O uso do celular na escola não é um problema da escola - é um problema da infância
Artigo de opinião | Juliana T. Kuchla | 10 jun. 2025
Recentemente, ouvi o episódio do podcast do Instituto Natura, onde o professor Fabio Campos, do Laboratório de Tecnologias de Aprendizagem Transformadoras da Universidade de Columbia (EUA), fez uma reflexão importante sobre a proibição do uso de celulares nas escolas. Ele argumenta que a proibição do celular é um "fracasso social", mas, nesse momento, ainda se faz necessária.
Quando um problema como esse chega ao ponto de ser tratado por meio de uma legislação nacional, isso aponta para uma falha mais profunda. Para nós, educadores, a imposição de uma lei vai contra tudo o que acreditamos, que é o diálogo, a construção de consenso e a tomada de decisões com alunos e famílias. A escola deve ser um ambiente de cooperação e compreensão mútua, e não de imposições. Porém, mesmo com toda essa perspectiva, o uso do celular na escola precisa ser regulamentado, o que representa, de certa forma, uma falha da educação atual. Há décadas, discutimos sobre como integrar a tecnologia de forma saudável no ambiente escolar, mas ainda não conseguimos criar soluções eficazes.
Proibir não é a solução final, mas é necessário no momento
O uso excessivo do celular na escola tem se tornado uma preocupação crescente entre educadores, pais e gestores escolares. Muitos veem o celular como uma distração, uma ferramenta que impede a concentração dos alunos e prejudica o aprendizado. No entanto, ao refletirmos mais profundamente sobre essa questão, podemos perceber que a raiz do problema vai além da simples presença do aparelho na sala de aula. O verdadeiro desafio é muito mais profundo e está relacionado ao desenvolvimento da infância na era digital.
A escola não pode se privar do uso das novas tecnologias e recursos. Ela precisa dar um propósito a esses meios, aproveitando as oportunidades que oferecem para enriquecer o aprendizado. Proibir sem oferecer alternativas é, de certa forma, abdicar do próprio papel da escola, que é promover o uso responsável das tecnologias. A resistência à tecnologia, ao tentar excluir o que está fora do mundo da escola, é um risco de retroceder.
A verdadeira questão não é a proibição em si, mas como a escola pode, nesse momento, oferecer alternativas para o uso responsável e equilibrado das tecnologias. A escola deve criar um ambiente que permita aos alunos fazer escolhas conscientes, guiadas por uma educação que combine o digital com o desenvolvimento integral.
Quando falamos sobre o uso do celular na escola, estamos, na realidade, abordando um reflexo de um problema maior: a dificuldade das crianças e adolescentes em estabelecer uma relação equilibrada e consciente com a tecnologia. Em vez de ser um problema exclusivo das instituições de ensino, a questão do uso excessivo das telas é um reflexo das complexidades da infância no século XXI, marcada pela presença constante das tecnologias digitais em todos os aspectos da vida.
Os jovens de hoje são os filhos dos "deslumbrados digitais"
A geração millennial e os migrantes digitais, como são conhecidos aqueles que cresceram com a transição da era analógica para a digital, foram os primeiros a experimentar as novas tecnologias de forma intensiva e, em muitos casos, sem uma orientação adequada sobre o seu uso responsável. Eles estavam deslumbrados com as novas possibilidades, mas muitas vezes não perceberam as implicações que isso teria para as gerações seguintes. Esses "deslumbrados digitais" acabaram criando um legado de uso descontrolado da tecnologia, que agora reflete diretamente nos jovens de hoje, a geração Z, imersa nas telas desde muito cedo.
O uso excessivo e muitas vezes irresponsável das novas tecnologias por parte dos pais tem gerado uma onda de consequências para seus filhos, os jovens de hoje. Sem modelos claros de equilíbrio entre o uso da tecnologia e outras atividades essenciais ao desenvolvimento humano, os jovens de agora enfrentam dificuldades em gerenciar seu tempo de tela, encontrar foco em suas atividades e lidar com os impactos emocionais e cognitivos do uso contínuo de dispositivos digitais.
