Robótica não é Pensamento Computacional: entenda as diferenças
Embora a Robótica educacional e o Pensamento Computacional compartilhem objetivos educacionais, como promover o raciocínio lógico e a resolução de problemas, eles não são sinônimos. A robótica, com suas atividades práticas de montagem e programação de robôs, é uma ferramenta poderosa que facilita o aprendizado prático e a motivação dos alunos, mas ela representa apenas um dos caminhos para desenvolver o PC. Por outro lado, o PC vai além dos objetos tangíveis e permite que os estudantes desenvolvam habilidades cognitivas para resolver problemas complexos em qualquer área, mesmo sem o uso de robôs ou dispositivos digitais. Entender essa diferença é essencial para educadores que desejam aplicar as metodologias de forma mais eficaz e integradora.
Juliana T. Kuchla | 26 out. 2024
A robótica educacional (também conhecida como robótica educativa ou pedagógica) e o pensamento computacional (PC) são conceitos distintos, embora relacionados, e entender suas diferenças é essencial para seu uso pedagógico.
A robótica educacional envolve a criação e programação de robôs para solucionar desafios, estimulando habilidades práticas, como montagem, programação, e execução de tarefas robóticas. Isso pode facilitar o desenvolvimento de habilidades como resolução de problemas e pensamento crítico, mas não abrange todo o escopo do PC. Este, por sua vez, se refere a um conjunto de habilidades cognitivas mais amplas, como decomposição de problemas, reconhecimento de padrões, depuração, abstração e algoritmos, que vão além do ambiente robótico e podem ser aplicadas em qualquer contexto de análise de problemas e tomada de decisões.
Através da robótica podem ser propostos desafios para os estudantes, que irão solucioná-los usando elementos das bases do PC. Esse processo levará os estudantes a desenvolverem agilidade de pensamento e, consequentemente, resultados mais efetivos na resolução dos problemas que lhes forem propostos. Isso se dá devido à necessidade de organização, planejamento e concentração que o aluno terá que estabelecer em todas as etapas de desenvolvimento da robótica, visto que um erro acarretará o mau funcionamento do robô e o insucesso da missão programada. Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o PC é incentivado para promover o raciocínio lógico e matemático em atividades que nem sempre envolvem robótica. Ele pode ser desenvolvido por meio de exercícios de lógica e planejamento em diversas disciplinas, enquanto a robótica é uma metodologia que aplica esses conceitos em atividades práticas específicas
Para Mitchel Resnick, apesar do potencial positivo da robótica educacional, alguns cuidados são essenciais para que essa prática realmente contribua para o aprendizado e o desenvolvimento dos alunos. Para ele, a robótica deve ser uma ferramenta para exploração e experimentação, não focando unicamente na tecnologia e na execução de tarefas mecânicas, sem desenvolver habilidades de pensamento criativo e crítico. A simples criação de projetos não garante o desenvolvimento dessas habilidades. Os recursos tecnológicos, como kits de robótica e dispositivos, por si só não são suficientes para transformarmos uma sala de aula em espaços de expressão, reflexão, criação e colaboração, e na prática, em muitos casos, os kits de robótica são utilizados de forma não criativa.
Isso ocorre especialmente quando o foco da atividade não está alinhado com as habilidades e metodologias que promovem o PC. Alguns dos principais motivos para isso são:
Enfoque excessivo na montagem: Quando a atividade se concentra apenas em seguir instruções para montar um robô, os alunos podem acabar focados em reproduzir passos específicos sem realmente pensar de forma lógica ou criativa. A montagem mecânica, embora envolva componentes tecnológicos, não estimula diretamente o desenvolvimento de habilidades de decomposição de problemas, abstração e criação de algoritmos, que são centrais ao PC.
Uso de kits pré-programados: Muitos kits de robótica vêm com programas prontos, o que limita as oportunidades para que os alunos experimentem e criem suas próprias soluções. Sem a oportunidade de desenvolver e testar seus próprios algoritmos, os alunos acabam apenas replicando processos, o que limita a prática do raciocínio lógico e do pensamento sistemático.
Falta de exploração criativa e solução de problemas: Se os projetos são muito guiados ou restritos, há pouca oportunidade para que os alunos resolvam problemas reais ou encontrem múltiplas soluções. Projetos de robótica que não incluem momentos para exploração aberta e experimentação livre podem acabar inibindo o desenvolvimento do PC, uma vez que o PC prospera em contextos onde o erro é permitido e onde se pode testar e revisar.
Ausência de integração com outras disciplinas: O pensamento computacional é fortalecido quando aplicado a diferentes contextos, como em matemática, ciências ou até mesmo artes. Kits de robótica usados de maneira isolada, sem conexões com outras áreas do currículo, podem acabar se tornando atividades tecnológicas vazias, sem conexão com o cotidiano e sem valor educativo agregado.
Formação insuficiente de professores: Sem um bom preparo para estimular o PC, os professores podem acabar usando os kits de forma superficial ou pouco didática. A falta de uma abordagem que explore a lógica e o pensamento crítico faz com que os kits sejam usados mais como brinquedos de montagem do que como ferramentas de aprendizado profundo.
Competitividade excessiva nas atividades de robótica: Quando o uso dos kits de robótica é voltado principalmente para competições, o foco dos alunos pode se restringir ao desempenho do robô em tarefas específicas. Isso limita a exploração de conceitos e habilidades de pensamento computacional, pois a pressão pela vitória pode levar os alunos a executar instruções específicas sem entender os processos subjacentes ou a lógica do funcionamento.
Para que o uso dos kits de robótica realmente contribua para o desenvolvimento do pensamento computacional, é essencial que eles sejam usados em atividades que incentivem a exploração, a experimentação e a criação. Idealmente, devem promover um ambiente onde os alunos possam formular perguntas, desenvolver suas próprias soluções e aprender com os erros — pilares do PC e da aprendizagem criativa. A robótica é uma ferramenta que pode fomentar o desenvolvimento do PC, mas este abrange um conjunto mais amplo de competências e pode ser promovido com ou sem a presença de dispositivos robóticos.

Comentários
Postar um comentário