O que os professores da Finlândia têm de diferente?

Provavelmente você já se deparou com artigos que apontam a educação finlandesa como um modelo de excelência mundial, e não por acaso. Esse sistema educacional é amplamente reconhecido e serve de inspiração para muitos países. Mas o que realmente diferencia a educação na Finlândia? E quanto aos professores finlandeses, o que eles têm de diferente de nós?

Juliana T. Kuchla   |   23 out. 2024

Imagem: Freepik

Conhecidas por sua abordagem inovadora e centrada no aluno, diferenciando-se significativamente de sistemas educacionais em outros países, as escolas finlandesas valorizam o aprendizado holístico, a autonomia do estudante e o bem-estar emocional. Isso porque elas não visam apenas o sucesso acadêmico, mas também o desenvolvimento integral dos alunos. Essa filosofia educacional tem atraído a atenção de educadores e formuladores de políticas ao redor do mundo, que buscam entender os segredos por trás do sucesso da Finlândia. Mas afinal, o que há de tão diferente?

Após visitar escolas na Finlândia, Camila F. relata em seu artigo recentemente publicado que uma dessas diferenças está na prioridade das escolas. "Engana-se quem pensa que o conteúdo puro e simples é a essência dessa qualidade toda. A chave está no equilíbrio da teoria das disciplinas com as habilidades essencialmente humanas"

Para nós, é prioridade que os alunos tenham atributos sólidos como ética, generosidade, empatia com todos, sejam pesquisadores e assumam riscos saudáveis em suas vidas. Matemática é importante, claro, mas muitos cálculos podem ser substituídos por IA. Todo o resto que comentei anteriormente, não”. (Leena Liusvaara, diretora da Ressu Comprehensive School).

Tomando como base a Escola Ressu, podemos começar pelo ambiente: as salas de aula são claras e transparentes, com muito vidro e com uma visibilidade ímpar entre o interno e o externo, numa oxigenação permanente. Nelas, estão expostos gráficos com alguns atributos do que a Ressu quer que seus estudantes desenvolvam:

O Perfil do Aprendiz
  • Cuidadosos (caring): me preocupo com os outros e com o meio-ambiente. Quero que as pessoas ao meu redor sejam felizes. Posso compreender suas necessidades e seus desejos
  • Questionadores (inquirer): sou naturalmente curioso(a) e gosto de aprender. Sou questionador sobre o mundo. Consigo pesquisar por mim mesmo(a)
  • Conhecedores (knowledgeable): sou ávido(a) por descobrir sobre o mundo ao meu redor. Eu lembro o que eu aprendo. Posso usar esse conhecimento conquistado em novas situações
  • Equilibrados (balanced): estou em equilíbrio comigo mesmo e me sinto bem. Sou saudável e tenho uma dieta saudável. Faço exercício suficiente e compreendo a importância do todo
  • Mente aberta (open-minded): eu sei que as pessoas são diferentes e fazem coisas diferentes. Eu entendo que nem todo mundo pensa da mesma forma, mas tento entender suas perspectivas
  • Bons princípios (principled): tenho bons princípios, sou justo(a) e honesto(a). Cuido dos outros. Sigo as regras
  • Tomadores de risco (risk taker): eu assumo riscos, tenho coragem de tentar o novo, desafiar as coisas. Tento resolver os problemas de maneiras variadas
  • Pensadores (thinker): eu penso sobre as coisas. Eu posso resolver problemas e tomar boas decisões de maneira independente
  • Reflexivos (reflective): eu posso refletir sobre as situações, sobre mim e sobre meu próprio aprendizado. Eu sei das minhas fortalezas e áreas em que eu preciso mais prática. Eu tento pensar sore essas coisas e me auto-aprimorar
  • Comunicadores (communicator): eu consigo me comunicar. Eu consigo falar sobre as minhas ideias, me expressar em figuras e por escrito. Conheço mais de um idioma
A diretora, no entanto, deixa claro que isso não quer dizer que o conteúdo não seja importante. Pelo contrário, o plano educacional do governo finlandês, é muito claro e específico no que deve ser aprendido em cada etapa do ensino — inclui claro a matemática, biologia, finlandês, entre outras disciplinas, totalizando 30 horas semanais de estudo.

