Quando o lápis supera o teclado: A importância da escrita à mão para o aprendizado

Por que nos lembramos melhor das coisas quando as escrevemos à mão?

Imagem: Freepik

Em um Webinar promovido pela Revista Educação, Audrey van der Meer - pesquisadora e professora de neuropsicologia na Universidade norueguesa de Ciência e Tecnologia, Mestre pela Universidade Livre de Amsterdã e Doutora pela Universidade de Emburgo, Escócia e a co-diretora do laboratório de neurociência do desenvolvimento - fala sobre o lugar que as tecnologias devem ocupar nas salas de aula. 

A pesquisadora, que investiga o cérebro humano seus mecanismos de aprendizagem de aquisição de habilidades e participou da série documental da Netflix "Bebês em Foco", responde a seguinte questão: 


"Por que que nós lembramos melhor das coisas quando as anotamos à mão?

Confira agora um resumo do que a Dra. Audrey disse em sua palestra. Você pode assistir na íntegra clicando no vídeo abaixo. 

"

A pesquisa da Dra. Audrey, sobre a escrita a mão é baseada num estudo de 10 anos atrás de Muelller e Oppenheimer, os quais escreveram um artigo sobre como perceberam que a caneta é mais potente do que o teclado. A pesquisa envolveu um grande grupo de alunos de faculdade, divididos em 2 grupos, sendo que um grupo devia utilizar a escrita à mão e o outro teria de fazer anotações usando o teclado do computador.
Os resultados do teste demonstraram que quando se tratava de conhecimento factual, os grupos (independente de qual forma eles anotaram) tiveram igual desempenho. Porém, o grupo que anotou a mão teve melhor performance em perguntas conceituais. E isso não foi feito medindo o cérebro de nenhuma maneira foi só uma questão de comportamento e desempenho. 
Foi este estudo que motivou a Dra. Audrey a conduzir outros estudos a partir de 2017, para compreender como o cérebro funciona enquanto escrevemos à mão versus escrever no teclado."

O  que é o melhor para o aprendizado? 

Essa é a grande pergunta, e como resultado do aumento da digitalização na sociedade atual essa pergunta é muito oportuna. O que as pesquisas nestes últimos anos têm mostrado quando comparamos a digitação com a escrita à mão é que "enquanto se escreve a mão todo o cérebro fica ativo, enquanto que durante o escrever no teclado pouca atividade acontece. A escrita a mão utiliza seus sentidos, suas habilidades motoras finas, enquanto que na digitação são movimentos de dedos similares que são os mesmos para cada letra. Logo, de forma resumida, usar uma caneta para escrever ou desenhar fornece mais ganchos para o cérebro aprender e lembrar posteriormente".

Então escrever a mão deixa as crianças mais inteligentes? 

Ao escrever à mão, usamos habilidades motoras finas para formar letras no papel, o que representa um desafio complexo para o cérebro. Esse processo envolve diversos sentidos e ativa várias áreas específicas, algo que não ocorre ao digitar. A digitação é uma tarefa muito mais simples e não exige a mesma cooperação entre diferentes partes do cérebro. Assim, o cérebro não entra em um estado de alta ativação que facilita o aprendizado e a memorização.
Hoje em dia muitos alunos trocam a a papel e caneta pelo teclado. E o que os estudos mostram é que escrever a mão tem seus benefícios, já que promove uma codificação mais profunda da informação e também melhora a memória para nova informação porque é uma é uma experiência sensório motora que realmente ativa mais o cérebro.
Logo, promove muito mais o aprendizado do que digitar, o que faz refletir sobre essa tendência de algumas escolas se tornarem completamente digitais, que estão deixando de incentivar a escrita à mão. Assim, milhares de crianças de 6 anos recebem um iPad ou uma tela de toque no seu primeiro dia de escola e precisam aprender ler, escrever e contar. "Essas crianças usam o tablet o dia inteiro, daí levam para casa para fazer lição e depois ainda passam algum tempo em jogos"
Hoje em dia, muitas crianças passam grande parte do tempo em frente a uma tela e, como consequência, acabam praticamente sem instrução sobre como escrever à mão. Isso é uma pena, porque a escrita manual é um ótimo estímulo para o cérebro, além de ser uma parte importante da nossa herança cultural. Sinto que as próximas gerações não deverão ser capazes de escrever uma lista de mercado, um poema ou até mesmo uma carta de amor. Se não ensinarmos às crianças a escreverem à mão, deixaremos de estimular o desenvolvimento que elas precisam e, no futuro, poderão não ser capazes de realizar essas coisas básicas mas fundamentais, e então perderemos uma parte do que significa o ser humano.

