Maria Montessori: a criadora do método de ensino para crianças pobres que hoje é referência em escolas no mundo todo
A vida de Maria Montessori, a criadora do método de ensino para crianças pobres que hoje é referência em escolas no mundo todo.
Juliana T. Kuchla | 12/05/2025
Maria Montessori, criadora do famoso método pedagógico que leva seu nome, era uma mulher de caráter enérgico. A italiana, cujo nascimento completou 150 anos em 31 de agosto de 2020, projetou seu revolucionário método educacional para ajudar as crianças mais pobres e desfavorecidas, entre elas, crianças confinadas em hospícios e crianças presas em reformatórios. Só mais tarde é que ela começou a adaptar sua metodologia para crianças em geral. Hoje, paradoxalmente, os mais beneficiados por seu método de ensino são principalmente as famílias ricas, capazes de arcar com os altos custos de colocar seus filhos em uma das 65 mil escolas montessorianas que existem pelo mundo, e que oferecem uma educação exclusiva e potencialmente melhor do que a tradicional.
Figuras conhecidas como o criador da Amazon, Jeff Bezos, e os criadores do Google, Sergey Brin e Larry Page, todos hoje multimilionários, estudaram em escolas que seguem o método Montessori. No entanto, a ideia de Maria Montessori não era essa.
Quando tinha 28 anos, em 1898, Maria Montessori começou a visitar um hospício em Roma e observou, horrorizada, como os pequenos internados naquela instituição eram tratados de forma desumana, praticamente como animais. Alguns moradores de Roma tinham o hábito de visitar o local para tirar comida para as crianças, como faziam com animais no zoológico. Vestidas com aventais sujos e esfarrapados, deixadas à própria sorte, essas crianças eram chamadas de retardadas, deficientes ou simplesmente idiotas.
Entre elas, havia crianças com deficiência mental, crianças epiléticas, cegas, surdas, e autistas, que eram vistas como incuráveis. Portanto, o destino dessas crianças era o confinamento para o resto de suas vidas entre as paredes do hospício. Lá Montessori, como os italianos logo começaram a chamá-la, decidiu que isso era intolerável e começou a trabalhar.
Montessori foi a terceira mulher em Roma a se formar em medicina. Ela já havia visitado bairros pobres de Roma como médica voluntária. Também havia visitado um reformatório e ficara tão escandalizada quanto no hospital ao ver o abandono das crianças que viviam ali.
Quando tinha 28 anos, em 1898, Maria Montessori começou a visitar um hospício em Roma e observou, horrorizada, como os pequenos internados naquela instituição eram tratados de forma desumana, praticamente como animais. Alguns moradores de Roma tinham o hábito de visitar o local para tirar comida para as crianças, como faziam com animais no zoológico. Vestidas com aventais sujos e esfarrapados, deixadas à própria sorte, essas crianças eram chamadas de retardadas, deficientes ou simplesmente idiotas.
Entre elas, havia crianças com deficiência mental, crianças epiléticas, cegas, surdas, e autistas, que eram vistas como incuráveis. Portanto, o destino dessas crianças era o confinamento para o resto de suas vidas entre as paredes do hospício. Lá Montessori, como os italianos logo começaram a chamá-la, decidiu que isso era intolerável e começou a trabalhar.
Montessori foi a terceira mulher em Roma a se formar em medicina. Ela já havia visitado bairros pobres de Roma como médica voluntária. Também havia visitado um reformatório e ficara tão escandalizada quanto no hospital ao ver o abandono das crianças que viviam ali.
Montessori concluiu que a educação deveria ser uma técnica baseada em amor e respeito. "A criança é uma fonte de amor. Quando você a toca, você toca o amor", dizia. Com base nisso, ela moldou um método didático revolucionário para a época, um método baseado em confiar nas crianças.
"Os pequenos não devem ser perseguidos, forçados ou dirigidos. Também não devem ser recompensados, nem punidos, nem mesmo corrigidos.