Fomos os pioneiros no uso massivo de tecnologias como smartphones, redes sociais e aplicativos. No entanto, muitos de nós, pais e adultos de hoje, não tivemos uma educação formal sobre o uso responsável das tecnologias, e as consequências disso são visíveis agora na geração mais jovem. Os pais millennials, muitas vezes sem perceber, acabam transmitindo para seus filhos um comportamento de dependência digital, sem fornecer a estrutura necessária para uma utilização saudável e equilibrada das novas ferramentas.
Apesar da abundância de informações disponíveis, muitos pais hoje parecem negligenciar a importância de estabelecer limites para o uso das tecnologias. Como resultado, é cada vez mais comum que as crianças tenham acesso precoce a dispositivos eletrônicos e redes sociais, frequentemente sem orientação adequada e sem a maturidade necessária para enfrentar os desafios do mundo digital. Em busca de um status social, os pais acabam impondo aos filhos uma carga que, no fim, gera consequências significativas.
O aluno só chega à escola com um celular porque um adulto decidiu comprá-lo. Crianças não têm poder de consumo, são financeiramente dependentes e não possuem autonomia para tomar essas decisões. No contexto do desenvolvimento cognitivo, jamais uma criança deveria ser incentivada a desenvolver habilidades digitais antes de dominar as habilidades humanas essenciais. Como pais, estamos falhando ao colocar as tecnologias na frente do desenvolvimento integral de nossos filhos.
Logo, o problema não está apenas no uso de celulares e dispositivos digitais, mas na maneira como a geração anterior não soube lidar com essas novas possibilidades. Ao invés de estabelecer limites e refletir sobre as consequências do uso excessivo, muitos foram consumidos pela tecnologia, levando a um comportamento impulsivo e desprovido de reflexão, que acabou sendo passado para seus filhos.
Portanto, os jovens de hoje são, de certa forma, herdeiros da falta de limites, equilíbrio, reflexão e consumismo precoce. Agora, cabe a nós, como educadores e responsáveis, promover a conscientização e a formação para um uso mais equilibrado, consciente e responsável das novas ferramentas digitais.
A Educação digital: a responsabilidade do presente
Diante desse cenário, a escola e a família têm a responsabilidade de criar um novo modelo de educação digital, focado no equilíbrio, na autoconsciência e no uso crítico das tecnologias. Não podemos ignorar que as ferramentas digitais são poderosas, mas também exigem uma orientação clara e firme. Como educadores, devemos estar preparados para ajudar os alunos a desenvolver uma relação saudável com a tecnologia, algo que muitas vezes faltou para a geração anterior.
As crianças de hoje crescem em um mundo saturado de informações e dispositivos digitais. O celular, que era visto inicialmente como uma ferramenta de comunicação, agora ocupa um papel multifacetado: além de ser um meio de entretenimento e comunicação, é uma plataforma de aprendizado, uma janela para redes sociais e, muitas vezes, uma válvula de escape para o estresse e a solidão. No entanto, essa convivência com a tecnologia não é acompanhada por uma formação adequada para lidar com suas implicações emocionais, sociais e cognitivas.
É aí que entra a questão da infância: crianças e adolescentes estão em um estágio de desenvolvimento em que ainda estão aprendendo a construir limites, tomar decisões conscientes e lidar com suas emoções. A tecnologia, muitas vezes, não oferece esses "limites" de forma natural. Sem uma orientação clara sobre o uso da tecnologia, muitos jovens se veem consumidos por ela, utilizando-a para fugir da realidade ou para preencher lacunas emocionais, o que acaba refletindo no comportamento dentro da escola.
A Escola, a Família e o papel da Formação Digital
Embora as escolas tenham a responsabilidade de promover um ambiente de aprendizagem saudável e focado, elas não podem ser as únicas responsáveis por resolver o problema do uso excessivo do celular. O verdadeiro desafio está em ensinar as crianças, desde cedo, a desenvolverem uma relação mais saudável com a tecnologia.
