O que está acontecendo com nossos adolescentes?

Nos últimos anos, a adolescência parece ter se tornado um território cada vez mais instável. Notícias sobre desafios online perigosos, aumento de comportamentos de risco e uma preocupante falta de limites entre os jovens não param de surgir. Afinal, o que está acontecendo com os nossos adolescentes? E mais importante: o que está faltando para compreendermos – e ajudarmos – essa geração?

Artigo de opinião  | Juliana T. Kuchla  |  21 abr. 2025

Foto: Freepik


Vivemos um tempo em que a adolescência – esse período historicamente marcado por descobertas, conflitos e construção de identidade – parece ter se tornado ainda mais complexa e desafiadora. Basta uma rápida passagem pelas redes sociais ou pelas manchetes dos jornais para perceber que algo mudou no comportamento dos nossos jovens: desafios online cada vez mais perigosos, sexualização precoce, crises de autoestima, comportamentos de risco e uma crescente dificuldade em lidar com frustrações e limites.

Por trás das reações que oscilam entre o espanto e a condenação, há uma necessidade urgente de compreender: o que está realmente acontecendo com os nossos adolescentes? Que influências estão moldando seus valores, seus afetos e suas escolhas? Como família, escola e sociedade têm (ou não têm) respondido a esse cenário? 

Este artigo propõe uma reflexão crítica sobre as transformações vividas pela adolescência na contemporaneidade. A partir de dados recentes e do olhar para fenômenos como o uso intensivo das redes sociais, os desafios virais e o enfraquecimento dos vínculos familiares, buscamos compreender não apenas os sintomas de um comportamento em crise, mas também suas raízes. Porque antes de julgarmos, é preciso escutar – e agir.

As redes sociais e a construção da identidade

Um estudo realizado em Portugal, no ano de 2023, revelou que 86% dos adolescentes admitem estar viciados nas redes sociais, com 90% utilizando essas plataformas desde os 13 anos de idade. O impacto disso vai além do tempo de tela: 80% preferem comunicar-se online do que pessoalmente, o que evidencia uma transformação nas relações interpessoais e na forma como constroem suas identidades.

A adolescência, por sua característica, é a fase da busca pela validação — social, afetiva, corporal e identitária. Em tempos onde influenciadores ocupam um espaço significativo na formação de valores, comportamentos e até na visão do próprio "eu", essa busca se intensifica, muitas vezes, de forma silenciosa e perigosa. A adolescência já não é apenas uma fase de transição, mas um período profundamente atravessado por pressões sociais, hipervisibilidade digital e uma constante necessidade de aprovação externa.

Nunca os jovens estiveram tão conectados — e, paradoxalmente, tão vulneráveis. Fenômenos como os desafios virais de risco, a erotização precoce e o consumo desenfreado de conteúdos idealizados são sintomas visíveis de um mal-estar mais profundo. São formas de expressão que revelam não só a curiosidade típica da idade, mas também lacunas emocionais, ausência de escuta e falta de limites — tanto no ambiente familiar quanto nas instâncias educativas e sociais.

As redes sociais, embora ofereçam possibilidades de expressão, também impõem padrões inalcançáveis, geram comparações constantes e cultivam ambientes de julgamento. A conexão digital constante parece vir acompanhada de uma desconexão emocional profunda.

Saúde mental em alerta

Os reflexos desse cenário são alarmantes. Cerca de 65% dos adolescentes reconhecem que os seus hábitos online estão associados a problemas como ansiedade, baixa autoestima e alterações de humor. Em muitos casos, o uso da internet é uma válvula de escape: 47,6% afirmam utilizá-la para fugir de sentimentos negativos como tristeza ou solidão.

Mais grave ainda é a exposição a conteúdos perigosos: 25% dos adolescentes entrevistados já se depararam com incentivos à automutilação nas redes sociais, 90% foram expostos a conteúdos de "beleza tóxica", incluindo padrões corporais irreais e dietas extremas, 45% observaram conteúdos que incentivam comportamentos de restrição ou distúrbios alimentares, 70% consumiram informações que os incentivaram a utilizar filtros excessivamente em fotografias e vídeos.​

Desafios online: entre o absurdo e o real

Entre as manifestações mais visíveis da crise da adolescência atual estão os chamados “desafios virais”, que circulam como tendências nas redes. Desde experiências de asfixia voluntária até a perigosa “roleta russa do sexo”, o objetivo parece ser chocar, testar limites ou pertencer a um grupo. O corpo e a saúde, nesse processo, tornam-se moeda de troca.

Esses comportamentos não são sinais de “rebeldia típica da idade”, mas sim pedidos de ajuda, de atenção, de sentido.

Um exemplo alarmante é o "surf no metro", que consiste em escalar e permanecer no topo de carruagens em movimento. Esta prática, popularizada sobretudo no TikTok,causou um aumento significativo de acidentes: em 2021, registaram-se 206 incidentes, em 2023, esse número subiu para 928. As autoridades de Nova Iorque relataram seis mortes e 181 detenções associadas a este desafio até outubro de 2023. (ver mais)

A Amnistia Internacional chamou a atenção para o fato de plataformas como o TikTok estarem a tornar-se espaços cada vez mais tóxicos e viciantes. A organização alerta que os jovens são expostos a conteúdos que romantizam pensamentos depressivos e incentivam comportamentos autodestrutivos, como a automutilação e o suicídio.

Outro caso trágico envolveu uma menina de 8 anos, Sarah Raíssa Pereira de Castro, que faleceu após inalar aerossol de desodorante, supostamente como parte de um desafio viral nas redes sociais. A criança sofreu uma parada cardiorrespiratória e, após três dias de hospitalização, teve morte cerebral confirmada. A Polícia Civil do Distrito Federal investiga o caso como homicídio qualificado.