"É missão das escolas, dos professores e da gestão escolar criar um planejamento e métodos para garantir que haja entendimento e interação sobre o conteúdo. Entendimento, não decoreba. Esse entendimento real, concreto, capaz de trazer reflexões só virá quando o lado humano do aluno estiver alinhado, observado, considerado."

Como afirma Camila, isso coloca vários pontos de interrogações sobre as nossas próprias práticas pedagógicas. Quanto, quando e como poderemos chegar a esse "equilíbrio humano + conteúdo" cada vez mais necessário e eliminar de vez o conteudismo puro e simples?

Quando nós, enquanto pais, mães, familiares, vamos parar de olhar apenas as notas e "a posição da escola no Enem" para olhar para dentro de casa e para quem nossos filhos estão se tornando?

Mas e os professores? O que eles têm de diferente?

No sistema educacional da Finlândia, a valorização dos professores é um pilar fundamental. A sociedade finlandesa valoriza e reconhece a importância da educação e, desta forma, o professor é altamente respeitado. Isso reflete na formação rigorosa que os professores passam, onde são preparados para serem profissionais altamente qualificados. Os professores finlandeses precisam ter um mestrado para lecionar em qualquer nível escolar. A formação inicial é rigorosa e inclui um forte foco na pesquisa educacional e na prática pedagógica.


Por essa razão, a sociedade finlandesa atrai os melhores talentos para a profissão. Os jovens enxergam a carreira docente como uma oportunidade de impactar positivamente a sociedade e moldar o futuro do país, resultando em uma competição saudável para ingressar nas faculdades de educação, de forma que apenas os candidatos mais qualificados se tornam professores.

A valorização dos professores tem um impacto direto na qualidade do ensino, uma vez que professores bem preparados e motivados desempenham um papel crucial no sucesso educacional do país. Além disso, a sociedade confia e valoriza os professores, o que gera um ambiente de aprendizado mais positivo e produtivo para os estudantes, incentivando um ciclo contínuo de excelência na educação.

Um professor finlandês dá aula apenas em uma instituição e geralmente fica com o mesmo grupo de alunos, acompanhando-os por cerca de 6 anos. Bem diferente do que acontece em muitos outros países.

A flexibilidade curricular do sistema educacional finlandês capacita os professores a ajustarem o ensino de acordo com as necessidades individuais de seus alunos. Essa abordagem incentiva a criatividade e personalização no processo de aprendizagem, reconhecendo que cada estudante é único.

Os professores afastam-se de uma abordagem de “tamanho único” tendo autonomia para adaptar seu ensino de forma a atender às habilidades, interesses e ritmo de aprendizado de cada aluno. Isso não apenas engaja os estudantes de maneira mais significativa, mas também ajuda a identificar e atender às necessidades específicas, incluindo aqueles com desafios de aprendizado e talentos particulares. Também não há nas escolas a figura do coordenador escolar.

Além disso, a formação contínua é muito importante. Os professores participam regularmente de programas, garantindo que estejam sempre atualizados com as melhores práticas educacionais. Esse desenvolvimento profissional constante permite que os educadores adaptem suas metodologias e incorporem inovações pedagógicas, preparando-os para enfrentar os desafios da sala de aula e atender às necessidades dos alunos. 


Outras questões importantes a serem citados sobre o sistema educacional finlandês:

  • Igualdade e inclusão: O sistema educacional finlandês destaca-se pela igualdade e inclusão, oferecendo educação pública gratuita, eliminando barreiras financeiras. As escolas garantem refeições gratuitas e adaptam o ensino às necessidades individuais dos alunos, promovendo acesso igualitário e valorizando a diversidade para alcançar resultados educacionais excelentes.
  • Menos testes, maior foco no aprendizado: diferente de países cujos sistemas educacionais que colocam grande ênfase em avaliações e testes padronizados, na Finlândia, o enfoque recai sobre o processo de aprendizado, ao invés de se concentrar nos resultados dos testes. Isso gera um ambiente educacional com menos pressão, onde os alunos são incentivados a explorar e aprender de maneira mais ampla e profunda, a desenvolverem uma compreensão mais holística do conhecimento, encorajando a criatividade, a curiosidade e a resolução de problemas. Desta forma, os alunos são incentivados a se envolverem ativamente com o conteúdo e a aprofundar seu entendimento, promovendo um aprendizado mais duradouro e significativo. Essa abordagem pedagógica tem se mostrado promissora, permitindo que os alunos se tornem pensadores críticos e autônomos, prontos para enfrentar os desafios do mundo real.
  • Menos lição de casa, mais tempo livre e espaço para a criatividade: A abordagem finlandesa limita a quantidade de lição de casa, proporcionando mais tempo livre para os alunos se dedicarem a atividades criativas, esportivas e ao descanso. Isso alivia a pressão, promove um ambiente de aprendizado menos estressante e valoriza o equilíbrio entre o desenvolvimento acadêmico e o bem-estar físico, social e emocional, preparando os alunos de forma mais holística para o futuro.O bem-estar emocional e social dos alunos também são priorizados, oferecendo pausas regulares para recarregar energias e promover interações sociais. Com apoio psicológico disponível, os estudantes desenvolvem resiliência e habilidades socioemocionais essenciais. Essa abordagem abrangente contribui tanto para o sucesso acadêmico quanto para o crescimento integral, preparando-os para uma vida mais equilibrada.Também valoriza-se o brincar como parte essencial do desenvolvimento infantil, incorporando atividades lúdicas no ensino fundamental. Essa abordagem promove criatividade, resolução de problemas, habilidades sociais e trabalho em equipe, preparando as crianças para serem adultos mais adaptáveis e colaborativos. Além de enriquecer a experiência educacional, o brincar contribui para o bem-estar emocional e social das crianças.
  • Envolvimento dos pais:  a participação ativa dos pais no aprendizado é valorizada, promovendo uma colaboração próxima com os professores para garantir o progresso educacional das crianças. A comunicação frequente entre pais e escola, não se restringindo apenas a poucas reuniões ou encontros no ano para tratar de problemas e desafios, permite um acompanhamento eficaz do desempenho e bem-estar dos alunos, além de ajustar o ensino às necessidades individuais. Essa abordagem colaborativa fortalece o suporte à educação, contribuindo para o sucesso e o bem-estar dos estudantes.
  • Incentivo a autonomia dos alunos: os alunos são incentivados a desenvolver autonomia no aprendizado, explorando tópicos de interesse pessoal e buscando respostas por si mesmos. Essa abordagem estimula o pensamento crítico, a curiosidade e a independência intelectual, fortalecendo habilidades de resolução de problemas e autodidatismo. Ao participar ativamente do processo educacional, os alunos se tornam responsáveis por seu próprio crescimento, o que contribui para o sucesso acadêmico e os prepara para os desafios da vida real com confiança e adaptabilidade.
Inovar na educação é possível quando valorizamos o ensino como um pilar da sociedade e investimos em práticas que realmente façam a diferença para o futuro dos nossos alunos.

Convido você, leitor, a refletir sobre uma questão crucial: talvez os professores da Finlândia não sejam tão diferentes dos de outros países como costumamos imaginar. A verdadeira essência do sucesso pode estar nesta combinação: um educador valorizado tanto pelo sistema educacional quanto pela sociedade, equipado com uma formação sólida e recursos adequados, e que goza de autonomia em sua prática docente.

Nas escolas finlandesas, não se acredita que a simples adoção de novas metodologias em substituição às aulas tradicionais possa transformar a educação de forma mágica. Na verdade, o próprio professor, fortalecido por suas competências e liberdade de atuação, é a verdadeira inovação do sistema educacional. Essa abordagem ressalta a importância de valorizar e confiar nos educadores como agentes de mudança, capazes de moldar e enriquecer a experiência de aprendizado de seus alunos.




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Fonte:

Camila F. (2024). Mais empatia, nem tanta matemática.

Educação na Finlândia: Principais Aprendizados

OECD. (2018). Teachers in Finland: A Finnish Perspective on Teacher Training and Work 

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