A adultização infantil que ninguém vê (ou fingem não ver)
O recente vídeo do influenciador Felca, que expôs a exploração de crianças por influenciadores e youtubers e denunciou como redes de pedofilia se alimentam desse conteúdo, jogou luz sobre um problema grave e muitas vezes invisível: a adultização infantil. Mais alarmante ainda é perceber que, em muitos casos, o material que expõe e sexualiza crianças é publicado com o consentimento, ou até incentivo, dos próprios pais, movidos por engajamento ou retorno financeiro. Mas a adultização não se limita à erotização ou à exploração de imagens na internet. Ela também está presente em condutas cotidianas, socialmente aceitas e até incentivadas, que encurtam a infância e empurram crianças e adolescentes para papéis e responsabilidades de adultos.
Quando a infância é abreviada
No trabalho infantil: quando a criança precisa trabalhar para ajudar a sustentar a família. Além de comprometer o direito à educação e ao lazer, sobrecarrega emocionalmente e antecipa preocupações típicas da vida adulta, prejudicando o desenvolvimento integral.
Nos personagens de programas e desenhos infantis: Ao assistir programas de TV infantis, não é raro encontrar crianças sendo representadas por atores muito mais velhos, cujos personagens agem como adultos. Esse é um dos muitos efeitos da adultização precoce, fenômeno que hoje está presente não apenas nos meios de massa, como televisão e cinema, mas também nas redes sociais.
Esse processo afeta especialmente as meninas, que além disso enfrentam a erotização. A adultização acontece até na hora da brincadeira, com a oferta de bonecas excessivamente magras e loiras, que reproduzem padrões de beleza inalcançáveis desde muito cedo. A adultização precoce também se manifesta na sexualização de personagens em programas e filmes infantis. Elementos do universo adulto — sapatos de salto alto, maquiagem, esmaltes — são introduzidos na vida das garotas muito cedo (Fonte: Instituto Alana).
Na substituição do brincar: uma menina de 9 anos que deixa bonecas de lado para passar horas vendo tutoriais de maquiagem. O brincar simbólico é essencial para o desenvolvimento cognitivo e emocional, e seu abandono precoce é um sinal de encurtamento da infância.
Na inversão de espaços: trocar o parque pelo shopping como lazer. A substituição de espaços de exploração e movimento por locais de consumo limita experiências sensoriais e sociais fundamentais para a criança.
No consumo adulto precoce: adolescentes com coleções de cosméticos sofisticados ou que consomem bebidas alcoólicas em festas sem supervisão. Isso normaliza hábitos e riscos que exigem maturidade para lidar, antecipando preocupações estéticas e condutas nocivas.
No acesso indevido: adolescentes dirigindo sem idade ou maturidade para isso. Além do risco físico, é a autorização para assumir responsabilidades e perigos próprios da vida adulta sem a devida preparação.
Na exposição planejada: mães postando fotos de filhas posando como modelos, com roupas de grife e maquiagem pesada. A imagem é tratada como produto, incentivando a autoavaliação baseada na aparência e alimentando estereótipos que podem gerar vulnerabilidade a abusos.
Na dependência estética precoce: crianças que não vão à escola sem maquiagem. A autoestima passa a depender de padrões externos e artificiais, minando a aceitação da própria imagem.
Na produção de conteúdo: quando o tempo livre é gasto criando vídeos para o TikTok ou shorts no YouTube, em vez de brincar, inventar histórias ou interagir com amigos. A dinâmica de likes e visualizações cria pressão por performance e popularidade, algo que não deveria fazer parte da infância.
No isolamento: filhos que passam mais tempo trancados no quarto do que vivendo momentos de conexão, como assistir a um filme com a família ou preparar uma refeição em família. O isolamento reduz a troca afetiva e a construção de memórias coletivas, essenciais para o senso de pertencimento.
E não é só no universo doméstico. No próprio vídeo de Felca, aparecem adolescentes de 13 e 14 anos se apresentando como “coachs financeiros”, criticando a escola e os estudos, reproduzindo discursos prontos sobre produtividade e sucesso — mais um exemplo de adultização travestida de “precocidade” e “maturidade”.
O que a infância precisa
A infância não é apenas uma fase biológica, é um território de construção emocional, social e criativa. Ela precisa de atenção, brincadeiras, interação livre, fantasia, liberdade, imaginação, descobertas, artes e movimento. É nesse espaço protegido que a criança aprende sobre si mesma e sobre o mundo, desenvolve empatia e criatividade, e constrói a base para uma vida equilibrada.
O pediatra Daniel Becker resume de forma contundente:
“Quando apressamos a vida adulta, nós estamos amputando a infância das crianças. A medicina pode evoluir a ponto de prolongar a vida, mas serão anos a mais de velhice. A infância ainda assim irá durar apenas 12 anos: é ali que mora a magia, a aventura, a delícia de viver, a semente de uma vida saudável. Portanto, vamos proteger a infância.”
Jean Piaget já apontava que a infância é o período essencial para o desenvolvimento das estruturas cognitivas e sociais que fundamentam a construção da identidade e das relações humanas. É nessa fase que a criança internaliza as bases do seu mundo emocional e social, elementos imprescindíveis para o equilíbrio da vida adulta. Ao forçar a criança a se comportar como adulto antes do tempo, interrompemos esse processo natural, comprometendo seu desenvolvimento integral e prejudicando sua capacidade de construir relações saudáveis e uma identidade sólida no futuro.
Infância: uma responsabilidade coletiva
Proteger a infância não é apenas uma responsabilidade dos pais: é um compromisso coletivo que envolve famílias, escolas, governos, empresas, influenciadores e cada cidadão. Significa questionar hábitos que parecem inofensivos, mas que roubam anos preciosos de descobertas e imaginação. É exigir que marcas e plataformas digitais assumam limites éticos, que escolas preservem o espaço lúdico e que políticas públicas assegurem tempo, segurança e oportunidades para brincar. É dizer “não” à pressa em amadurecer e “sim” ao tempo de viver a infância com plenitude. Porque infância não se repete. E, quando a perdemos cedo demais, não há rede social, sucesso precoce ou aplausos virtuais que devolvam aquilo que ficou para trás.

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