Outro desafio viral que tem ganhado atenção é o conhecido como "roleta russa do sexo". Esta prática, que ocorre em festas e encontros entre adolescentes, envolve comportamentos sexuais desprotegidos e sem consentimento claro, aumentando significativamente os riscos de transmissão de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e gravidez indesejada. Recentemente, o caso de uma adolescente de 13 anos que engravidou após participar desse desafio no Brasil gerou ampla repercussão nas redes sociais e levantou sérias preocupações sobre a falta de educação sexual adequada e a ausência de supervisão em festas de adolescentes. Este tipo de desafio expõe os jovens a sérios riscos físicos e emocionais, refletindo a urgência de uma abordagem educativa mais eficaz sobre sexualidade, consentimento e segurança nas relações íntimas.

Estes comportamentos não surgem do nada. Eles são reflexos de um ambiente digital que muitas vezes banaliza comportamentos de risco, promovendo uma cultura de desafios em busca de visibilidade. A pressão por aprovação imediata e pela validação de grupos de pares tem levado muitos jovens a adotar atitudes extremas para se destacar. A falta de regras claras e de acompanhamento por parte dos pais sobre o uso da internet também contribui para esse cenário, deixando os jovens mais vulneráveis a influências externas sem a devida orientação. Isso exige uma resposta urgente da sociedade, com ênfase em um diálogo franco sobre sexualidade, consentimento e limites.



A crise da parentalidade: ausência ou despreparo?

Tradicionalmente, a família tem sido vista como o núcleo de proteção e orientação dos filhos, mas, nos dias de hoje, enfrenta suas próprias fragilidades. Um dado alarmante revela que 48% dos pais se sentem culpados por não protegerem adequadamente seus filhos dos conteúdos consumidos online. Ainda mais preocupante é o fato de que 52% afirmam que as plataformas digitais exercem mais influência sobre a autoestima dos filhos do que eles próprios.

Em um esforço para não excluírem seus filhos do mundo digital, oferecem acesso às redes sociais cada vez mais cedo, sem compreender as ferramentas e linguagens que dominam esse universo. Isso ocorre em um contexto no qual os pais desconhecem os riscos das plataformas e a forma como os jovens interagem com elas.

A parentalidade contemporânea enfrenta uma série de desafios: jornadas de trabalho exaustivas, falta de conhecimento sobre as tecnologias digitais e dificuldades de comunicação e escuta ativa. Muitas vezes, os pais não impõem limites não por negligência, mas por insegurança. O medo de serem considerados ultrapassados ou de excluir seus filhos do universo digital os impede de adotar uma postura mais crítica em relação ao uso das novas tecnologias.

Essa combinação de culpa, medo e despreparo revela uma necessidade urgente de reconfiguração da parentalidade na era digital. Não se trata apenas de estabelecer regras rígidas, mas de promover uma educação digital baseada no entendimento e na comunicação aberta. Pais e filhos precisam dialogar sobre os riscos, desafios e potenciais do mundo digital, criando um ambiente de confiança e compreensão mútua.

Em uma entrevista para o portal Metropoles, a psicanalista Andrea Vermont comentou sobre o papel dos pais na contemporaneidade: "Hoje se fala muito em liberdade, mas se confunde liberdade com abandono emocional. O adolescente, dos 12 aos 21 anos, vive um limbo: se até os 12 anos a criança fazia tudo o que era determinado pelos pais, entre os 12 e os 21 ela busca seu próprio mundo. Esse período necessita de acompanhamento, pois esse jovem irá se ligar a algo ou a alguém, e isso precisa ocorrer dentro de um contexto de autoridade e limites. O papel da escola, das autoridades e dos pais é estar muito atentos." Para Vermont, "o adolescente no atual contexto é como alguém dirigindo um carro sem saber como fazê-lo". Ela acrescenta que esta é uma fase de vulnerabilidade, em que os jovens estão mais suscetíveis a se envolverem com dependências químicas, sexo inseguro e até mesmo a pedofilia.

Além disso, Vermont enfatiza que os pais precisam criar uma proximidade com seus filhos, pois, atualmente, estão cada vez mais ausentes dentro de casa. "Não é controle, nem autoritarismo, mas presença. E presença é diferente de tempo", explica. Segundo ela, os vínculos devem ser criados desde muito cedo. "Fomos criados por uma geração de pais que, embora não fossem afetuosos, estavam presentes. Porém, em nome de dar aos filhos o que não tivemos, estamos criando uma geração desregrada, sem os limites e a presença que realmente precisam".

É fundamental que os pais compreendam que seu papel vai além de simplesmente fornecer o acesso às tecnologias. Eles precisam estar preparados para orientar seus filhos no uso saudável e crítico dessas ferramentas, garantindo que a liberdade seja equilibrada com responsabilidade, e o afeto seja complementado por limites claros e consistentes.

Para onde vamos a partir daqui?

Falar sobre a crise da adolescência é, acima de tudo, um convite à escuta e à reflexão. Nossos jovens estão crescendo em um mundo complexo, acelerado e sobrecarregado de estímulos. Não basta rotulá-los como “problemáticos” – é preciso perguntar o que suas atitudes estão tentando nos dizer.

Educar na contemporaneidade exige presença, consciência e corresponsabilidade. É urgente fortalecer a rede entre escola, família e sociedade para acolher, orientar e, principalmente, compreender o que os adolescentes vivem, pensam e sentem.


>>>Sugestão de leitura: O Cérebro Adolescente (clique aqui)

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