Transtorno de Déficit de Natureza: A urgência de reintegrar a natureza no cotidiano das crianças

O Transtorno de Déficit de Natureza (ou Nature Deficit Disorder, em inglês) é um termo popularizado pelo escritor e jornalista Richard Louv em seu livro Last Child in the Woods (O Último Filho na Natureza). Embora não seja um diagnóstico médico formal, ele descreve uma série de problemas físicos, emocionais e comportamentais que podem surgir devido à falta de contato com a natureza, especialmente em crianças.

Imagem: Freepik

Louv argumenta que o estilo de vida moderno, com crianças e adultos passando mais tempo em ambientes fechados e em frente a telas, reduz as oportunidades de vivenciar o ambiente natural. 

"O que estamos fazendo com as crianças? Estamos criando ambientes para elas, tanto na escola quanto em casa, em que estão usando cada vez menos dos seus sentidos; estão limitados a poucos sentidos, olhando para uma tela, usando principalmente os ouvidos e os olhos, alegando que podem ir a qualquer lugar do mundo pela internet. Estamos criando um ambiente em que, acredito, eles estão menos vivos por definição". 

Para Louv, as crianças de hoje vivenciam menos conexão com a natureza do que as gerações anteriores. E não é exagero. Algumas das pesquisas mais recentes têm associado esse afastamento, a falta de vitamina D e problemas como ansiedade, depressão, obesidade, déficit de atenção e até dificuldades sociais, já que o contato com a natureza está associado ao bem-estar mental e físico.

 "O lazer foi cortado, a educação física foi cortada nas escolas dos EUA. O que estamos pensando? Fazemos com que essas crianças fiquem sentadas o dia todo, e ficar sentado é o novo fumar", diz Louv. 

Qual pai/mãe quer que seu filho esteja menos vivo? 

"Ainda não há muita pesquisa sobre autismo, mas não consigo contar quantos pais vieram até mim e disseram: 'Li 'O Último Filho na Natureza'; temos uma criança autista ou com Asperger e começamos a levar nosso filho para fora, e houve uma mudança.Escuto isso de professores o tempo todo. Há anos ouço que, quando levam a turma para fora, para a natureza, o encrenqueiro se torna o líder. Não apenas bem comportado, mas o líder. Ouço isso repetidamente e me perguntas: o que estamos fazendo com essas crianças ao mantê-las o tempo todo na sala de aula, naquela cadeira, fazendo teste após teste, cancelando o recreio, cancelando excursões, tudo com essa teoria de que assim vamos criar uma criança melhor? Mas qual é a proporção desse grande aumento no número de crianças que tomam estimulantes, medicamentos e drogas para o comportamento? Qual proporção desse aumento pode estar relacionada ao fato de que tiramos a natureza das crianças? 

Louv destaca que experiências na natureza podem ser fundamentais para o desenvolvimento infantil, pois estimulam os sentidos, promovem a atividade física e ajudam a desenvolver a capacidade de observação e a curiosidade. Ele propõe que o contato regular com o ambiente natural é um "direito humano" essencial para o desenvolvimento saudável de crianças e adultos.

Especialmente entre os 0 aos 9 anos de idade, o contato com a natureza permite um desenvolvimento integral saudável dos indivíduos, tanto física quanto mentalmente. O contato com espaços naturais melhora as capacidades executivas, como planejamento, controle inibitório, atenção, tomada de decisão, formação de novas memórias e liberação de neurotransmissores que causam sensação de relaxamento e bem-estar.

Médicos norte-americanos estão recomendando caminhadas e brincadeiras em parques como terapia complementar no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, como relato feito pelo doutor H. Russell Searight, do departamento de psicologia da Universidade de Sault Saint Marie, em Michigan. Um manual elaborado pelo Grupo de Trabalho em Saúde e Natureza, da Sociedade Brasileira de Pediatria, recomenda que o brincar na natureza atua na prevenção à miopia, diminui a ocorrência de distúrbios do sono, reduz a ocorrência de depressão e aumenta de maneira quantitativa e qualitativa a aquisição da linguagem.
A ideia do Transtorno de Déficit de Natureza tem inspirado debates sobre o papel do contato com a natureza na educação e na criação de políticas que incentivem atividades ao ar livre, além de pesquisas sobre os benefícios da natureza para a saúde e o bem-estar humano.

No vídeo abaixo, você pode assistir a entrevista de Richard Louv sobre este assunto:



 

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