A polêmica dos bebês reborn: brinquedo ou sinal de alerta?
Confesso: este é, sem dúvida, um dos artigos de opinião mais desafiadores que escrevi nos últimos tempos. Precisei de dias para observar, escutar, digerir ideias e abrir espaço para refletir com mais profundidade. O que compartilho aqui é fruto de uma escuta atenta e de um olhar múltiplo — de professora, bióloga, pesquisadora, mulher e mãe. Será possível reunir todas essas vivências em um só texto? Talvez não completamente. Mas é justamente essa tentativa de conciliar afetos, conhecimentos e inquietações que me move a escrever.
Juliana T. Kuchla | 20 mai. 2025
Nos últimos dias, os chamados bebês reborn ocuparam o centro de uma discussão acalorada nas redes sociais. Para quem não está familiarizado, trata-se de bonecas hiper-realistas que imitam com detalhes impressionantes um recém-nascido — desde a textura da pele até os fios de cabelo e o peso corporal. Embora essas bonecas existam há anos, recentemente ganharam novo fôlego, especialmente entre grupos de mulheres que as tratam como filhos, em uma simulação da maternidade. Esse fenômeno se intensificou após eventos em espaços públicos, onde pessoas passaram a tratar os bebês reborn como se fossem crianças reais. A mídia, por sua vez, amplificou o debate ao noticiar casos em que indivíduos levaram seus bebês reborn a hospitais, criando uma linha tênue entre o simbólico e o real, gerando desconforto e inquietação na sociedade. O que, à primeira vista, poderia parecer apenas uma brincadeira de cuidado, passou a provocar críticas e até certo alarme social.
A questão não está, necessariamente, no brinquedo em si, mas no que ele escancara — ou sutilmente oculta — sobre a maneira como estamos moldando as relações humanas na contemporaneidade. Vivemos em uma era hiperconectada, onde crianças crescem imersas em estímulos visuais intensos, em narrativas adultas cada vez mais precoces e em expectativas de comportamento que raramente respeitam a leveza, a espontaneidade e o tempo da infância. Nesse cenário, os bebês reborn parecem ser apenas a superfície visível de um iceberg muito mais profundo — um sintoma de ausências, pressões e afetos deslocados.
Em um mundo moldado por filtros, curtidas e narrativas editadas, as redes sociais alimentam uma fantasia de relações perfeitas,organizadas, isentas de conflito. Um bebê reborn encaixa-se bem nesse imaginário: não chora, não contraria, não demanda energia emocional nem desafia limites. Mas também não devolve afeto, não provoca crescimento, não ensina sobre a alteridade. A relação que se estabelece é unilateral, previsível, estéril. E relações humanas — as reais — são tudo o que essas bonecas não são: imperfeitas, frustrantes, desafiadoras... e, justamente por isso, capazes de nos transformar profundamente. Se como adultos estamos entregando afeto a objetos, talvez devêssemos nos perguntar: de que estamos fugindo?
Não estamos falando aqui de colecionadores ou de usos terapêuticos acompanhados profissionalmente. O ponto de atenção está quando há uma fusão entre o simbólico e o real, quando o objeto começa a ocupar um espaço emocional que antes era reservado para relações humanas reais. A substituição simbólica do vínculo pode ser uma tentativa compreensível de lidar com a dor, mas também pode se tornar um mecanismo de fuga emocional.
"A vida real não é feita de afetos programados. Um bebê reborn não decepciona, não chora, não cresce", diz Klinjey. E é justamente aqui que mora o perigo. Afinal quando uma boneca passa a ocupar o lugar simbólico de um vínculo real — com toda a sua imprevisibilidade, frustração e crescimento —, corremos o risco de ensinar às nossas crianças - que são a nossa futura geração - que a vida pode (e deve) ser controlada, higienizada, sem ruídos emocionais.
Há uma diferença sutil entre brincar de cuidar e se apegar à ideia de um afeto sem conflito. Quando o brinquedo deixa de ser uma ponte para a imaginação e se transforma em refúgio contra o desconforto da realidade, o gesto lúdico perde sua leveza e se aproxima de uma forma de anestesia emocional. Nesse contexto, os bebês reborn ultrapassam o universo simbólico da infância e passam a sinalizar algo mais profundo: uma tentativa de controle sobre o que é o natural.