Em 2020, foi publicado na Noruega o livro As Cobaias Digitais , escrito por um arquiteto que também é pai de três filhos. No livro, ele se pergunta se, nos dias de hoje, as crianças realmente precisam de mais competência digital quando, na verdade, o que falta são outras habilidades complementares, como a capacidade de se concentrar por períodos mais longos. "Concordo plenamente com ele, pois ele observa que estamos realizando um grande experimento com a nova geração sem realmente saber as consequências de pararmos de ensinar nossas crianças a escrever à mão", diz Audrey.
Atualmente, na Escandinávia, há uma grande discussão sobre diferentes estratégias de digitalização. Em maio do ano passado, o governo sueco cancelou seu plano de digitalização para focar mais em livros impressos, papel e caneta. Especialmente para a leitura de textos longos, estudos mostram que as pessoas aprendem e retém melhor as informações ao ler em livros físicos

Na Noruega, Audrey apresentou uma exposição para o comitê de uso de telas, onde discutiu o impacto dessa digitalização. Em novembro deste ano, o governo norueguês também deverá propor uma estratégia de digitalização, mas é provável que avancem tanto quanto a Suécia. "Precisamos, de fato, de pesquisas fundamentadas em evidências que avaliem tanto os efeitos positivos quanto os negativos das tecnologias digitais no aprendizado".

No currículo norueguês, por exemplo, a digitalização está presente já na educação infantil, com o argumento de que as práticas digitais apoiam o brincar, a criatividade e o aprendizado. Contudo, dois estudos apontam resultados contrários: uma pesquisa de 2022 mostra que o brincar se torna menos criativo quando as crianças usam telas, e um grande estudo japonês, realizado com 7.000 bebês e crianças, indica que o uso de telas reduz as habilidades de comunicação e motores. Aos 2 anos, essas crianças já apresentaram menor desenvolvimento nessas áreas, revelando o impacto das telas desde a primeira infância.

"Baseando-me nesses estudos e na minha própria pesquisa, fico muito preocupada ao ver imagens de bebês pequenos absorvidos por trás de uma tela. Sei que há bons aplicativos educativos que ensinam núcleos, números e outros conteúdos para bebês, mas minha preocupação não é com o que eles fazem na frente das telas, e sim com tudo o que perdem enquanto estão lá." - diz Audrey.

"Crianças pequenas, com menos de 3 anos, não deveriam estar sentadas quietinhas em frente a uma tela; elas deveriam estar explorando o mundo, usando seus corpos e todos os sentidos para tocar, ver, sentir e cheirar o ambiente ao redor, tanto dentro quanto fora de casa. Eles têm muito a aprender e precisam experimentar o mundo físico para desenvolver suas habilidades".

Nesse ponto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) concorda: bebês com menos de um ano não devem ter nenhum tempo de tela, seja TV, celular, tablet ou qualquer outro dispositivo. A OMS também recomenda que eles sejam fisicamente ativos. Já as crianças menores de 2 anos não devem ficar paradas ou restritas por mais de uma hora, seja em carrinhos, assentos de carro, ou outros dispositivos. Sempre que estiver sentado, o ideal é que fique no chão, livre para se movimentar. A interação com os pais é igualmente essencial: contar histórias e ler para os bebês é uma excelente maneira de estimular o desenvolvimento.

Para finalizar, minha mensagem é: não existe aplicativo que substitui o colo de um pai ou mãe.


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Fonte: Revista Educação

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