Devem ser respeitados sem interferência e liberados em um ambiente em que tudo, espaço, móveis, objetos, esteja sob medida para eles (Maria Montessori)"
Sigmund Freud descobriu o inconsciente, Albert Einstein a relatividade e Maria Montessori, a criança, diz a BBC News Mundo Cristina de Stefano, autora daquela que é, possivelmente, a mais rigorosa e documentada biografia de Maria Montessori escrita até agora. Seu pensamento inaugurou uma nova era e muitas das coisas que hoje consideramos naturais, como respeito pelas crianças e escola democrática, fruto das suas ideias, diz a biógrafa.
Foi ela quem explicou que a criança é uma criatura com um cérebro muito poderoso, capaz de se concentrar muito e até de se auto-educar, desde que seja respeitada desde o início e tenha permissão para trabalhar, tanto na família como na escola, no seu próprio ritmo, acrescenta de Stefano.
Na biografia, intitulada Il Bambino è il Maestro: Vita de Maria Montessori (A criança é o professor: Vida de Maria Montessori, em tradução livre), envolveu cinco anos de pesquisas. Foi em 1907 que Maria Montessori abriu, em San Lorenzo, então um dos bairros mais pobres de Roma, sua primeira escola, a Casa das Crianças. Poucos anos depois, seu método daria a volta ao mundo e a tornaria uma pessoa famosa. Hoje, entretanto, muitas escolas Montessori estão em áreas abastadas e são caríssimas. Para Cristina de Stefano, isso é uma contradição. "Um método que nasceu em um bairro pobre de Roma e que foi pensado como base para a inclusão para ajudar as crianças em dificuldade, tornou-se um método para os ricos", ela diz. Sem dúvida é um paradoxo, mas também é preciso dizer que, nos países em desenvolvimento, o método Montessori é usado para ajudar, por exemplo, crianças que passaram por guerras. "Ainda há pessoas que continuam aplicando esse método para ajudar crianças em dificuldades", complementa.
A mãe Montessori
Mas essa não é a única incongruência relacionada a Maria Montessori. A mulher que dedicou sua vida às crianças, que nos ensinou a respeitá-las e valorizá-las, não foi a responsável por criar seu próprio filho. Ela havia iniciado um relacionamento amoroso com um colega médico, Giuseppe Montesano. Era uma relação livre, sem vínculos. A ideia do casamento não entrou nos planos de Montessori, porque ela não acreditava na instituição do casamento, e porque, naquela época, uma mulher casada não podia trabalhar fora de casa sem a autorização do marido.
Mas um dia, no final de 1897, Montessori descobriu que estava grávida de Montesano. Ela sabia que um filho fora de um casamento encerraria sua carreira. As duas famílias concordaram que ela daria à luz em segredo. E quando, em 31 de março de 1898, nasceu um menino, Mário, eles o registraram como filho de pai e mãe desconhecidos e o entregaram a uma enfermeira para criá-lo em Vicovaro, a 45 km de Roma. "Na vida privada, Maria Montessori teve a ousadia de manter uma relação amorosa livre", diz a biógrafa. "Ela engravidou e se recusou a casar para manter as aparências", explica.
Montesano e Montessori concordaram que os dois cuidariam da criança à distância e também concordaram que nenhum dos dois se casaria. Ela manteve o acordo, mas ele não. Quando Montesano se casou com outra mulher e reconheceu a criança perante a lei como seu filho, Maria perdeu todos os direitos sobre a criança, que tinha na época três anos de idade.
Montessori não viu seu filho até o menino completar 15 anos, mas a partir daquele momento ela lutou para recuperá-lo, mais uma vez desafiando as regras da época. E ela conseguiu, nunca mais se separou dele, embora quase até o fim de seus dias, em público, o apresentasse como seu sobrinho. A emocionante biografia de Montessori tem outros pontos obscuros, por exemplo, sua colaboração com o regime fascista de Benito Mussolini.
