Os benefícios da aprendizagem ao ar livre na educação infantil
Diversos estudos mostram que o contato com a natureza não só melhora a saúde e o bem-estar geral, mas também oferece um ambiente de aprendizagem único. Quando expostos ao ar livre, as crianças podem experimentar benefícios significativos, como o desenvolvimento pessoal e social, um crescimento mais saudável e o aprimoramento de suas habilidades de aprendizagem.
Juliana T. Kuchla | 15 out. 2024
Um artigo publicado por pesquisadores da Finlândia aponta como um ambiente de aprendizagem o ar livre pode influenciar positivamente o crescimento pessoal e social das crianças, o seu desenvolvimento saudável, o bem-estar e as suas habilidades de aprendizagem. No entanto, para maximizar o potencial oferecido pelo aprendizado ao ar livre, é necessário obter uma compreensão mais profunda de sua implementação, particularmente em ambientes de educação e cuidados na primeira infância.
A partir de uma revisão de literatura, Leena Kiviranta e outros pesquisadores exploraram estudos em diversos países que identificam e descrevem os benefícios e desafios observados na implementação do aprendizado ao ar livre na primeira infância.O conceito baseia-se na ideia de oferecer um espaço onde as crianças exploram, brincam, constroem e criam ativamente. Esses ambientes de aprendizagem podem ser naturais ou construídos, como florestas, lagos, parques ou playgrounds, e oferecem experiências sensoriais ricas e genuínas. Além disso, podem incluir centros especializados ou excursões que proporcionam encontros de aprendizagem experienciais.
Crianças pequenas aprendem de forma holística, conectando novos conhecimentos com suas experiências diárias. Para aprender, elas precisam explorar, enfrentar desafios e encontrar soluções criativas. O aprendizado ao ar livre facilita brincadeiras exploratórias e livres, promovendo o desenvolvimento físico, social e cognitivo. Além disso, essa interação com o ambiente natural ajuda as crianças a adquirirem conhecimentos e habilidades importantes. Nestes espaços, as crianças podem usar sua imaginação e criar livremente, com materiais naturais como madeira, pedras e folhas inspirando brincadeiras criativas. Brincar com esses materiais também promove o amor e respeito pela natureza, além de fortalecer comportamentos sustentáveis. A primeira infância é um período crucial para o desenvolvimento, onde atitudes e valores aprendidos nessa fase tendem a durar por toda a vida.
No entanto, essa forma de aprendizado é influenciado por fatores contextuais como clima, cultura e disponibilidade de espaços. Em países nórdicos, como a Finlândia, a tradição de contato com a natureza facilita sua integração no sistema educacional, especialmente na educação infantil, onde é valorizado mesmo em condições climáticas adversas. O acesso fácil a ambientes naturais e sua inclusão no currículo nacional reforçam essa prática no país. Sabemos que essa não é a realidade de todos os países e seus espaços urbanos.
Benefícios do aprendizado ao ar livre
Os estudos realizados consideraram uma variedade de faixas etárias, e indicam que os benefícios de fornecer um aprendizado ao ar livre incluem:
- redução do estresse, promovendo vitalidade, criatividade e positividade. Ao mesmo tempo que as crianças ficavam fisicamente mais ativas, demonstravam emocionalmente estar mais calmas;
- estímulo ao trabalho em equipe e à interação durante atividades práticas que melhoraram o senso de responsabilidade, competência e habilidades socioemocionais das crianças;
- estímulo de emoções positivas e diminuição de emoções negativas;
- capacidade de formular perguntas mais aprofundadas;
- aprimoramento da autoconfiança, independência, comunicação e as habilidades de tomada de decisão;
- mesmo curtos períodos de tempo na natureza ou observando paisagens naturais pode diminuir a frequência cardíaca e a pressão arterial e reduzir os níveis de cortisol, ao mesmo tempo em que aumenta a atividade nervosa parassimpática;
- enriquecimento o microbioma humano, protegendo contra distúrbios alérgicos e inflamatórios e promovendo o equilíbrio imunológico;
- melhoria na concentração e a atenção dos alunos;
- uso de todos os sentidos durante a exploração, e melhoria das habilidades cognitivas, linguísticas e motoras;
- atividades baseadas em observação e investigação, como resolução de problemas e pensamento criativo, influenciaram a imaginação, a alegria, a admiração e a criatividade das crianças.
Outro fator importante a ser considerado é a influência da presença de vegetação e elementos naturais em escolas e áreas próximas, que pode facilitar o aprendizado e melhorar o desempenho dos alunos. Playgrounds com elementos naturais trazem benefícios como a redução do estresse, raiva e desatenção. Além disso, esses ambientes naturais promovem o desenvolvimento socioemocional das crianças e podem reduzir comportamentos antissociais, ansiedade e depressão.
Os estudos apontam também que o contato com os ambientes naturais ocorre de forma mais intensa nas aulas de Educação Física e Ciências, e que as práticas de aprendizagem ao ar livre dos professores não era significativamente diferente daquelas nos ambientes fechados, logo, as oportunidades para possibilidades de aprendizagem ao ar livre eram por vezes negligenciadas.
Desafios da aprendizagem ao ar livre:
Dentre os desafios para implementar práticas ao ar livre, foram identificados:
- condições climáticas, que nem sempre são consideradas favoráveis às atividades ao ar livre;
- falta de conhecimento e motivação dos professores para usar ambientes de aprendizagem ao ar livre, levando-os a não explorarem todo o potencial e os benefícios destes espaços;
- necessidade de um espaço adequado e ambientes sem tráfego e ruídos;
- necessidade de recursos, como trajes especiais ou materiais;
- gestão de grupos grandes de crianças ou adolescentes;
O papel do professor é crucial para incentivar o interesse das crianças em ambientes externos, atuando como um facilitador, focando na segurança e orientação, em vez de ensinar diretamente. No entanto, a falta de preparo e tempo é um obstáculo para muitos, que preferem o ensino em ambientes fechados, limitando o uso do potencial educativo dos espaços ao ar livre. A organização do aprendizado ao ar livre exige que os professores adaptem seu planejamento e gestão do tempo, além de reconhecer o valor desse tipo de aprendizado para o desenvolvimento holístico das crianças.
Apesar dos benefícios, a sua concretização depende de pré-condições pedagógicas, como a capacitação e preparação dos professores para organizar atividades de maneira eficaz. Quanto aos desafios relacionados a recursos e condições, muitos deles são considerados superáveis.
Em tempos em que refletimos sobre o excesso do uso de telas pelas crianças e adolescentes, sobre as salas de aula que pouco mudaram se compararmos com as salas de aula de décadas atrás, torna-se evidente que essa abordagem oferece mais do que apenas uma mudança de cenário para as crianças. Ela transforma o processo educativo em uma experiência rica e integrada, onde o desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional acontece de forma natural e envolvente.
Contudo, a implementação bem-sucedida dessa metodologia exige um olhar atento para a preparação e o suporte contínuo aos professores, que desempenham um papel fundamental como facilitadores desse aprendizado. Superar desafios relacionados a recursos, condições climáticas e organização demanda criatividade e colaboração entre escolas, famílias e comunidades. Ao valorizar e incorporar a natureza como parte do currículo, estamos não apenas promovendo o bem-estar das crianças, mas também plantando sementes para um futuro mais sustentável, consciente e conectado ao mundo natural. Essa prática nos convida a reconsiderar nossas abordagens educacionais tradicionais e a reconhecer a importância de experiências que ressoam com as necessidades holísticas do ser humano.
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Fonte: Outdoor learning in early childhood education: exploring benefits and challenges.
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