É errando que se aprende: a importância do erro na aprendizagem

Atualizado em 20/09/2024   |   Por: Juliana T. Kuchla 

O erro, muitas vezes visto como um fracasso, na verdade desempenha um papel fundamental no processo de ensino e aprendizagem. Ele não apenas é inevitável, mas também essencial para o desenvolvimento cognitivo e emocional dos alunos. Quando bem compreendido e tratado, o erro se torna uma poderosa ferramenta pedagógica, promovendo a reflexão, a autocorreção e o aprimoramento contínuo.

Imagem: Freepik


Quem nunca ouviu a frase: "É errando que se aprende"?

Apesar de ser uma frase que crescemos ouvindo, dentro do contexto escolar nem sempre o erro é visto como parte de um processo de aprendizagem. Muito pelo contrário. 

Em especial nestes últimos anos, tive a oportunidade de presenciar diversas situações em salas de aula, em diferentes níveis de escolaridade. E a realidade, por mais triste que possa parecer, é que os professores nem sempre consideram o erro como um ponto de partida. Em geral, o erro é visto como um ponto final: se errou, não aprendeu, então o aluno receberá uma nota baixa. Pronto, precisa prestar mais atenção! Precisa estudar mais!

Seymour Papert, o Pai do Pensamento Computacional e do Construcionismo, acreditava que o erro tem uma grande importância no aprendizado das crianças. Para ele, a escola tradicional entende o erro como algo negativo, sendo que o erro deveria ser visto como benéfico, no sentido de levar a criança a estudar, pensar, entender o que aconteceu de errado e corrigir em seguida, sendo assim, uma parte intrínseca do processo de aprendizagem

Errar permite que os alunos identifiquem lacunas em seu conhecimento. Ao cometer um erro, eles são confrontados com a diferença entre o que sabem e o que precisam aprender. Esse confronto os incentiva a revisitar conceitos, reavaliar suposições e buscar novas estratégias de resolução. O processo de reflexão gerado pelos erros é, muitas vezes, mais eficaz do que simplesmente acertar, pois envolve um esforço ativo de compreensão e reorganização mental.

Seria muito relevante incluir um momento de discussão durante a aula, onde os erros dos alunos fossem alvo de reflexão coletiva, e a base da compreensão de um determinado tema. Entretanto, o que predomina ainda é a punição. O erro de um cálculo matemático, de formular uma resposta, de escrever um texto em uma avaliação somativa, por exemplo, servem mais para classificar e rotular do que ensinar.

Em geral, as crianças estão ficando com medo de errar. E é lamentável ver uma criança sendo reprimida e hostilizada por fornecer uma resposta incorreta.

"Senta lá e arruma isso!"

"Vai arrumar esse cálculo, isso não faz sentido!"

"Não aprende nada porque não presta atenção! Vai refazer tudo!"

Respostas como estas, por parte dos professores, e até mesmo dos pais em casa, amplificam o temor pelo erro. A criança, que ainda está em desenvolvimento, passa a se sentir incapaz de realizar, de aprender. E o resultado pode ser desastroso: ao invés dessa "correção aos gritos" possibilitar a criança refletir sobre o que errou, passa a criar um bloqueio, fazendo com que a criança não aprenda de fato. Aliás, a criança passa a buscar mais satisfazer as expectativas dos adultos, que esperam a resposta correta, do que aprender, interiorizar de fato um conteúdo. Ou seja, os alunos tornam-se ótimos repetidores, mas não pensadores.

Isso tem relação com a atual dinâmica social e a própria cultura escolar. Para o Professor Carlos Neto, da Universidade de Lisboa, a escola atual é muito estruturada, com currículos intensos e extensos, muito centrada numa escolarização que, de algum modo, só tem como objetivo teste atrás de teste e médias para entrar na universidade, com uma expectativa familiar muito intensa de que tenham boas notas. As crianças de hoje têm que aprender tudo e de uma forma muito intensa, passando muito tempo na escola. Para ele, é preciso lembrar que as crianças não aprendem todas ao mesmo tempo, no mesmo lugar e da mesma maneira, sendo elas todas diferentes umas das outras. Assim, uma escola muito formal, muito estruturada, muito preocupada com números e desempenho, esmaga a curiosidade e o entusiasmo das crianças, afetando a sua capacidade de aprender.

Tratando-se do processo de aprender, Mitchel Resnick traz em seu livro "Jardim de Infância para toda a vida" o modelo da espiral da aprendizagem criativa.

