O impacto do horário escolar no sono e no desempenho dos adolescentes

É desumano exigir que adolescentes cheguem às aulas às 7h15”, afirma Alyssa Shewey, professora em uma escola de ensino médio nos EUA. A fala sintetiza um problema recorrente: em muitos países, especialmente nos Estados Unidos, os horários escolares começam cedo demais, em conflito direto com a biologia dos jovens. Estima-se que mais de 40% das escolas de ensino médio norte-americanas iniciem suas atividades antes das 8h, obrigando milhões de adolescentes a estudar em estado de privação de sono.




O impacto do horário escolar no sono e no desempenho dos adolescentes

Durante a adolescência, ocorrem mudanças naturais no relógio biológico, os chamados ritmos circadianos, que regulam o ciclo sono-vigília e diversos processos fisiológicos. Nesse período da vida, o corpo tende a adormecer e despertar mais tarde. Assim, acordar cedo para ir à escola significa lutar contra a própria biologia. Pesquisas indicam que 7h15 da manhã para um adolescente equivale aproximadamente a 5h15 para um adulto.

Segundo a Academia Americana de Pediatria, adolescentes precisam dormir entre 8 e 10 horas por noite. No entanto, levantamentos mostram que a média real de sono de estudantes do ensino médio nos EUA é de cerca de 7 horas, e, em muitos casos, apenas 5 a 6 horas durante a semana. Essa privação se agrava quando os jovens tentam compensar as horas perdidas dormindo até mais tarde nos fins de semana, desregulando ainda mais seus ritmos circadianos. O resultado se manifesta em salas de aula: cabeças baixas nas carteiras, bocejos frequentes e dificuldade de concentração desde as primeiras aulas do dia.

Como resume a especialista em sono infantil e adolescente Mary Carskadon, da Universidade Brown: “Adolescentes não são preguiçosos; eles estão biologicamente programados para dormir mais tarde.”

Consequências da privação de sono


O sono insuficiente tem efeitos que vão além do cansaço. Ele impacta diretamente a saúde física, emocional e o desempenho escolar. A redução das horas de descanso prejudica a consolidação da memória e do aprendizado, especialmente durante o sono REM — estágio essencial para fixar conteúdos estudados e processar emoções.

Entre as consequências mais preocupantes estão:
  • queda nas notas e na capacidade de atenção;
  • maior risco de acidentes de trânsito, especialmente entre jovens motoristas;
  • aumento de lesões esportivas e comportamentos de risco;
  • maior incidência de depressão, ansiedade, obesidade e abuso de substâncias.

Como observa Shewey, que leciona Psicologia e aborda ritmos circadianos em suas aulas: “Se você precisa dormir, precisa dormir.” O problema é que, muitas vezes, o horário escolar impede os adolescentes de satisfazer essa necessidade básica.


Evidências científicas

A relação entre horários escolares e desempenho acadêmico tem sido amplamente estudada, com resultados consistentes apontando para os benefícios de iniciar as aulas mais tarde.

Um dos estudos mais citados é o conduzido em Seattle e publicado na revista Science Advances em 2018. Ao atrasar o início das aulas de 7h50 para 8h45, duas escolas de ensino médio observaram um aumento médio de 34 a 35 minutos de sono por noite, passando de 6h50 para 7h24. Além disso, houve melhor alinhamento com os ritmos circadianos, menos sonolência, maior atenção em sala e aumento no desempenho acadêmico. O estudo registrou ainda melhorias na frequência escolar e uma elevação média de 4,5% nas notas, com efeitos particularmente positivos entre alunos de contextos mais desfavorecidos (CBS News; Scientific American; Science).

Outro exemplo relevante é o estudo longitudinal comparativo de Alfonsi et al. (2020), que acompanhou duas turmas com diferentes horários de início — uma às 8h e outra às 9h. Os resultados mostraram que os estudantes que começaram mais tarde dormiram em média 34 minutos adicionais por noite e apresentaram melhora na atenção sustentada, maior assiduidade e desempenho superior em testes de matemática e ciências (PubMed).

Uma revisão sistemática publicada em 2021, que analisou 21 estudos internacionais, concluiu que, embora alguns resultados sejam mistos, não há evidências de que o início tardio prejudique o desempenho acadêmico. Pelo contrário: os benefícios sobre a saúde, o sono e o bem-estar dos adolescentes são consistentes (PubMed).