Esse fenômeno, quando se expande, não diz respeito apenas ao indivíduo, mas lança luz sobre um cenário mais amplo — o da saúde mental coletiva. Em uma sociedade marcada por solidão, pressões emocionais e vínculos frágeis, a criação de laços afetivos com objetos pode ser sintoma de uma dor silenciosa. E isso acende uma luz de alerta: talvez estejamos diante de uma manifestação contemporânea de sofrimento psíquico que merece escuta, cuidado e políticas públicas. Assim, os bebês reborn podem ser apenas indicadores da urgência de repensarmos como estamos cuidando — ou deixando de cuidar — da saúde emocional de nossa sociedade.
Do ponto de vista biológico, o ser humano é essencialmente um ser social. Nosso cérebro foi moldado evolutivamente para sobreviver em grupo — não apenas para cooperar, mas para se vincular. Desde o nascimento, estruturas cerebrais como a amígdala, o córtex pré-frontal e o sistema límbico estão afinadas para reconhecer rostos, captar expressões faciais, interpretar tons de voz e reagir ao toque humano. O que nos forma como sujeitos, portanto, não é apenas o alimento ou a segurança física, mas o olhar que nos acolhe, a voz que nos responde, o colo que nos regula.
A construção de vínculos afetivos dependem de relações vivas, recíprocas e imperfeitas. Um bebê real chora, exige, desafia — e é justamente nesses momentos que o cuidador aprende a negociar frustrações, a ler emoções e a responder com empatia. Um bebê real oferece desafios que treinam o cérebro social: como lidar com choro? Como regular a frustração? Como oferecer consolo?
Um boneco reborn, por mais realista que pareça, não oferece essa troca. Ele permite que o cuidador controle todas as variáveis, criando um "ambiente emocional previsível", que pode atrasar — ou deturpar — o desenvolvimento de competências socioemocionais mais complexas, que só se desenvolvem em relações reais, com emoções ambíguas, com rupturas e reparos.
A substituição dessas experiências por bonecos hiper-realistas, que não choram, não se desregulam e não reagem, pode parecer inofensiva — mas priva o ser humano de oportunidades de desenvolvimento afetivo genuíno. Por isso, quando falamos dos bebês reborn, não se trata apenas de julgar um brinquedo, mas de lembrar que nossas emoções são biologicamente moldadas no encontro com o outro real, com tudo o que ele carrega de imperfeição e surpresa. Somos, biologicamente e afetivamente, programados para a troca — não para o controle.
Talvez o que mais nos incomode diante dos bebês reborn não seja a boneca em si, mas o espelho que ela nos escancara — um reflexo incômodo do tempo em que vivemos. Estamos, aos poucos, trocando vínculos vivos por simulações perfeitas? Estamos ensinando às futuras gerações que amar é programar, que o outro pode ser silenciado, que afeto é algo que se controla?
Em tempos de ausências gritantes, de silêncios dentro de casa e de afetos que murcham pela falta de presença, o risco de entregarmos nosso amor a objetos que não devolvem nada é ainda mais perigoso. E quando, todos os dias, convivemos com notícias de bebês humanos sendo feridos, negligenciados ou esquecidos, o desvio desse afeto para bonecos silenciosos não pode ser visto como algo banal. É um grito disfarçado. Um pedido de colo que não encontra braços.
E o mais urgente: crianças que crescem acreditando que vínculos são confortáveis, previsíveis e sem conflito serão os adultos que um dia conduzirão nossa sociedade. Relações humanas não são feitas de controle, mas de presença. De falhas e reparos. De espera e escuta.
Precisamos, com urgência, reaprender a habitar a imperfeição das relações reais. Porque é na fricção dos encontros verdadeiros — com seus ruídos, suas demoras e suas dores — que nos tornamos humanos de verdade. É ali, no incômodo do outro que nos escapa ao controle, que o amor acontece. E transforma.

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