É importante que a escola seja um espaço não apenas de conhecimento acadêmico, mas também de reflexão crítica sobre o uso da tecnologia. Os alunos precisam aprender não só como usar a tecnologia de forma eficaz, mas também como fazer escolhas responsáveis, equilibradas e conscientes. Isso significa estabelecer limites para o tempo de tela, compreender os impactos da tecnologia no cérebro e nas emoções, e desenvolver habilidades para se desconectar quando necessário.
Quanto à família, esta desempenha um papel fundamental ao ajudar crianças e adolescentes a compreender tanto os benefícios quanto os riscos do mundo digital. Ao dialogar sobre as experiências online, orientar sobre os impactos do uso excessivo de telas e incentivar atividades offline, os pais contribuem diretamente para o desenvolvimento da autoconsciência digital e para a construção de uma relação mais equilibrada com as tecnologias.
Em meio a esse cenário desafiador, é imperativo que tanto a escola quanto a família se unam em torno de uma visão comum sobre o uso das tecnologias digitais, a fim de formar cidadãos críticos, responsáveis e equilibrados. Não podemos mais tratar a tecnologia como uma mera ferramenta; ela deve ser incorporada ao nosso processo educativo de forma reflexiva e estratégica. Precisamos ajudar os alunos a navegar nesse mundo digital, ensinando-os a usar as ferramentas disponíveis para ampliar seus horizontes, sem que isso os consuma ou prejudique seu desenvolvimento humano.
A escola tem um papel vital em criar um espaço de aprendizagem que não apenas se concentre no conteúdo acadêmico, mas também na formação do indivíduo como um ser consciente e equilibrado no uso da tecnologia. Isso significa fomentar a autocrítica, ensinar o uso responsável dos recursos digitais e promover o pensamento reflexivo sobre as consequências da dependência das telas.
Apesar da necessidade momentânea de restringir o uso do celular na escola, é fundamental que a instituição não se esqueça do seu papel social: crianças e adolescentes continuarão usando a tecnologia fora de seus muros. Por isso, mais do que proibir, a escola deve assumir a responsabilidade de formar cidadãos capazes de fazer um uso crítico, consciente e equilibrado da tecnologia, preparando-os para os desafios do mundo conectado em que vivem.
A convivência digital começa em casa, e é lá que os primeiros exemplos de limites e comportamentos são dados. Pais e educadores devem trabalhar juntos, ensinando desde cedo os jovens a equilibrar o tempo digital com outras formas de aprendizado e desenvolvimento, como o contato com a natureza, atividades físicas e relações pessoais significativas. O equilíbrio não pode ser imposto, mas construído com paciência e diálogo.
A proibição, como vimos, não é a solução definitiva, mas pode ser necessária em algumas circunstâncias para garantir o bem-estar imediato dos alunos. No entanto, mais do que proibir, precisamos preparar as futuras gerações para lidar com as tecnologias de maneira consciente e equilibrada. Proibir o uso do celular nas escolas é uma resposta pontual, mas a solução real está na educação para a autonomia digital, no fortalecimento da consciência crítica e no estabelecimento de normas que favoreçam o bem-estar coletivo.
O futuro da educação digital está em nossas mãos, e é nosso dever, como educadores e responsáveis, liderar esse movimento com clareza, empatia e compromisso. Precisamos lembrar que a tecnologia, por mais que esteja presente em todas as áreas da nossa vida, não deve ser o centro de tudo. O centro deve ser sempre o ser humano, seu crescimento integral e sua capacidade de se adaptar e utilizar as ferramentas digitais de maneira construtiva. Assim, conseguiremos garantir que nossos alunos, ao final de sua jornada educacional, se tornem cidadãos responsáveis, capazes de tomar decisões conscientes no mundo digital e no mundo real.

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