Mussolini ascendeu ao poder em 1922 com um golpe de Estado, iniciando um regime que, aos poucos, foi desmantelando instituições democráticas italianas para se converter, em 1925, em um regime totalitário. Mussolini tinha sido professor durante a juventude e sonhava fazer das escolas italianas fábricas de pequenos fascistas, jovens disciplinados e obedientes. Montessori, por sua vez, sonhava ver seu método pedagógico implementado nas escolas do país.
Ela e Mussolini se encontraram várias vezes e iniciaram uma estranha colaboração que durou dez anos, até que, em 1933, profundamente decepcionada ao ver que Mussolini não cumpria suas promessas de transformar as escolas italianas de acordo com seu método pedagógico, Montessori decidiu romper relações com o fascismo. Mas essa mancha em sua biografia cobrou seu preço. Ela foi indicada três vezes ao Prêmio Nobel da Paz, mas nunca ganhou, muito provavelmente por causa dessa relação com o fascismo de Mussolini.
Mas um dia, no final de 1897, Montessori descobriu que estava grávida de Montesano. Ela sabia que um filho fora de um casamento encerraria sua carreira. As duas famílias concordaram que ela daria à luz em segredo. E quando, em 31 de março de 1898, nasceu um menino, Mário, eles o registraram como filho de pai e mãe desconhecidos e o entregaram a uma enfermeira para criá-lo em Vicovaro, a 45 km de Roma. "Na vida privada, Maria Montessori teve a ousadia de manter uma relação amorosa livre", diz a biógrafa. "Ela engravidou e se recusou a casar para manter as aparências", explica.
Montesano e Montessori concordaram que os dois cuidariam da criança à distância e também concordaram que nenhum dos dois se casaria. Ela manteve o acordo, mas ele não. Quando Montesano se casou com outra mulher e reconheceu a criança perante a lei como seu filho, Maria perdeu todos os direitos sobre a criança, que tinha na época três anos de idade.
Montessori não viu seu filho até o menino completar 15 anos, mas a partir daquele momento ela lutou para recuperá-lo, mais uma vez desafiando as regras da época. E ela conseguiu, nunca mais se separou dele, embora quase até o fim de seus dias, em público, o apresentasse como seu sobrinho. A emocionante biografia de Montessori tem outros pontos obscuros, por exemplo, sua colaboração com o regime fascista de Benito Mussolini.
Mussolini ascendeu ao poder em 1922 com um golpe de Estado, iniciando um regime que, aos poucos, foi desmantelando instituições democráticas italianas para se converter, em 1925, em um regime totalitário. Mussolini tinha sido professor durante a juventude e sonhava fazer das escolas italianas fábricas de pequenos fascistas, jovens disciplinados e obedientes. Montessori, por sua vez, sonhava ver seu método pedagógico implementado nas escolas do país.
Ela e Mussolini se encontraram várias vezes e iniciaram uma estranha colaboração que durou dez anos, até que, em 1933, profundamente decepcionada ao ver que Mussolini não cumpria suas promessas de transformar as escolas italianas de acordo com seu método pedagógico, Montessori decidiu romper relações com o fascismo. Mas essa mancha em sua biografia cobrou seu preço. Ela foi indicada três vezes ao Prêmio Nobel da Paz, mas nunca ganhou, muito provavelmente por causa dessa relação com o fascismo de Mussolini.
Apesar das contradições de sua vida pessoal e de suas relações políticas, Maria Montessori deixou um legado inegável na história da educação. Seu método, fundamentado no respeito à autonomia da criança e no poder da autoeducação, transformou a forma como o mundo vê a infância e a aprendizagem. Até hoje, suas ideias influenciam práticas pedagógicas em contextos diversos — desde escolas de elite até programas sociais voltados a populações em situação de vulnerabilidade. Montessori morreu em 1952, na Holanda, aos 81 anos, mas sua visão humanista da educação continua mais atual do que nunca.
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Fonte do vídeo: Reportagem de Irene Hernández Velasco, da BBC News Mundo, publicada pela BBC News Brasil
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