A cultura do CULPADO no contexto escolar
"Estes pais de hoje em dia não educam os filhos, e esperam que nós eduquemos eles aqui na escola."
"A escola não tem obrigação de educar ninguém, mas sim de ensinar."
"Os pais não ensinam nada!"
"Eles não estão nem aí. Nem participam das reuniões."
"Essa criança deve viver na bagunça. Olhe que desorganizada!"
"Essa professora vive pegando no pé do meu filho!"
"Essa coordenadora não resolve nada."
Frases como estas são comumente ouvidas dentro e fora do ambiente escolar. De um lado temos a escola, com a sua missão definida de ensinar os alunos, e do outro, as famílias com a sua missão de educar e com as suas expectativas de que a escola contribua para o desenvolvimento dos filhos e para a sua inserção na sociedade.
O que deveria ser uma relação saudável, onde cada um participa de forma a complementar o outra, pode muitas vezes tornar-se uma relação de conflitos e julgamentos.
Se adotarmos como exemplo as frases do primeiro parágrafo, podemos notar a falta de conhecimento dos contextos, uns em relação aos outros. A escola desconhece o contexto familiar do aluno, e a família desconhece o contexto escolar em que o aluno está inserido.
Para cada indagação, poderíamos fazer uma reflexão.
Por exemplo, será que o papel da escola ainda é somente o de ensinar? Há como ensinar sem educar? Será que os pais têm capacidade de contribuir com a aprendizagem dos filhos? Será que os pais não possuem limitações, como baixa escolaridade, por exemplo? Será que a baixa participação familiar não se dá por algum impedimento? As reuniões ocorrem em horários que permitem a participação de todos os pais? E aqueles que não podem participar, têm outros meios de se informarem sobre os assuntos escolares? Há diálogo com a escola?
E quanto ao julgamento contra a escola? Quais os parâmetros que os pais usam para julgar os professores ou a equipe pedagógica? Qual a forma de comunicação que a escola utiliza que deixa os pais insatisfeitos? O que os pais esperam dos professores? O que impede a comunicação dos pais com a equipe da escola?
Isto tende a ocorrer por causa do que chamamos de cultura de encontrar culpados*. Sabemos que as famílias são diferentes entre si, assim como as escolas. Todas têm suas características, qualidades e defeitos. O foco central deveria ser o aluno, e ambas as instituições deveriam atuar em prol a ele. Porém, por vezes, tanto a família quanto a escola assumem uma postura de julgamento, ao invés do diálogo, na tentativa de justificar os conflitos e dificuldades que enfrentam.
No contexto atual, a escola deve compreender que não existem mais um padrão familiar. Se há décadas atrás, tínhamos um conceito sobre a estrutura familiar, vivemos em um momento onde percebemos diversas configurações familiares. Isso implica também na relação destas com a escola. A convivência entre familiares diminui. A presença materna e paterna foi limitada. Os papéis dos familiares se transformaram.
As escolas também diferenciam-se pelas suas culturas: podem ser escolas mais tradicionais, outras priorizam o diálogo com as famílias, outras subestimam o papel destas e limitam a sua participação. Em especial, o Ensino fundamental tornou-se um espaço de convivência e de se relacionar das crianças, além de ser o espaço de aprender.
De acordo com o livro Diálogo Escola-Família*,
"Quando a demanda de um aluno é muito intensa, a culpa recai sobre a família, “que não soube/sabe educar ou cuidar direito”, como muitas vezes se ouve dentro da escola. De outro lado, pensam as famílias: “Se a escola, especialista em Educação, não sabe educar, como nós, que não somos especialistas, podemos ser os únicos responsáveis?”
Afinal, educar dá trabalho. Ensinar também.
É uma missão difícil, complexa, desafiadora. Para as escolas. Para as famílias.
Mas ambos buscam algo em comum. E por essa razão que é um caminho que não se percorre sozinho. E por isso precisamos de espaço, de conversa, de trabalho em conjunto.
Mais do que uma boa oferta de conteúdos, a escola deve ser um espaço dialógico e democrático, aberto para a comunicação. Isso é o que fará diferença na melhoria da aprendizagem dos alunos, pois um clima escolar onde impera a compreensão, o respeito às diferenças ensina aos alunos a importância do olhar ao outro, da empatia, da sensibilidade e da reflexão. É neste clima que formam-se cidadãos que não se apoiam em suas verdades absolutas, mas que serão capazes de respeitar o próximo e o mundo em que vivem.
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Juliana T. Kuchla
* Diálogo escola-família : parceria para a aprendizagem e o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens / organização Tereza Perez. — São Paulo : Moderna, 2019.
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