Artigo de opinião | Juliana T. Kuchla | 21 jul. 2025
Castelo Rá-Tim-Bum, Doug, Turma da Mônica, Caverna do dragão, Cavalo de fogo, Peixonauta, Ursinho Pooh, O mundo da Lua, Ursinhos Carinhosos...esses e tantos outros programas e desenhos que marcaram a infância de quem cresceu nas décadas de 1980 e 1990 voltam a ocupar espaço nas salas de estar — mas, desta vez, com um novo público: nossos filhos.
Em meio a um cenário digital dominado por conteúdos acelerados e hiperestimulantes, muitos pais têm resgatado esses clássicos como uma forma mais tranquila, segura e saudável de entreter suas crianças. O que poderia parecer apenas uma viagem nostálgica tem se revelado, na verdade, uma escolha consciente e alinhada com o que estudos apontam sobre o desenvolvimento infantil.
Neste artigo, vamos entender por que essa volta ao passado pode ser um avanço no presente — e como os desenhos antigos podem contribuir positivamente para o comportamento, o sono, a atenção e até a criatividade das crianças.
Imagem gerada por IA
Nos últimos anos, tem crescido o número de pais que estão resgatando desenhos antigos, especialmente aqueles dos anos 80, 90 e início dos anos 2000, como alternativa mais saudável para o consumo audiovisual das crianças. Essa tendência não é apenas nostálgica, mas principalmente uma resposta consciente ao excesso de estímulos presentes nos conteúdos infantis atuais.
Desenhos como Cocomelon, por exemplo, têm sido criticados por especialistas em desenvolvimento infantil por apresentarem cortes frenéticos, sons intensos, cores vibrantes demais e ritmo acelerado. Esse tipo de estímulo constante pode afetar o comportamento da criança, aumentando a impulsividade, dificultando a concentração e até prejudicando a capacidade de brincar de forma criativa.
Já os desenhos mais antigos costumam ter ritmo mais lento, falas claras e uma menor sobrecarga de estímulos visuais e sonoros. Essa simplicidade ajuda a criança a assistir com mais calma e a não ficar hipersensibilizada, promovendo uma relação mais equilibrada com as telas. Além disso, favorecem o desenvolvimento da atenção, da linguagem e da imaginação.
Pais atentos têm observado como certos programas impactam o sono, o humor e até a linguagem de seus filhos. Diante disso, o retorno aos desenhos antigos aparece como uma escolha que respeita mais o ritmo natural do cérebro infantil, uma forma de oferecer entretenimento de qualidade, sem comprometer o bem-estar e o desenvolvimento saudável das crianças.
Cores fortes, sons altos e pouca pausa: o que isso causa nas crianças?
1. O excesso de estímulos no entretenimento moderno
Desenhos atuais, como Cocomelon, Baby Shark, entre outros, são produzidos com cortes rápidos, mudanças constantes de cena, trilhas sonoras aceleradas, cores vibrantes e repetições sonoras intensas. Embora esse formato prenda a atenção da criança, e esse seja exatamente o objetivo dos produtores, estudos indicam que esse tipo de superestimulação pode provocar efeitos negativos no cérebro em desenvolvimento.
Pesquisas em neurociência apontam que a exposição frequente a conteúdos com alto volume de estímulos pode contribuir para:
-
Aumento da impulsividade
-
Redução da capacidade de atenção sustentada
-
Prejuízo no sono
-
Dificuldade no brincar simbólico e criativo
-
Atrasos na linguagem em casos mais intensos
Esses efeitos ocorrem porque o cérebro da criança pequena ainda está desenvolvendo suas funções executivas (como o controle inibitório, a regulação emocional e o foco) e precisa de estímulos adequados ao seu ritmo para que esse desenvolvimento aconteça de forma saudável.
O valor dos desenhos antigos: ritmo, clareza e simplicidade
Ao contrário dos desenhos modernos mais frenéticos, muitos desenhos e programas antigos (como Castelo Rá-Tim-Bum, Peixonauta, O Pequeno Urso, Turma da Mônica, entre outros) apresentam:
-
Ritmo mais lento, permitindo que a criança acompanhe a narrativa sem ansiedade;
-
Falas pausadas e linguagem acessível, favorecendo a aquisição da linguagem;
-
Estímulos visuais e sonoros moderados, o que reduz a sobrecarga sensorial.
Essas características respeitam o tempo do cérebro infantil, favorecendo a compreensão, a memorização, a empatia e a elaboração de brincadeiras inspiradas no conteúdo assistido. Além disso, a ausência de sobrecarga ajuda a evitar comportamentos mais agitados ou desorganizados logo após o consumo da mídia. Alguns desenhos, como Pingu, encantavam sem dizer uma única palavra, usando apenas expressões, sons e movimentos para estimular a imaginação e a leitura emocional das crianças.
Imagem gerada por IA
A importância do consumo consciente
Muitos pais têm observado, na prática, que o que a criança assiste influencia diretamente no comportamento, no sono, na fala e até na forma como brinca. Essa percepção, somada às evidências científicas, reforça a importância de fazer escolhas mais criteriosas em relação ao que é oferecido como entretenimento.
Ao optar por desenhos mais calmos, com tramas mais simples e menos estímulos, os adultos estão não só protegendo o bem-estar da criança, mas também promovendo um desenvolvimento mais equilibrado, saudável e respeitoso com a fase em que ela se encontra.
Sugestões de desenhos e programas com ritmo calmo e linguagem acessível:
-
O Ursinho Pooh
Histórias suaves que exploram amizade, sentimentos e empatia, com ritmo sereno.
-
O Pequeno Urso (Little Bear)
Visual simples, tramas acolhedoras e incentivo ao brincar simbólico e à imaginação.
-
Pingu
Desenho sem fala verbal que estimula a leitura de expressões e o raciocínio visual.
-
Ursinhos Carinhosos (Care Bears)
Promove empatia, cooperação e o reconhecimento dos próprios sentimentos.
-
Franklin e sua Turma
Lida com situações cotidianas com paciência, respeito e sensibilidade.
-
Caillou
Mostra o dia a dia infantil com foco no desenvolvimento emocional e social.
-
Cavalo de Fogo
Fantasia e aventura com mensagens sobre coragem, justiça e conexão com o bem.
Castelo Rá-Tim-Bum
Clássico da TV Cultura que une ciência, arte, literatura, imaginação e respeito à inteligência da criança.
-
O Mundo da Lua
Valoriza a família, o pensamento criativo e a visão da criança sobre o mundo dos adultos.
-
Cocoricó
Trabalha amizade, respeito aos animais e à natureza, com humor e simplicidade.
-
Turma da Mônica (versões clássicas)
Rica em valores como justiça, empatia, diversidade e convivência, com humor nacional.
-
Peixonauta
Aventura com foco na ciência e na preservação ambiental, linguagem simples e educativa.
-
Gangue do Barulho
Desenho que valoriza a convivência entre crianças diferentes, o trabalho em equipe, a criatividade e o humor leve.
Comentários
Postar um comentário