO, que posteriormente se tornou uma das maiores patrocinadoras deste laboratório. A partir dos anos 1990, Papert se dedicou a diversos projetos envolvendo jovens que necessitavam de apoio.Mas o foco aqui é a sua teoria.
Seu objetivo foi desenvolver uma teoria que pudesse embasar a utilização do computador na educação. Ele cunhou esse termo em 1986 e tomou como base a perspectiva construtivista de Piaget.  Primeiro, o aprendiz constrói alguma coisa ou seja, é o aprendizado através do fazer, do "colocar a mão na massa". Segundo, o fato de o aprendiz estar construindo algo do seu interesse e para o qual ele está bastante motivado. Desta forma, o envolvimento afetivo tornaria a aprendizagem mais significativa.
Enquanto muitos viam o computador como um possível substituto aos professores, Papert acreditava no computador como uma máquina de ensinar, e refletia sobre como os computadores poderiam ser inseridos no mundo da educação. Para ele, a aprendizagem é facilitada quando ocorre através de uma dinâmica de modelos e assimilação. Os modelos facilitam o acesso a ideias abstratas.

Papert acreditava que:
“qualquer coisa é simples se a pessoa consegue incorporá-la ao seu arsenal de modelos, caso contrário tudo pode ser extremamente difícil."
"O que o indivíduo pode aprender e como ele aprende isso depende dos modelos que tem disponíveis."


Papert defendia também que o computador não deve ser utilizado de forma com que ele ensine a criança, e sim a criança é que deve ensinar o computador, programando-o. Considerava fundamental que as crianças entendessem a razão de ser do que é ensinado pela escola, pois, só assim o aprendizado se tornaria significante, concreto e consequentemente efetivo, exemplificando com o caso da matemática, que muitas vezes é ensinada sem que o estudante entenda o porquê de aprendê-la, centrada em modelos de memorização, aferida em erros e acertos, sendo esse um tipo dissociado de aprendizagem.
Outra crítica apontada era sobre a educação escolar, e a sua tendência ao modelo tecnicista, que reduz a aprendizagem a atos técnicos, cavbendo ao professor o papel de transmissor de informações, e os alunos apenas receptores. Neste sentido, Papert considerava que o professor poderia utilizar o computador como uma ferramenta para auxiliar no processo de aprendizagem, implementando uma aprendizagem cooperativa, em que cada um contribuiria com o que sabe, num ambiente em que todos são aprendizes, inclusive o próprio professor. 

Portanto, o Construcionismo tem como princípios:

  • As pessoas constroem ativamente o seu conhecimento, isto é, conhecimento não é transmitido. 
  • O professor atua como mediador, não apenas um transmissor do conhecimento pronto.
  • A possibilidade de articular os processos do pensamento permite aprimorá-los, isto é, a visualização e a manipulação das estratégias permite otimizá-las. 
  •  O aprendizado de um conceito está relacionado com a sua estrutura, isto é, o aprendizado de alguns conceitos e a possibilidade de combiná-los facilita o aprendizado de outros conceitos. 
  • O aprendizado é influenciado pelo ambiente. Algumas dinâmicas e contextos facilitam a percepção e a construção de determinados conhecimentos, atitudes e procedimentos.
  • O erro também é valorizado. O aprendizado se dá através da construção de uma série de teorias transitórias. Os erros dos indivíduos são tão importantes quanto seus acertos para o processo de aprendizagem. Enquanto os acertos representam situações de relativa adequação do conhecimento do indivíduo com relação às coisas do mundo, são os “erros” que questionam esta estabilidade e agem como a força motriz do processo de aprendizagem. Os erros são vistos como pontos de reflexão. 

Em resumo: 

O aprendizado ocorre de forma mais eficaz quando os alunos constroem artefatos tangíveis, explorando ideias de maneira prática e criativa.

Você já deve ter percebido que o construcionismo é uma extensão do construtivismo. Enquanto o construtivismo de Piaget enfatiza que o conhecimento é construído internamente pelo indivíduo por meio de suas interações e experiências, o construcionismo de Papert complementa essa ideia, defendendo que o aprendizado é mais eficaz quando os alunos constroem artefatos concretos, permitindo que explorem ideias de maneira prática e criativa. Ambos compartilham a visão de que o aprendiz é ativo, mas o construcionismo destaca a importância da criação no processo de aprendizagem.

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