Seu filho não é distraído, ele está sobrecarregado!
Vivemos em uma sociedade que valoriza cada vez mais a produtividade e o desempenho — e isso, muitas vezes, recai também sobre as crianças. Na tentativa de garantir um futuro promissor, muitos pais organizam rotinas intensas para os filhos, recheadas de atividades extracurriculares, reforço escolar, esportes e cursos variados. Embora essas experiências possam enriquecer o desenvolvimento, o excesso pode trazer consequências que nem sempre são percebidas de imediato. Neste artigo, vamos refletir sobre os impactos de uma rotina infantil sobrecarregada, como isso pode afetar o aprendizado e o bem-estar emocional, e o que pode ser feito para respeitar os limites da infância. Boa leitura!
Juliana T. Kuchla | 21 mai. 2025
Uma infância sem pausas e brincadeiras é uma infância em risco
A infância é um período marcado por descobertas, experimentações e desenvolvimento integral. Segundo teorias do desenvolvimento infantil (como as de Piaget e Vygotsky), o brincar livre, a interação com os pares e o tempo para o ócio são componentes fundamentais para o crescimento saudável.
É comum entre os pais a ideia de que manter os filhos constantemente envolvidos em atividades que estimulem diferentes habilidades é essencial para prepará-los melhor para o futuro. No entanto, esse excesso de estímulos pode trazer consequências negativas para a saúde das crianças.
Crianças precisam de tempo livre. É durante os momentos de ócio que elas exploram a criatividade, desenvolvem habilidades sociais espontâneas e processam emoções e aprendizados. Quando a rotina está sempre ocupada, sem espaço para descanso ou brincadeiras livres, o corpo e a mente da criança podem entrar em estado de alerta constante — o que afeta diretamente sua saúde física, emocional e até seu desempenho escolar.
Crianças precisam brincar, explorar, mover o corpo — é assim que crescem por dentro e por fora. Como diz o professor Carlos Neto, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa: "As crianças de hoje já não têm os joelhos esfolados de tanto brincar. Estão quietas, paradas, controladas… mas será que isso é ser criança? Está na hora de deixar as crianças serem crianças, explorarem o mundo, sujarem-se, correrem, caírem e aprenderem".
O quadro a seguir mostra alguns riscos de uma agenda lotada na saúde física e mental das crianças:
Complementando estes dados, com base no argumento da infância desaparecida, Luca Cerniglia (1) e outros estudiosos introduziram o conceito de criança apressada, que aborda como as crianças são pressionadas a assumir perspectivas e responsabilidades adultas precocemente.
"A adultificação refere-se a situações em que os pensamentos, papéis ou atividades das crianças se assemelham aos dos adultos. Esse fenômeno pode abranger o "conhecimento precoce" ou crianças sendo prematuramente expostas às perspectivas da vida adulta. A adultificação também é observada quando as crianças assumem papéis adultos dentro da família, assumindo responsabilidades de cuidado além das normas de sua idade (Cerniglia, 2023)"
Essa pressa para atingir a idade adulta, que inclui a adoção de uma rotina similar à adulta, tem sido associada a várias consequências negativas, como o uso precoce de drogas e álcool, antecipação da puberdade, comportamento sexual precoce, psicopatologia e até mesmo suicídio.
Desmotivação e queda no rendimento escolar
Muitos acreditam que manter as crianças constantemente ocupadas com tarefas que desenvolvam múltiplas habilidades as tornará mais preparadas para o futuro. A intenção costuma ser positiva: proporcionar oportunidades, estimular talentos e construir um caminho de sucesso. No entanto, o excesso de compromissos pode ter efeitos contrários ao desejado.Quando a rotina de uma criança se assemelha à de um adulto — repleta de aulas regulares, reforço escolar, esportes, idiomas e outras atividades — o tempo para brincar, descansar e simplesmente não fazer nada se perde. Essa falta de respiro compromete não apenas o bem-estar emocional, mas também a saúde física e mental.
Cerniglia destaca que a crise da infância contemporânea está intimamente relacionada às práticas parentais, principalmente ao fenômeno da hiperparentalidade. Esse termo se refere à sobrecarga de atividades extracurriculares que os pais impõem aos filhos, muitas vezes na tentativa de proporcionar uma vantagem competitiva.
Com o tempo, a sobrecarga transforma momentos que deveriam ser leves em obrigações cansativas. O que antes era prazeroso vira mais um item na agenda. Como resultado, a criança começa a apresentar sinais de cansaço, irritabilidade e falta de motivação. É nesse ponto que surge um dos impactos mais visíveis: a queda no rendimento escolar.
Dificuldades de concentração, desinteresse pelas aulas e até recusa em frequentar a escola tornam-se sinais de alerta que não devem ser ignorados.
Como perceber que a criança está sobrecarregada?
Para proteger os filhos dos efeitos negativos do excesso de atividades, é fundamental que os pais estejam atentos aos sinais de exaustão emocional e física. Existem alguns comportamentos que podem indicar que a rotina está pesada demais para os pequenos:
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Maior sensibilidade emocional: A criança passa a demonstrar mais irritação, chorando com facilidade ou reagindo de forma exagerada a situações simples do dia a dia.
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Cansaço persistente: Mesmo após noites bem dormidas, ela parece sempre cansada, sem energia para realizar as tarefas.
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Sintomas físicos frequentes: Dores de cabeça, dores abdominais e outros desconfortos físicos podem surgir como resposta ao estresse e à ansiedade acumulados.
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Preocupações excessivas: A criança começa a se angustiar com seu desempenho, mostrando medo de não conseguir dar conta de tudo ou achando que nunca está se esforçando o suficiente.
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Dificuldade de foco: A atenção se dispersa com facilidade, o que pode prejudicar o rendimento escolar e o envolvimento em atividades que antes eram prazerosas.
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Alterações no comportamento: Pode haver mudanças perceptíveis, como maior agitação, irritabilidade, isolamento ou retraimento — estratégias inconscientes que a criança usa para lidar com a pressão.
Diante de tantos sinais, é fundamental lembrar que infância também é sinônimo de tempo livre, brincadeira e descanso. Proporcionar uma rotina equilibrada, que respeite os limites da criança e preserve momentos de lazer, é essencial para o seu desenvolvimento saudável — físico, emocional e cognitivo. Mais do que preparar os filhos para um futuro competitivo, é preciso garantir que vivam plenamente o presente, com leveza, segurança e bem-estar. Afinal, uma infância vivida com qualidade é o alicerce de uma vida adulta mais saudável e feliz.
Sugestão de leitura:
(1) Cerniglia, L. (2023). What Is Going on with Childhood? Behavioral Sciences, 13(8), 671. https://doi.org/10.3390/bs13080671


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