Evidências econômicas também reforçam a pertinência dessa mudança. Segundo o IZA World of Labor, atrasar o início das aulas melhora resultados em testes padronizados e representa uma política de baixo custo e alto impacto, especialmente vantajosa para alunos com dificuldades acadêmicas.

Internacionalmente, os exemplos se multiplicam. Na Carolina do Norte (EUA), atrasar o início em uma hora resultou em ganhos de 1 ponto em leitura e 2 pontos em matemática, sobretudo entre os alunos com desempenho mais baixo. Na Inglaterra, escolas que iniciaram as aulas às 10h registraram 12% a mais de alunos progredindo em exames nacionais. Já na Rússia, um estudo com mais de 6.500 alunos revelou que começar às 9h proporcionou mais sono, menor “jet-lag social” e melhor desempenho acadêmico (IBE – Science of Learning Portal; PubMed).

Mais recentemente, McKeever et al. (2022) acompanharam 28 escolas que passaram a iniciar suas aulas às 8h30 ou mais tarde, durante quatro anos. Os resultados foram notáveis: as taxas de graduação aumentaram de 80% para 90%, e a frequência passou de 90% para 93%, com ganhos ainda mais expressivos entre estudantes de contextos socioeconômicos vulneráveis.

Em síntese, como afirmou a pesquisadora Wendy Troxel, da RAND Corporation: “Iniciar aulas mais tarde pode ser um benefício tanto para a saúde pública quanto para a economia.”


Aspectos sociais e históricos


A questão do horário escolar também reflete desigualdades sociais. Alunos de famílias mais pobres, que dependem de transporte público ou ônibus escolares, são obrigados a acordar ainda mais cedo, acumulando desvantagens em relação a colegas com maior apoio familiar ou recursos de transporte.

Historicamente, o problema não existia em larga escala. Até meados do século XX, o dia escolar nos EUA geralmente começava às 9h. Foi apenas nas décadas de 1970 e 1980, por motivos logísticos e de redução de custos com transporte, que os distritos escolares passaram a antecipar o horário de início, sem considerar os impactos sobre a saúde dos estudantes.

Como lembra Terra Ziporyn Snider, diretora do movimento Start School Later: “Ninguém sabia nada sobre ritmos circadianos ou sono de adolescentes quando definimos esses horários. Agora sabemos que estamos causando danos ativos.”


Mudanças recentes e políticas recomendadas

Frente às evidências científicas, alguns estados norte-americanos já adotaram medidas. A Califórnia se tornou, em 2022, o primeiro estado a determinar que escolas públicas de ensino médio comecem no máximo às 8h30. A Flórida seguiu o exemplo, com legislação que entrará em vigor em 2026.

Associações médicas como a Associação Médica Americana (AMA) e a Academia Americana de Pediatria (AAP) já recomendam oficialmente que as escolas secundárias atrasem seus horários de início para promover o sono, o humor, a saúde e o aprendizado dos jovens. Na Europa, escolas da Holanda e da Alemanha vêm experimentando modelos mais flexíveis, em que disciplinas centrais são ministradas entre 10h e 14h, permitindo que os estudantes escolham horários mais adequados para matérias eletivas.


As pesquisas são claras: adolescentes não estão simplesmente “querendo dormir mais”. Trata-se de uma necessidade biológica. Forçá-los a acordar cedo demais provoca uma privação crônica de sono que impacta a aprendizagem, a saúde mental, a segurança e o futuro acadêmico.

Atrasar o início das aulas tem se mostrado uma medida simples, eficaz e de baixo custo, que aumenta o tempo de sono, melhora o desempenho acadêmico, reduz desigualdades sociais e promove o bem-estar de toda a comunidade escolar.

Como resumiu um estudante ao ser questionado sobre os horários: “Se todo mundo está reclamando de acordar cedo, então por que continuamos fazendo isso?"


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Fontes:

American Academy of Pediatrics (2014). School Start Times for Adolescents. Pediatrics, 134(3), 642–649.
Wahlstrom, K. L., et al. (2018). Later school start time is associated with improved sleep and academic performance in adolescents. Science Advances, 4(12).
Alfonsi, V., Scarpelli, S., D’Atri, A., Stella, G., De Gennaro, L. (2020). Later school start time: The impact of sleep on academic performance and health in the adolescent population. International Journal of Environmental Research and Public Health, 17(7).
Minges, K. E., & Redeker, N. S. (2016). Delayed school start times and adolescent sleep: A systematic review. Sleep Health, 2(4), 282–289.
RAND Corporation (Troxel, W. M., et al., 2017). Later school start times: An economic analysis. RAND Health Quarterly.

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