Matofobia: por que os estudantes têm tanta aversão à matemática?

A matemática é fundamental tanto na escola quanto no cotidiano, sendo essencial para a vida em sociedade. Contudo, muitos alunos têm dificuldade em aplicá-la na resolução de problemas reais, e essa desconexão contribui para seu baixo desempenho, especialmente em exames e concursos, onde a matemática é um dos principais fatores de insucesso. Embora não seja o único obstáculo, a matemática frequentemente representa uma barreira significativa para o sucesso acadêmico e pessoal dos estudantes.

Juliana T. Kuchla  |  28 out. 2024


Como afirmam Silvano Santos e Ines Almeida em seu artigo, a matemática historicamente é identificada no imaginário social como difícil e, portanto, feita para poucos, aparecendo no contexto escolar ora como fonte de prazer para alguns estudantes, ora como sofrimento para outros, que dela fogem sempre que possível. 
Inconscientemente, crianças, jovens, e adultos desenvolvem um bloqueio mental com relação a tudo que lhes parece Matemática, e muitas vezes passam a ter um sentimento negativo em relação a essa disciplina, o qual pode apresentar-se sob uma variedade de formas. Alguns sentem apenas aversão à Matemática, enquanto outros desenvolvem um medo da disciplina. O medo de Matemática é denominado por Papert como Matofobia, e segundo esse autor, a Matofobia “impede muitas pessoas de aprenderem qualquer coisa que reconheçam como Matemática, embora elas não tenham dificuldade com o conhecimento matemático quando não o percebem como tal".
A Matofobia, ou ansiedade matemática, é uma barreira significativa para muitos estudantes, afetando seu desempenho e até mesmo a escolha de carreiras. Essa fobia é frequentemente associada a experiências emocionais negativas, que podem originar-se tanto de metodologias de ensino quanto de estereótipos culturais em torno da dificuldade da disciplina.



Imagem: Freepik


No contexto escolar, o baixo desempenho em matemática continua sendo uma preocupação significativa nas escolas, tanto no Brasil quanto em outros países. De acordo com o Pisa, o principal exame internacional de avaliação educacional, 73% dos alunos brasileiros demonstraram habilidades matemáticas abaixo do esperado, refletindo uma dificuldade ampla e alarmante nessa área. A matemática é essencial em áreas como ciências, tecnologia, engenharia, e as habilidades adquiridas nessa disciplina têm impacto direto na preparação dos alunos para a vida, para o mercado de trabalho e para o avanço profissional.

Uma das raízes do problema pode estar na maneira como a matemática é ensinada nas escolas. Pesquisas apontam que o uso de metodologias tradicionais, com pouca conexão prática e contextualização, frequentemente resulta em uma dissociação da matemática com a realidade. Essa prática torna a disciplina abstrata e desmotivante, o que aprofunda a percepção de que matemática é apenas para "talentos naturais" ou "gênios," perpetuando o mito de que a disciplina é inacessível para a maioria dos estudantes.
Outros fatores, como a pressão social e familiar para se destacar em matemática e a exposição a situações vexatórias, como ser chamado para resolver problemas em público, também podem ser bastante prejudiciais. Essas experiências negativas podem se tornar um "trauma de aprendizado," gerando bloqueios mentais em relação à matemática, o que, para muitos, é sentido como uma ansiedade comparável à fobia social, que prejudica o desempenho acadêmico e social dos estudantes.
Esse tipo de ansiedade pode, em parte, ser atribuído a influências culturais e familiares, pois a sociedade frequentemente associa a matemática a adjetivos negativos, como difícil ou tediosa. Esse efeito é ainda reforçado por estereótipos de gênero e origem étnica, que podem desmotivar estudantes e impactar suas trajetórias acadêmicas.
Também, práticas escolares tradicionais e atitudes familiares que reforçam a ideia de que há apenas uma forma correta de resolver problemas matemáticos podem intensificar esse medo. Métodos inadequados de ensino, exposição a situações constrangedoras e a pressão para um desempenho exemplar são fatores que contribuem para o aumento da ansiedade matemática, prejudicando o desenvolvimento acadêmico e social dos aluno

