Telas e emoções: estudo revela ciclo preocupante entre uso de telas e problemas emocionais em crianças

Pesquisa com mais de 290 mil crianças mostra que quanto mais tempo diante das telas, maiores os riscos de ansiedade, agressividade e baixa autoestima, e que esses mesmos problemas levam ao aumento do uso de dispositivos.

04 ago. 2025


Imagem gerada por IA

O aumento do tempo que crianças passam em frente às telas pode desencadear problemas emocionais e comportamentais e, em um ciclo preocupante, esses mesmos problemas levam as crianças a buscar ainda mais tempo diante dos eletrônicos. Essa é a principal conclusão de um estudo internacional publicado no periódico Psychological Bulletin, da American Psychological Association.

Realizada por pesquisadores de diversos países, a pesquisa analisou 117 estudos longitudinais com mais de 292 mil crianças com menos de 10 anos de idade, abrangendo países como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Alemanha e Holanda.

“Crianças estão usando cada vez mais as telas — seja para lazer, lição de casa ou interações sociais. Descobrimos que o aumento desse tempo está ligado ao desenvolvimento de problemas emocionais e comportamentais, e que essas crianças, por sua vez, recorrem às telas para lidar com as dificuldades”, afirmou Michael Noetel, PhD, professor da Universidade de Queensland e um dos autores do estudo.

Um ciclo difícil de interromper

Segundo o estudo, o uso prolongado de dispositivos eletrônicos, como videogames, redes sociais, televisão e tarefas online, está associado a problemas como ansiedade, depressão, agressividade e hiperatividade. O padrão se mostrou mais forte em crianças entre 6 e 10 anos — mais do que nas mais novas (0 a 5 anos) — e teve efeitos distintos entre meninos e meninas.

“As meninas tendem a desenvolver mais problemas emocionais com o uso excessivo de telas, enquanto os meninos, ao enfrentarem dificuldades emocionais, são mais propensos a aumentar o tempo de tela”, explica Noetel.

O que importa não é só o tempo, mas o conteúdo

Outro fator importante é o tipo de conteúdo acessado. O uso de jogos eletrônicos, por exemplo, foi mais associado a efeitos negativos do que o uso educacional ou recreativo supervisionado. Crianças com problemas emocionais tendem a recorrer a jogos como forma de distração ou fuga, o que pode intensificar os sintomas.

Causas e soluções: uma abordagem mais ampla

Apesar de os dados apontarem uma forte correlação, os cientistas alertam que outros fatores também devem ser considerados, como o estilo parental e o ambiente familiar. “É o mais próximo que conseguimos chegar de evidências causais sem cortar o uso de telas em milhares de crianças de forma aleatória”, destacou Noetel.

A pesquisadora Roberta Vasconcellos, PhD, da Universidade de New South Wales, reforça que os resultados exigem uma abordagem equilibrada. “Ao entender que a relação entre telas e problemas emocionais é bidirecional, pais, educadores e formuladores de políticas podem adotar estratégias mais eficazes para apoiar o desenvolvimento saudável das crianças”, disse.

O que os pais podem fazer?

Os especialistas recomendam que os pais usem controles parentais, observem o conteúdo acessado e, principalmente, ofereçam apoio emocional às crianças. Restringir o uso sem entender as causas pode ser ineficaz — ou até prejudicial. Programas de apoio às famílias, combinando educação digital e saúde mental, podem ser um caminho promissor.


📌 SOBRE O ESTUDO:

Electronic screen use and children’s socioemotional problems: A systematic review and meta-analysis of longitudinal studies
Publicado em junho de 2025 no Psychological Bulletin, o estudo envolveu pesquisadores de 14 instituições internacionais, com dados de quase 300 mil crianças em cinco países (Estados Unidos, Canadá, Austrália, Alemanha e Países Baixos)

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