Pais “raiz” x “nutela”: uma visão simplista da educação de filhos

Artigo de opinião |  Juliana T. Kuchla  |  07 jul. 2025



Educar não é meme...

Vivemos tempos de polarizações, e a parentalidade não escapou dessa lógica. Com frequência, os debates sobre como educar crianças são reduzidos a categorias caricatas, como ser "pai/mãe raiz" ou "nutela". De um lado, o "raiz", autoritário, duro, inflexível, representante de uma educação antiga, baseada em obediência e punição. Do outro, o "nutela", permissivo, supostamente frouxo, indulgente, excessivamente emocional. Entre memes e comentários nas redes sociais, essa dicotomia se instala como se fosse possível compreender o desenvolvimento humano a partir de rótulos tão rasos.

No entanto, o desenvolvimento infantil e a função parental exigem muito mais do que uma escolha entre extremos. Envolvem escuta, presença, consistência e, sobretudo, conhecimento. Simplificar esse debate é não apenas injusto com os pais e cuidadores que tentam se orientar em meio a tantas transformações, mas também prejudicial às próprias crianças.

As dimensões da autoridade parental

A psicóloga do desenvolvimento Diana Baumrind foi uma das pioneiras no estudo dos estilos parentais. Em suas pesquisas na década de 1960, ela identificou três padrões principais: o autoritário, o permissivo e o autoritativo (ou democrático). O estilo autoritário é caracterizado por alta exigência e baixa responsividade; os pais impõem regras rígidas, esperam obediência sem questionamentos e costumam recorrer à punição. Já o estilo permissivo é marcado por alta responsividade e baixa exigência. Pais permissivos evitam confrontos e permitem que as crianças façam o que desejam, mesmo sem maturidade para tais decisões. Por fim, o estilo autoritativo combina altas expectativas com afeto e diálogo, promovendo uma disciplina baseada na negociação e no respeito mútuo.

Estudos posteriores mostraram que o estilo autoritativo está associado a melhores resultados no desenvolvimento socioemocional das crianças. Como destaca Baumrind (1991), crianças educadas nesse estilo tendem a apresentar mais competência, responsabilidade, autoestima e habilidades sociais.

É fácil perceber que a caricatura do "pai raiz" se aproxima do estilo autoritário, enquanto o "nutela" tende a refletir o estilo permissivo. No entanto, nenhum dos dois extremos se mostrou o mais benéfico para o desenvolvimento saudável das crianças. A literatura aponta que o equilíbrio entre firmeza e afeto é o que mais favorece o florescimento infantil.

Entre afeto e limites: a importância do vínculo

Donald Winnicott, pediatra e psicanalista britânico, trouxe uma importante contribuição ao pensar o conceito de "mãe suficientemente boa" — ou, mais amplamente, cuidadores suficientemente bons. Para ele, a função parental não está em atender todas as demandas da criança nem em suprimir suas necessidades, mas em oferecer um ambiente acolhedor, seguro e estável, que permita tanto a expressão quanto a frustração, promovendo o amadurecimento emocional (WINNICOTT, 1953).

Segundo Winnicott (1987), “uma mãe suficientemente boa adapta-se ativamente às necessidades do bebê”, mas, gradualmente, permite que ele enfrente pequenas frustrações. Isso ajuda a criança a desenvolver tolerância à frustração, noção de realidade e segurança emocional.

Ou seja, pais que buscam atender a todos os desejos dos filhos o tempo todo, por medo de parecerem "duros demais", podem, sem querer, comprometer o desenvolvimento da autonomia e da resiliência emocional. Por outro lado, aqueles que impõem suas vontades com rigidez e desqualificam os sentimentos infantis podem romper o vínculo afetivo, tornando-se figuras temidas em vez de respeitadas.

A psicoterapeuta Philippa Perry (2019) reforça essa visão ao afirmar que a base para uma parentalidade saudável não está na rigidez ou na permissividade, mas na consciência emocional. Ela destaca que os pais devem refletir sobre os padrões que herdaram de suas próprias infâncias e buscar romper ciclos disfuncionais. “O que realmente importa é a qualidade da relação que você estabelece com seu filho — a escuta, a validação das emoções e a capacidade de reparar os erros quando eles inevitavelmente acontecem”.

