Como a leitura molda o nosso cérebro?
Como a leitura molda o nosso cérebro? Neste vídeo instigante da BBC, somos convidados a refletir sobre um tema fascinante: a leitura, uma invenção recente na história da humanidade, tem o poder de reorganizar circuitos cerebrais, transformar nossa forma de pensar e até desenvolver empatia. A partir de estudos de renomados pesquisadores como Stanislas Dehaene e Maryanne Wolf, o vídeo mostra como a prática da leitura profunda não apenas aprimora nossas habilidades cognitivas, mas também se torna essencial em um mundo digital cada vez mais acelerado. Um conteúdo essencial para quem se interessa por educação, neurociência e cultura.
Destaco alguns pontos importantes do vídeo e recomendo que assistam na íntegra:
Juliana T. Kuchla | 26 jun. 2025
A leitura não é inata ao ser humano
O cérebro humano não nasce com a capacidade de ler, e esse aprendizado é relativamente recente na história evolutiva. Para que desenvolvamos a habilidade de ler, nosso cérebro reutiliza áreas neurais que originalmente serviam para funções como reconhecimento visual (rostos, objetos) e linguagem oral. Esse processo, conhecido como reciclagem neuronal, foi proposto pelo pesquisador Stanislas Dehaene.
Dehaene explica que, ao aprender a ler, certas regiões do cérebro, que antes estavam envolvidas com tarefas visuais, são reorganizadas para interpretar símbolos e letras. Esse “reaproveitamento cerebral” permite que o cérebro atribua significado e sentido às palavras escritas, revelando a plasticidade e a incrível adaptabilidade do nosso sistema neural.
Circuitos cerebrais e alfabetização cultural
A alfabetização não é uma habilidade inata, mas sim uma conquista cultural desenvolvida nos últimos milhares de anos. Inicialmente, nosso cérebro está preparado para tarefas visuais e linguísticas, mas ao aprender a ler, ele reorganiza suas redes neurais para decodificar símbolos, letras e palavras. Esse processo, também conhecido como reciclagem neuronal, demonstra a capacidade única do cérebro humano de se adaptar e aprender habilidades complexas como a leitura. A evolução da escrita reflete, assim, a adaptação cultural que molda profundamente o funcionamento cerebral.
A reportagem também aborda os efeitos da leitura no desenvolvimento da empatia e nas funções cognitivas mais complexas. A pesquisadora Maryanne Wolf destaca que a leitura profunda – aquela feita de maneira atenta e reflexiva – tem o poder de transformar a nossa percepção de nós mesmos e dos outros.
A leitura ativa regiões do cérebro associadas à compreensão social e emocional, ou seja, à nossa capacidade de entender e compartilhar os sentimentos e perspectivas dos outros. Isso é particularmente verdadeiro quando lemos ficção, já que ela nos permite entrar em mundos e realidades diferentes, colocando-nos no lugar de outras pessoas. Ao nos conectarmos com os personagens, somos desafiados a interpretar suas ações, sentimentos e contextos, o que aprimora nossa empatia e nos torna mais sensíveis às complexidades emocionais das situações humanas.
O vídeo também discute as mudanças causadas pelo avanço das tecnologias digitais, particularmente no modo como lemos. A leitura em telas – que tende a ser rápida e fragmentada – não ativa as mesmas áreas do cérebro envolvidas em um processo de leitura profunda. A autora alerta que essa leitura superficial pode prejudicar nossa capacidade de atenção, compreensão crítica e reflexão. Em um mundo saturado de informações instantâneas, a leitura profunda continua sendo essencial, pois ela permite digestão lenta e reflexiva do conteúdo, levando à melhor retenção da informação e ao desenvolvimento de habilidades de pensamento crítico.
Wolf também ressalta que a leitura literária vai além de ser apenas uma fonte de entretenimento – ela é um exercício para o cérebro, que ativa áreas cognitivas e emocionais essenciais. Ela é uma ferramenta poderosa para a formação de senso crítico, para a expansão da compreensão do mundo e para o desenvolvimento da imaginação. Livros de ficção, em particular, têm um papel único em expandir nossa visão de mundo, permitindo-nos compreender perspectivas que nunca experimentamos diretamente.
Por fim, o vídeo alerta para o perigo da leitura superficial que se espalha na era digital. Quando lemos de forma rápida e sem foco, como acontece com frequência em dispositivos móveis, podemos estar perdendo a capacidade de ler profundamente, um processo que exige concentração e dedicação. A leitura não é apenas um mecanismo de obtenção rápida de informações, mas um processo cognitivo profundo que deve ser incentivado para o desenvolvimento integral do ser humano.
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