Um estudo chamado "Ansiedade matemática: Fatores cognitivos e afetivos" mostra como o medo da matemática pode ter um impacto a nível cognitivo nos estudantes.Podemos destacar:

  • A ansiedade matemática pode ser semelhante a transtornos de ansiedade ou distúrbios de aprendizagem, uma vez que afeta o desempenho e a compreensão dos conceitos básicos.
  • Marcadores neurobiológicos da ansiedade matemática estão associados à hiperatividade e à conectividade anormal da amígdala, uma região ligada ao processamento de emoções negativas e comportamentos cognitivo-emocionais

  • Estudantes com alta ansiedade matemática mostram menor ativação em áreas cerebrais relacionadas ao raciocínio matemático, incluindo a desativação de áreas do córtex pré-frontal, que regula emoções.

  • A região do sulco intraparietal, crucial para a cognição numérica e a manipulação de quantidades, apresenta respostas reduzidas em estudantes com alta ansiedade matemática;

  • Estudos sugerem que regiões associadas à dor e emoções negativas, como observado em exames de eletroencefalograma, são ativadas em estudantes com ansiedade matemática durante a antecipação de uma tarefa, especialmente em divisões complexas, devido à alta demanda de memória de trabalho para controle emocional;

  • O estudante com ansiedade matofobia pode ter reações físicas, incluindo aumento na frequência cardíaca em situações de antecipação de tarefas matemáticas desafiadoras.

É preciso um olhar atento logo no início: muitas vezes um aluno passa a desenvolver aversão à matemática por não conseguir acompanhar o ritmo dos colegas nas aulas. Para a Professora Marilda G. D. Facci, do Departamento de Psicologia da Universidade de Maringá e presidente da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, "as crianças sofrem quando não estão aprendendo, pois a expectativa da sociedade é que elas aprendam. Reprovar é algo difícil para ela (a criança), e muitas vezes a indisciplina é uma reação à falta de aprendizado". 
Para Vera Lucia Felicetti, muitas pessoas sabem mais matemática do que pensam. Talvez essa falta de confiança em sua habilidade matemática tenha raiz no simples ato de evitar tudo que vem a ter ou ser matemática, ou os alunos não têm interesse, devido à forma como a disciplina lhes é apresentada. Em seu artigo, ela afirma que os estudantes têm a necessidade de praticar Matemática, e não apenas ficarem na rotina da aprendizagem de regras, procedimentos e memorizações. Essa forma de  “aprendizagem” é um desperdício de tempo e esforço para estudantes e professores e não representa a verdadeira aprendizagem. A matemática precisa ser relevante para a vida diária dos alunos - estes gostam de experimentar, precisam estar engajados, explorando, conjecturando e fazendo.

Essa realidade evidencia a necessidade de repensar as práticas pedagógicas na educação matemática, adotando uma abordagem mais ampla e conectada com a realidade dos alunos. Para promover um aprendizado significativo é necessário relacionar o conteúdo matemático às suas vivências e contextos.Também é preciso resgatar a autoestima na criança, que muitas vezes sente-se "burra" (como já ouvi de alguns alunos) diante do seu próprio desempenho e dos estereótipos criados pela própria escola ou família.  
A formação docente também é crucial, incentivando os professores a se manterem atualizados e a utilizarem estratégias inovadoras que favoreçam o engajamento dos alunos e ajudem a superar dificuldades no aprendizado da matemática. Mas também é preciso reafirmar que "o processo de aprendizado é coletivo, envolvendo escola, pais, a comunidade escolar e as políticas educacionais", com afirma a Professora Marilda. 

“A Matemática desenvolve-se como uma árvore. Ao aumentarem o tronco, os ramos e as folhas, as raízes aprofundam-se mais.” (M. Kline)


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Fontes:


Medo de Matemática e Trauma na Relação com o Aprender: uma leitura psicanalítica







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