A psicóloga Mona Delahooke (2022), em Brain‑Body Parenting, aprofunda essa perspectiva ao propor uma abordagem baseada no funcionamento do sistema nervoso da criança. Para ela, "comportamento difícil é um sintoma", uma expressão de estresse ou desorganização interna. Em vez de reagir ao comportamento em si, os pais devem observar a linguagem corporal da criança, oferecer co‑regulação emocional e cuidar de seu próprio equilíbrio para apoiar a resiliência infantil. A disciplina, nesse modelo, é um processo de conexão e segurança, não de controle ou punição.

A simplificação que adoece

Frases como "as crianças de hoje não respeitam mais os pais" têm sido amplamente repetidas, muitas vezes como argumento para justificar o retorno a métodos mais rígidos e autoritários de educação. No entanto, como pontuam Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson (2016), quando as crianças se comportam mal, não estão sendo desobedientes, mas sim mostrando que não conseguem regular seu cérebro emocional. Ou seja, por trás de uma “birra” ou comportamento desafiador, há uma necessidade emocional que ainda não pode ser expressa de outra forma.

A disciplina eficaz, segundo os autores, não é baseada na punição, mas em conexão. A função do adulto é ajudar a criança a entender suas emoções e comportamentos, integrando razão e emoção. Essa abordagem exige mais do que autoridade: exige presença, paciência e inteligência emocional.

Isabelle Filliozat (2014), psicoterapeuta francesa, complementa essa ideia ao afirmar que “a autoridade não se impõe pelo medo, mas pela segurança que transmitimos”. Essa segurança emocional é construída por adultos emocionalmente disponíveis, que oferecem limites consistentes sem humilhar ou envergonhar a criança.

Janet Lansbury (2014), por sua vez, defende que “disciplina não é o que fazemos às crianças, mas o que fazemos com elas”, destacando a importância do vínculo e do respeito mútuo.

Carlos González (2006), pediatra espanhol, também alerta contra a ilusão de que amor demais estraga: “Não há excesso de amor. O que há, às vezes, é carência de paciência, de escuta e de compreensão do que é próprio da infância”.

Jesper Juul (2011), terapeuta familiar dinamarquês, reforça que “as crianças não precisam de pais perfeitos, mas de adultos honestos e dispostos a assumir a responsabilidade pela relação”. Para ele, autoridade verdadeira vem da integridade, não da imposição.

Conclusão: precisamos sair da lógica do ou/ou

Reduzir a complexidade da parentalidade a uma escolha entre "raiz" e "nutela" empobrece o debate e atrapalha as práticas. Ser pai ou mãe é um processo contínuo de aprendizagem e adaptação. O desafio não está em escolher um “lado”, mas em buscar equilíbrio: firmeza com empatia, autoridade com diálogo, afeto com responsabilidade.

Como escreve Winnicott (1987), “não existe bebê sem um cuidador”. A criança é um ser em formação, e sua visão do mundo, de si mesma e dos outros se constrói a partir das relações que estabelece com os adultos de referência. Portanto, a pergunta mais importante não é "qual estilo você segue?", mas sim: o que sua criança está aprendendo sobre o mundo, sobre si mesma e sobre os outros a partir da relação que constrói com você?



Referências

BAUMRIND, Diana. Effects of Authoritative Parental Control on Child Behavior. Child Development, v. 37, n. 4, p. 887–907, 1966.

BAUMRIND, Diana. The influence of parenting style on adolescent competence and substance use. The Journal of Early Adolescence, v. 11, n. 1, p. 56–95, 1991.

DELAHOOKE, Mona. Brain‑Body Parenting: How to Stop Managing Behavior and Start Raising Joyful, Resilient Kids. New York: Harper, 2022.

FILLIOZAT, Isabelle. Já tentei de tudo! Birra, manha e ataques de raiva — como lidar com crianças de 1 a 5 anos. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

GONZÁLEZ, Carlos. Besame mucho: como criar seus filhos com amor. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.

JUUL, Jesper. Seu filho precisa de você: da obediência à responsabilidade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2011.

LANSBURY, Janet. No Bad Kids: Toddler Discipline Without Shame. Los Angeles: JLML Press, 2014.

PERRY, Philippa. O livro que você gostaria que seus pais tivessem lido (e seus filhos vão agradecer por você ler). São Paulo: Sextante, 2019.

SIEGEL, Daniel J.; BRYSON, Tina Payne. Disciplina sem drama: guia para ajudar pais a lidar com o caos e nutrir o desenvolvimento do cérebro infantil. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2016.

WINNICOTT, Donald W. Transitional objects and transitional phenomena. International Journal of Psycho-Analysis, v. 34, p. 89–97, 1953.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

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