O QUE É INOVAÇÃO NO CONTEXTO ESCOLAR?


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AFINAL, O QUE É INOVAÇÃO?


Muitos autores tentam definir a inovação no contexto escolar. Por essa razão, existe uma pluralidade de entendimentos quando abordamos o tema da inovação educacional. Mas, para melhor explicar, devemos pensá-la em uma visão sistémica levando em consideração os contextos, a história e as reformas dos sistemas educativos.

Historicamente podemos constatar que desde o século passado o termo “inovação”  fazia parte de um discurso cuja tentativa era provocar uma ruptura do tradicionalismo escolar, e nesse período, muitas reformas educacionais representaram uma sequência de insucessos, com a imposição de novas práticas, mudanças abruptas de práticas pedagógicas que reduziam a autonomia profissional dos professores. Hoje compreendemos que a inovação possui uma amplitude, capaz de adotar múltiplas formas e significados, relacionados com o contexto no qual se insere. 

Ao olharmos para a história das escolas, percebemos que as reformas educacionais consistiam em dar às escolas soluções para as crises dos seus sistemas vigentes, e conduziam as mudanças de cima para baixo, não levando-se em consideração que as escolas são organizações que aprendem, ou seja, as mudanças não devem ser apropriadas por imposição, e sim, ao longo do tempo.

Por várias décadas permaneceu a concepção de inovação como um processo que poderia ser planejado e controlado. Assim, diante da insatisfação com os resultados, atribuía-se os fracassos das reformas à uma denonimada “resistência às mudanças” por parte dos professores e das escolas, sem uma reflexão de que inovar não significa somente implementar novas práticas. Inovar consiste em uma disposição contínua de inovar a inovação. Outro equívoco foi a generalização de estratégias inovadoras às escolas sem levar-se em consideração os contextos. É necessário perceber que o que é inovação para um, pode ser rotineiro para outro e que cada ambiente educacional é singular.

Para Pintassilgo (2019), o conceito de inovação muitas vezes é usado como uma espécie de slogan. Há quem utilize o conceito para definir as práticas opostas ao conservadorismo, outros fazem o uso da palavra “inovação” como estratégia de marketing, para vender uma ideia de uma instituição inovadora visando obter um destaque entre as demais. Conforme Fullan (1987, 2000), a inovação é um processo, não um acontecimento. Envolve uma alteração da prática existente para se passar para uma prática nova ou revista (implicando potencialmente algum destes três elementos: materiais, ensino e convicções), com vista a obter determinados resultados desejados nas aprendizagens dos alunos. Por essa razão, não devemos confundi-lo com mudança, pois nem sempre esta implica em uma melhoria, apesar de que uma melhoria sempre conduz a uma mudança. 

A escola não é um sistema estático. Muitos professores e gestores sustentam a percepção de que a inovação está aliada à introdução das tecnologias no campo educativo, ou seja, um ponto de vista técnico que desconsidera a atribuição de sentido pelos aprendentes e da produção de inovações por parte de todos os envolvidos. A verdade é que não basta somente introduzirmos novas tecnologias na escola: a inovação educacional é concebida como um processo que muda o status dos atores da educação, e atualmente consolida-se essa nova visão, onde a escola e os docentes deixam de ser os aplicadores de inovações, passando para o status de produtores das inovações. 

Essa nova visão vem a partir de processos de intervenção educativa cuja visão está centrada na indução das mudanças a partir da sua produção pelos atores educativos. Conforme Canário (2002, p.16), deixa de estar em causa ensinar as escolas a serem criativas e inovadoras e passa a estar em causa realizar com elas um processo de aprendizagem a partir do que elas próprias produzem. Mas para que isso ocorra, é preciso dar voz às escolas e ouvir o que elas têm a dizer. 

Assim, a base da inovação depende do desenvolvimento de práticas reflexivas que permitam a construção do conhecimento sobre aquilo que se faz, e de forma continuada usar este conhecimento na própria prática. É um ciclo, e portanto a inovação não é um fim em si mesma. Os professores são detentores de conhecimentos a partir das suas vivências, possuem informações que ninguém tem. Daí a importância do desenvolvimento de práticas reflexivas, no sentido de transmitirem suas experiências através de informações. O que ocorre, muitas vezes,é que muitos docentes após a sua formação deixam de ter a motivação de aprender e se aperfeiçoar, o que forma uma barreira à inovação.  O desafio está em fazer com que os professores de fato compreendam a importância do aprender com as suas experiências, e mais, apoiem-se nestas para produzir coisas novas. 


E o que é o "novo" no campo educacional?


Também é importante debater sobre o conceito do que é “novo” no campo educacional. Em um sentido mais amplo, a palavra novo refere-se a algo que se sobrepõe àquilo que está ultrapassado, buscando um aperfeiçoamento. Porém, seria a inovação sempre uma novidade? 

Para Peter Burke (2007 apud Pintassilgo, 2018 ), as próprias inovações não o são em absoluto, podendo ser, na sua ótica, inovações aparentes, que escondem reais continuidades, podendo o inverso ser igualmente verdade, continuidades que encobrem verdadeiras inovações. Isso porque a ideia de “novo” muitas vezes não representa o absoluto novo, mas sim um resultado de uma combinação de elementos mais antigos. Além disso, a inovação nunca existe em absoluto: ela sempre está relacionada a um contexto histórico ou pedagógico, e muitas vezes mesclada de ideias ou práticas tradicionais.  Pode estar presente em novas formas de pensar, no uso diferenciado dos conhecimentos, em novos métodos, técnicas e instrumentos que levam a práticas ou comportamentos diferenciados.

A educação precisa de uma inovação contínua, para evitar a repetição e automatização de práticas, a acomodação, a ausência de reflexão que interferem na produção de resultados efetivos: ou seja, a aprendizagem. É muito mais fácil, aos docentes, repetirem o que já está se fazendo do que buscar novas formas de agir e pensar. 

Concluímos que a inovação não é algo que se impõe. Depende, entretanto, de mudanças de comportamento, de visões, necessita de tempo, análise, reflexão e uma ação motivadora, que não envolve somente os professores, mas também a gestão das organizações. Se transformações ocorrem, se a sociedade muda, como a educação pode não mudar para acompanhar estes processos? É preciso que os professores tornem-se os atores, sejam ativos, e mais do que investir em formação ou modificar as práticas, é preciso gerar uma atitude de inquietação, um espaço para dúvidas que geram o desejo de sempre buscar a compreensão e a reflexão. 

Assim, a inovação deve ser um meio de dinamizar o campo da educação, caracterizado pelo contexto e pelo momento histórico em que está inserido. Cabe ao professor assumir o papel de dinamizador, mediador, que pense em novos percursos e estratégias condizentes com o contexto social e tecnológico que se vive, tornando assim o ser humano preparado para as exigências deste novo cenário, e cabe à escola permitir que este processo ocorra. 



Juliana Terluk Kuchla


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Referências:

Canário, R. (2002) Inovação educativa e práticas profissionais reflexivas. In: Canário, R., Santos, I. Educação, Inovação e Local. Setúbal: Cadernos ICE, p. 13-23.

Fullan, M., Hargreaves, A. A escola como organização aprendente: buscando uma educação de qualidade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

Pintassilgo, J. (2018). A Educação Nova Em Portugal: Construção De Uma “Tradição De Inovação”. História Caribe. V. XIII, n.33, p. 49-82.

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