A cultura do silêncio no ambiente escolar
Atenção, todos em silêncio. Se não ficar quieto, vai para fora da sala. Só vou falar uma vez! Não vou repetir mais uma vez.
Você já deve ter ouvido alguma vez uma destas frases em algum momento do seu percurso escolar. Aliás, para muitos de nós, essa prática era o normal em uma sala de aula.
O professor entrava na sala de aula, e exigia o silêncio para poder colocar em prática o seu planejamento. Passadas décadas, o que vemos não é tão diferente. A cultura do silêncio no ambiente escolar predomina.
Desde a nossa formação já idealizamos um "modelo" de aluno ideal, obediente, ou seja, um receptor. Ainda que tenhamos estudado teorias sobre a importância das interações, diálogo, autonomia em sala de aula no sentido de favorecer a aprendizagem, na prática do dia a dia tendemos a buscar manter a ordem e passar informações. Dependendo da situação que nos deparamos, agimos de forma rígida e controladora, na tentativa de manter um domínio sobre a turma.
Lembro de ter ouvido certa vez, de uma professora de educação infantil, uma frase que me marcou. Eu estava trabalhando com algumas turmas de Ensino Fundamental a disciplina de programação e robótica, e uma das turmas era um pouco mais desafiadora do que as demais. Então, uma das colegas um dia me abordou e disse: "Você precisa causar medo nessas crianças nas primeiras aulas. Se eles não tiverem medo de você, você não vai conseguir dar aula".
Confesso que não encontrei uma resposta no momento. Mas aquela fala me levou a uma profunda reflexão. Medo? Como professora, eu precisaria gerar medo? Era isso? Com mais de dez anos de experiência em sala de aula, alguém me diz que preciso amedrontar crianças em uma escola?
Senti que algo estava errado. E estava. Finalizei aquele período, naquela escola, sem gerar medo. Dei lugar aos abraços e ao ouvir. Ainda assim, as crianças criaram, aprenderam, se divertiram e se expressaram. A realidade é que seria impossível realizar uma aula de robótica sem o "zum zum zum", sem as crianças conversarem, trocarem ideias. Percebi que os professores que passavam e viam aquelas crianças em grupos, falando, tentando montar robôs viam apenas uma grande confusão. Eu, entretanto, enxergava a criação. E por fim, os sorrisos e o orgulho do trabalho concluído não tinham preço.
Lembro também de outra escola, onde trabalhei STEM com um jardim de infância. A aula, cuja experiência envolvia o uso de balões, foi interrompida por uma colaboradora da escola dizendo:
- Tem muito barulho aqui. É melhor guardar os balões.
Para ela, o barulho incomodava. Mas dentro daquela sala, as crianças tinham acabado de descobrir a eletricidade estática. E os risos faziam parte, cada vez que as crianças conseguiam levantar os cabelos ou tiras de papel com os balões.
Não, caros colegas. Não estou dizendo que a escola deve se tornar um caos, onde as crianças e jovens bagunçam e nós professores aplaudimos e damos total liberdade. A conversa excessiva e descontextualizada não contribui em nada na aprendizagem. O que me refiro é que por muito tempo, absorvemos a ideia de que a aprendizagem só acontecia no silêncio e de forma unidirecional, onde o professor falava por horas, e as crianças sentadas em suas carteiras enfileiradas, recebiam as informações, e pronto! Simples assim. Não haviam outras alternativas, senão os ditados, os exercícios repetidos, a decoreba.
A escola tem o importante papel de formar cidadãos para o futuro. Nossas crianças devem chegar à vida adulta aptos para conquistar um bom lugar no mercado de trabalho e terem sucesso. Mas isso não é o que os define. Antes de profissionais, eles são seres humanos. A vida adulta exige frequência, disciplina, regras, mas também exige interações, empatia, amor. É por isso que a existência de regras a serem obedecidas não devem impedir que a escola também seja um espaço de interação, diálogo e humanização. Até porque se pensarmos que o ser humano é um ser social, a comunicação e a expressão são essenciais na sua formação. Além disso é impossível aprender sem refletir, questionar, comunicar.
A cultura do silêncio na escola, muitas vezes, pode deformar e podar a personalidade do indivíduo que está se formando. A sala de aula silenciosa pode impedir a troca de saberes. E o que é a educação, senão uma constante troca?
Arroyo (2000) destaca que o papel do professor não é somente dar o conteúdo, "[...] para dar conta da formação dos educandos e não apenas de sua instrumentalização, é necessário um outro perfil de mestre que assuma que seu papel vai além de passar a matéria e avaliar se foi aprendida”. Aliás, a comunicação entre professor e aluno pode ser eficaz para superar situações inusitadas e complicadas dentro da sala de aula. Um aluno silencioso, que não participa ou não é incentivado a participar de momentos de discussões e reflexão, pode ter o processo de aprendizagem comprometido. Cabe ao professor relacionar a sala de aula com o espaço social em que os educandos estão inseridos, bem como conhecer e entender a subjetividade de seus aprendizes, fazer relações e interferir nos momentos propícios que eles precisarem.
Mas como tornar um ambiente de aprendizagem em um espaço que permita a comunicação, as interações, que seja democrático? Como chegar ao ponto de equilíbrio, sem tornar a sala de aula em um caos?
Primeiramente, diferenciando os tipos de silêncio: há o silêncio necessário para a concentração, fruto do envolvimento dos alunos nas atividades, ou então dos momentos de escuta, onde o aluno ouve, demonstrando interesse ao que está aprendendo. Nestes momentos, o aluno mobilizado com algo que lhe causa interesse, cala-se para ouvir. Neste tipo de silêncio, que parte muitas vezes por iniciativa dos alunos, estes estão assimilando e acomodando novas informações.
Outro tipo de silêncio é aquele imposto pelo professor, no sentido de estabelecer a ordem, impedindo a comunicação entre os alunos em qualquer momento da aula. Assim, o professor não considera relevante que os alunos troquem ideias, tirem dúvidas com os colegas durante a realização de atividades ou interajam entre si, priorizando um aprendizado mais indivivualizado. Neste caso, o professor não enxerga a comunicação como um fator que favoreça a aprendizagem.
Este último é o alvo da nossa discussão. A busca pelo silêncio só pela ordem pode gerar uma dificuldade do professor em conhecer e identificar os interesses dos alunos. E sem esta compreensão, os professores podem perder a oportunidade de relacionar as falas dos alunos com os temas de estudo, que poderia gerar momentos de discussão, troca e reflexão únicos. Assim, muitas vezes, o aluno só fala demais porque nunca é ouvido. Logo, dar espaço para comunicação pode até mesmo reduzir a indisciplina no ambiente escolar.
Encontrar um equilíbrio é o desafio. É necessário que os espaços de aprendizagem sejam ambientes onde os alunos tenham o prazer de aprender, e isso só é possível se eles puderem se expressar, se comunicar, discutir e contribuir. É necessária, sem dúvidas, uma organização para o bom andamento do processo educativo, desde que além das regras existam momentos de interações e partilhas que atuem de forma positiva na construção dos indivíduos.
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Referências:
ARROYO, Miguel González. O subsolo comum de nossa docência. In:______. Ofício de mestre: imagens e auto-imagens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000.

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