Pesquisa revela desconhecimento sobre a importância da primeira infância no Brasil
BRASIL - Uma pesquisa inédita realizada pelo Datafolha, a pedido da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, revelou um cenário preocupante sobre a percepção dos brasileiros em relação à primeira infância, fase que vai do nascimento aos seis anos de idade. O levantamento mostrou que 84% da população não considera este período como o mais determinante para o desenvolvimento humano, atribuindo maior relevância à adolescência ou à vida adulta. Apenas 15% reconhecem a primeira infância como etapa crucial.
O desconhecimento sobre o tema é evidente: 42% dos entrevistados não sabem o que significa “primeira infância”, e apenas 2% identificaram corretamente a faixa etária de 0 a 6 anos. Entre cuidadores, esse número sobe para 4%.
Isso mostra uma lacuna profunda na compreensão social da fase mais formativa da vida. A falta de reconhecimento desse período como fundamental pode afetar decisões políticas e investimentos familiares, perpetuando desigualdades. É urgente intensificar a educação pública sobre neurodesenvolvimento infantil e os ganhos de longo prazo de um investimento precoce. A ignorância sobre a própria definição desse estágio revela uma deficiência na comunicação pública e educativa. Sem saber do que se trata, a sociedade não consegue valorizá-lo. Estratégias de conscientização, como ações governamentais simbólicas (como o “Mês da Primeira Infância”), deveriam ser acompanhadas de campanhas claras e inclusivas para popularizar o termo e seu significado.
Prioridades no cuidado: amor, carinho e creche e práticas disciplinares
Quando questionados sobre os cuidados mais importantes nessa fase, amor (43%) e carinho (33%) foram apontados como prioridades, seguidos por atenção a rotinas de alimentação, saúde e educação. O ingresso em creches e pré-escolas foi citado por apenas 14% da população.
A pesquisa também investigou práticas de disciplina. A maioria dos cuidadores (96%) afirmou preferir conversar sobre o erro, enquanto 93% recorrem ao diálogo para acalmar a criança. No entanto, 29% admitiram o uso de práticas violentas, como palmadas e beliscões, inclusive com crianças de até três anos. O levantamento apontou ainda que 58% recorrem a castigos e 43% afirmam gritar ou brigar.
Apesar de valorizarem a afetividade — essencial, sem dúvida — a baixa valorização da educação infantil formal (creches e pré-escola) revela uma visão limitada do que constitui cuidado de qualidade. O brincar e a estimulação educacional podem ser subestimados. É crucial promover a visão de que afetividade e educação andam juntos, não se excluem.
“É revelador que o respeito aos mais velhos seja considerado mais importante para o desenvolvimento infantil do que brincar livremente ou frequentar unidades de educação infantil. Isso mostra como valorizamos a obediência acima de experiências fundamentais para o desenvolvimento pleno, como o brincar, que é um dos principais meios de aprendizagem da criança pequena, e a frequência à creche e pré-escola”, analisa Mariana Luz.Também, a contradição entre o que se sabe ser eficaz (diálogo, calma) e o que é praticado (violência física, castigo, gritos) aponta para uma lacuna cultural arraigada. Mesmo com conscientização, muitos replicam padrões disciplinares tradicionais. É necessária uma educação continuada para pais e cuidadores, com suporte prático e afetivo, além de políticas públicas que promovam a parentalidade positiva.
Tempo de tela na primeira infância
Outro ponto de atenção é a exposição às telas. Crianças de 0 a 6 anos passam, em média, de duas a três horas por dia diante de dispositivos eletrônicos. Entre os pequenos de até três anos, 78% já são expostos diariamente, número que sobe para 94% na faixa de 4 a 6 anos. Mais da metade dos entrevistados (56%) acredita que o uso excessivo prejudica a saúde, e 42% destacam que a prática limita a socialização. Especialistas da Sociedade Brasileira de Pediatria recomendam que crianças menores de dois anos não tenham contato com telas e que, após essa idade, o tempo seja limitado a uma hora por dia, sempre com acompanhamento.
Há um abismo entre os conselhos médicos e a realidade familiar: mães, muitas vezes, veem as telas como ferramentas para cuidar das atividades diárias. Intervenções devem ser empáticas, oferecendo alternativas práticas, como brincadeiras simples, espaços de convivência comunitária e horários acessíveis, para aliviar as famílias e reduzir a dependência das telas.
A pesquisa foi realizada entre os dias 8 e 10 de abril de 2025, com 2.206 entrevistas presenciais em diferentes regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais para a amostra geral e de três pontos para o grupo de responsáveis por crianças.
Os resultados reforçam a necessidade de ampliar a conscientização da sociedade sobre a relevância da primeira infância, período decisivo para o desenvolvimento físico, emocional e cognitivo, e ainda pouco valorizado pela maioria dos brasileiros.
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