Espiral da aprendizagem criativa
Imagem: Portal da RBAC

Mitchel Resnick, em seu livro traz um exemplo de cada uma das etapas da aprendizagem criativa:

Imaginem um grupo de crianças em uma sala de aula com vários blocos de madeira.

1. Na etapa de imaginar, as crianças começam a imaginar um castelo e quem vive dentro dele.

2. Na etapa de criar, as crianças transformam a ideia em algo concreto, começando a construir um castelo com os blocos.

3. Na etapa de brincar, as crianças interagem, fazem experiências, acrescentam elementos para o castelo e enriquecem a história.

4. Na etapa de compartilhar, os grupos interagem, dão ideias para os outros colegas, e cada acréscimo traz novas inspirações. 

5. Na etapa de refletir, no exemplo citado, o castelo cai, e as crianças percebem o que fizeram de errado que levou a construção a cair. Elas decidem reconstruir de outra forma mais eficiente para evitar que o erro se repita.

6. Agora recomeça a etapa de imaginar, onde as crianças, a partir da experiência vivida, imaginam novas ideias e incluem novos detalhes à sua construção e história.

Esta espiral, em particular nos primeiros anos da vida escolar, se repetem inúmeras vezes, sendo o motor do pensamento criativo. E o que queremos mostrar com este exemplo de Resnick? É que à medida que as crianças percorrem essas fases da espiral, criando, errando e refletindo, elas desenvolvem e refinam as suas capacidades de pensar de forma criativa, desenvolver suas ideias, testar, experimentar alternativas, interagir e criar.

É uma pena que à medida que as crianças crescem e passam para outros níveis de escolaridade, as escolas passam a limitar-se à transmissão de instruções e informações, e os alunos passam a não ter um protagonismo na própria aprendizagem. Assim, muitos professores esperam que os alunos devolvam as mesmas informações que foram repassadas, sem aceitar que o aluno agregue a sua própria visão sobre aquela informação. 

E olhando sob a ótica abordagem da aprendizagem criativa, quando um aluno tem a oportunidade de construir algo que seja significativo para ele, ele aprende melhor. O processo da aprendizagem é enriquecido quando os alunos são incentivados a se expressar, trocar ideias e explorar materiais e conceitos de forma livre e descontraída. 

Não estou aqui dizendo que devemos hipervalorizar os erros das crianças, mas é preciso lembrar que dificilmente uma criança acertará sempre na primeira vez. O que precisamos é valorizar as suas tentativas, dar voz às suas ideias e incentivá-los a melhorar sempre, de forma que não tenham medo de errar, mas que ao errar busquem corrigir e encontrar soluções! 

Erros são momentos transitórios que levam o indivíduo de um estado de segurança para outro. Os erros são os “maus necessários” que temos que passar para melhorar nossas capacidades e habilidades a cada dia. Uma abordagem positiva do erro desenvolve habilidades metacognitivas nos estudantes, ou seja, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. Isso significa que eles aprendem a monitorar suas ações, reconhecer quando estão no caminho errado e ajustar suas abordagens conforme necessário. Em vez de temer o erro, os alunos passam a vê-lo como parte natural de seu progresso, desenvolvendo uma mentalidade de crescimento que valoriza o aprendizado contínuo e o esforço sobre o sucesso imediato.

Isso só é possível em um ambiente educacional acolhedor e que os professores incentivem uma postura aberta em relação aos erros. Quando o erro é estigmatizado ou punido severamente, os alunos tendem a evitar arriscar, limitando seu potencial criativo e a profundidade de seu aprendizado. A criação de um espaço seguro, onde os erros são tratados como oportunidades para o crescimento, encoraja os alunos a tentar novas abordagens sem medo de julgamento.

Por fim, ao reconhecer a importância do erro, tanto professores quanto alunos se tornam mais resilientes. A educação, nesse contexto, deixa de ser uma simples transmissão de conhecimento e passa a ser um processo dinâmico de construção, onde errar e corrigir fazem parte de uma jornada contínua de aperfeiçoamento.

_________________________________________________________

Fontes para consulta:

Resnick, M. (2020). Jardim de Infância para a vida toda:por uma aprendizagem criativa, mão na massa e relevante para todos. Porto Alegre:Penso.

Neto, Carlos. (2024).Temos um Estado negligente com as crianças. https://www.abrilabril.pt/nacional/carlos-neto-temos-um-estado-negligente-com-criancas?amp 

Comentários

Postagens mais visitadas