ACEs e Estresse Tóxico na Infância
As Adverse Childhood Experiences (ACEs), ou situações adversas na infância, são situações que podem gerar estresse tóxico, especialmente quando uma criança passa por essas adversidades sem receber amparo emocional adequado de seus adultos cuidadores. Dentro delas, estão categorizadas os abusos, as negligências e as disfunções familiares.
As adversidades fazem parte do desenvolvimento
Primeiramente precisamos compreender que aprender como lidar com as adversidades é uma parte importante do desenvolvimento infantil saudável. Como seres humanos, nosso corpo nos prepara para responder a uma ameaça, aumentando nossa frequência cardíaca, pressão arterial e hormônios do estresse, como o cortisol.
Vivenciar situações de estresse faz parte da vida, mas a ativação prolongada dos sistemas de resposta ao estresse do corpo pode ser prejudicial. Assim, podemos dizer que aprender como lidar com o estresse é uma parte importante do desenvolvimento.
Não precisamos de nos preocupar com o estresse positivo, que é de curta duração, ou com o estresse tolerável, que é mais grave mas é atenuado por relações de apoio. No entanto, a ativação constante dos sistemas de resposta ao estresse do corpo devido a experiências crônicas ou traumáticas, somado a ausência de relações afetuosas e estáveis com adultos, especialmente durante períodos sensíveis do desenvolvimento inicial, pode ser tóxica para a arquitetura cerebral e outros sistemas em desenvolvimento.
O quadro abaixo mostra os tipos de resposta ao estresse e seus exemplos:
ACEs: Adverse Childhood Experiences (Situações Adversas na Infância) e sua relação com o estresse tóxico
Por definição, as ACEs ou situações adversas na infância são experiências vivenciadas pela criança que incluem abusos (físico e emocional), negligência, violência ou doenças mentais do cuidador. Também estão inclusos o racismo e a violência comunitária.
De acordo com Maya Eingeimann, em seu livro "A raiva não educa, a calma educa", os ACEs são capazes de provocar estresse tóxico, o que influencia diretamente na saúde mental e física de uma pessoa. Quando alguém está sujeito a mais de quatro ACEs durante a infância, a probabilidade de essa pessoa passar a abusar de substâncias que causam dependência aumenta em onze vezes, a de contrair uma doença pulmonar e de fumar pode aumentar em três vezes; além disso, é catorze vezes maior a probabilidade de cometer suicídio e também 4,5 vezes maior a possibilidade de desenvolver depressão. Pode também contribuir para um baixo desempenho acadêmico. Outro dado alarmante: pessoas que crescem com sujeitos à influência de seis ACEs ou mais podem vir a falecer vinte anos mais cedo do que pessoas com menos ACEs.
Estes dados condizem com os estudos do Centro de Desenvolvimento Infantil da Universidade de Harvard, que em suas pesquisas sobre a biologia do estresse demonstraram que o desenvolvimento saudável pode ser prejudicado pela ativação excessiva ou prolongada dos sistemas de resposta ao estresse no corpo e no cérebro. Esse estresse tóxico pode ter efeitos prejudiciais na aprendizagem, no comportamento e na saúde ao longo da vida.
Quando a resposta ao estresse tóxico ocorre continuamente ou é desencadeada por múltiplas fontes, pode ter um impacto cumulativo na saúde física e mental de um indivíduo – durante toda a vida. Quanto mais experiências adversas na infância, maior a probabilidade de problemas de saúde posteriores. No entanto, os estudos demonstram que os relacionamentos de apoio e responsivos com adultos atenciosos o mais cedo possível podem prevenir ou reverter os efeitos prejudiciais da resposta ao estresse tóxico.
"Quando uma criança experimenta vários ACEs ao longo do tempo, sem contar com uma rede de apoio que as ajude a superar essas experiências adversas, é desencadeada uma resposta excessiva e duradoura ao estresse, que pode ter um efeito de desgaste no corpo, como acelerar um motor do carro por dias ou semanas seguidas".
É importante destacar que os ACEs podem afetar pessoas de todas as classes, níveis e rendimento e escolaridade, tendo um impacto ao longo da vida das pessoas. Negligências, abusos, relacionamentos familiares disfuncionais ocorrem em todas as classes sociais. Outra questão importante aqui é que ninguém que tenha passado por adversidades significativas (muitos ACEs na infância) ficará irreparavelmente danificado e condenado a conviver com os seus danos, embora muitos na vida adulta necessitem reconhecer os efeitos dos traumas em suas vidas e buscar minimizar seus impactos.
Caminhos...
Para quem já passou por ACEs, há uma série de respostas possíveis que podem ajudar: terapia com profissionais de saúde mental, exercício físico, passar tempo na natureza e muitas outras.A abordagem ideal, contudo, está na prevenção. Um caminho é através da informação, no sentido de ajudar as famílias a reduzirem as situações de estresse tóxico, proporcionando aos adultos e crianças uma base para que desenvolvam relacionamentos saudáveis e fortaleçam vínculos e habilidades essenciais para uma vida próspera e saudável das crianças do futuro.
Este é o propósito deste texto. Levar a informação que permita a tomada de consciência dos adultos de hoje, pensando nos adultos do amanhã.

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